Crítica | Olhos de Gato

estrelas 3

Após emplacar tantos sucessos baseados em seus livros, como Christine – O Carro Assassino e Carrie – A Estranha, era questão de tempo para que Stephen King recebesse mais uma proposta para escrever um roteiro, sem precisar passar por outro roteirista. A primeira oportunidade ocorreu em 1982, quando escreveu o roteiro do filme Creepshow. A segunda chance aconteceu logo em seguida, em 1985, para o filme Olhos de Gato, que utiliza dois contos do livro Sombras da Noite e possui outro escrito com exclusividade para o longa.

A obra apresenta três histórias distintas. A primeira é sobre Dick Morrison (James Woods), um homem que procura um grupo de ajuda para fumantes,  após reclamações de sua esposa, liderado pelo Dr. Monatti (Alan King). A segunda apresenta Cressner (Kenneth McMillan), um viciado em jogos de azar que faz uma aposta com o amante da esposa. E o último conta como uma garotinha (Drew Barrymore) é aterrorizada por uma pequena e assustadora criatura.

Como a sinopse revela, o longa é dividido em três histórias independentes, tendo na figura do gato seu único elo de ligação. Mesmo sendo um comentário de praxe, em análises de longas estruturados assim, vale repetir, a grande dificuldade de construir roteiros dessa maneira é o risco da obra oscilar sua qualidade e é exatamente isso o que ocorre aqui.

A primeira e segunda histórias são as que possuem o enredo mais eficiente e atraente. Aliás, as tramas são coerentes com uma das marcas de King, transformar situações comuns do cotidiano, como fumar um cigarro, em algo aterrador. No primeiro segmento, após Dick Morrison envolver-se com uma corporação nebulosa, o simples ato de acender um cigarro significa colocar sua família em risco e a obra é precisa em criar uma atmosfera de neura, parecendo que, em todo canto, há alguém vigiando-o. Além disso, o roteiro proporciona uma inteligente crítica ao vício do cigarro, mostrando a incoerência do protagonista, uma vez que seu hábito mata a si e quem está ao redor, aos poucos, no entanto, ele só toma providências quando alguém literalmente ameaça assassinar seus entes, algo que, na prática, já ocorre em meio a fumaça expelida.

Assim como o primeiro, o segundo conto também traz um vício da realidade, o prazer em apostar, e insere ares sádicos nisto. Dessa vez, Cressner tem a impulsão de arriscar dinheiro em qualquer situação, mesmo que isso signifique colocar a vida de alguém em risco, destacando o lado doentio de seu vício. Veja, por exemplo, o momento em que o personagem joga, com um amigo, se o gato conseguirá ou não atravessar uma avenida; o animal consegue, mas a consequência disso é um acidente envolvendo diversos carros, fator, obviamente, ignorado pelo personagem. Mas o verdadeiro sadismo do protagonista surge quando ele toma providências contra o amante de sua esposa, apostando que o rapaz não consegue caminhar por toda a borda do prédio e voltar ao mesmo lugar. Durante a trajetória do rapaz, o velho tenta derrubá-lo com buzinas, mangueiras e provocações, evidenciando como a diversão da aposta, nada mais é, do que torcer pelo fracasso de alguém, algo evidentemente antiético.

Outro destaque é a forma como Lewis Teague varia sua direção, de acordo com cada história. Na primeira parte, por exemplo, a câmera é inquieta e segue o personagem a todo canto, além de recorrer à alguns planos inclinados, destacando sua perturbação com a vigilância e criando justamente a sensação de que ele está sendo seguido a todo momento, assim como a câmera. Já na segunda história, Teague aposta em planos mais abertos e ângulos plongée, ressaltando a altura do prédio e criando uma sensação de vertigem, mas também recorre pontualmente à alguns planos fechados, mostrando um pássaro bicando o tornozelo do rapaz que realiza a travessia, aumentando a sensação de agonia de quem assiste.

Porém, ao chegar ao terceiro segmento, somos surpreendidos por uma história que em nada se assemelha com as demais. Se antes os temas abordados envolvem elementos simples, como fumar e apostar, a parte final apresenta um troll, ficando clara a disparidade temática entre os episódios. Com relação aos efeitos especiais, a parte final é a que mais se destaca, uma vez que a criatura convence e as sequências dentro do quarto da garota, sob a perspectiva do monstro, são bem feitas, mas não deixa de ser decepcionante assistir uma luta final entre um gato e um troll quando nos acostumamos em ver na tela medos reais do cotidiano. Obviamente, há a argumentação de que o representado ali é um medo infantil, enquanto os outros eram de adultos; no entanto, mesmo assim, a temática poderia ser mais realista, como as demais. Contudo, não é o que acontece, prejudicando a organicidade do longa.

Os motivos que incentivaram Stephen King a escrever o último conto, que não baseia-se em nenhuma de suas obras literárias, são claros. O escritor inspirou-se em Além da Imaginação, famosa série de TV, a qual King é declaradamente fã. Aliás, a própria estrutura do filme atesta isso, três episódios de 30 minutos. Contudo, por mais que a homenagem seja válida, Olhos de Gato é um filme, necessitando ser analisado como tal. Portanto, a falta de coesão da última história com as demais pesa no resultado final.

Se a qualidade de cada ato muda, pelo menos, as interpretações permanecem boas em cada um. Os três atores responsáveis por protagonizar cada história constroem com eficiência a cerne de seus personagens. Portanto, Drew Barrymore interpreta bem a garotinha que não consegue transmitir sinceridade, mas sabe que há algo de errado em seu quarto; já James Woods apresenta com precisão um sujeito neurótico e ansioso por não alimentar seu vício; e Kenneth McMillan é perfeito em destacar o sadismo de seu personagem. Outro ator que merece destaque é Alan King, claramente divertindo-se em cada cena, ajudando a tornar seu papel ainda mais intrigante.

Além da inspiração em Além da Imaginação, o longa é repleto de referências à outras obras de King, mostrando, por exemplo, um personagem assistindo uma cena de A Hora da Zona Morta e perguntando ‘‘quem é que escreve essas porcarias?’’. Mas o destaque fica para a ótima sequência inicial, destacando o gatinho protagonista sendo perseguido por ninguém mais ninguém menos que Cujo, o cão vampiro, e quase sendo atropelado por Christine, o carro assassino.

Após um início extremamente promissor, Olhos de Gato é prejudicado por um ato final que não combina com os demais. No entanto, ainda assim, o filme possui dois ótimos contos e é um prato cheio para qualquer fã de Stephen King que goste de procurar easter eggs. Uma pena que a imaginação de King tenha ido longe demais, no terceiro ato. Se o escritor tivesse mantido o tom estabelecido, até então, o resultado final da obra poderia ser ainda melhor.

Olhos de Gato (Cat’s Eye) — EUA, 1985
Direção: Lewis Teague
Roteiro: Stephen King (baseado em dois contos de Stephen King)
Elenco: Drew Barrymore, James Woods, Alan King, Kenneth McMillan, Robert Hays, Candy Clark, James Naughton
Duração: 94 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.