Crítica | Olhos de Serpente

estrelas 3

Obs: esta crítica contém possíveis spoilers.

Os anos 90 foram o auge de Nicolas Cage, tendo conquistado nessa década o Oscar de melhor ator por seu trabalho em Despedida em Las Vegas. Portanto, a expectativa foi muito grande quando o ator uniu-se ao mestre Brian De Palma, responsável por obras como Um Tiro na Noite e Vestida Para Matar, para estrelar Olhos de Serpente. Será que o filme corresponde às expectativas?

O longa envolve Rick Santoro (Nicolas Cage), um policial corrupto e extravagante que possui o sonho de tornar-se conhecido para ser eleito prefeito de Atlantic City. Na noite da disputa pelo cinturão do campeão mundial dos peso-pesados, ele presencia o assassinato do Secretário de Defesa do Estado. Ele, então, ajuda um velho amigo (Gary Sinise), que fazia a segurança do político, a tentar encontrar o responsável pelo crime, tendo que bancar o herói para desvendar a trama.

Desde o início da projeção fica clara a habilidade de De Palma em conduzir sua trama, usando, por exemplo, um belo plano sequência que percorre toda a arena de Atlantic City, uma estratégia inteligente para apresentar o local, personagens principais e o que está envolvido naquele evento. Aliás, é notório o talento do diretor em utilizar a câmera, sempre com travellings elegantes, planos sequências, e composições variadas, ou seja, ele cria um esquema de imagens que nunca soa repetitivo e insere dinamismo na narrativa.

A parte técnica coordenada por De Palma também se destaca por estar a serviço da história. O figurino é fundamental para criar uma primeira impressão impactante no público, portanto, quando vemos Rick Santoro com sua camiseta extravagante fica claro como ele gosta de atrair a atenção, contrastando com o uniforme preto cheio de medalhas de Kevin Dunn, destacando a disciplina e passado militar do personagem. Enquanto isso, a edição de som lembra o público da tempestade que ocorre do lado de fora da arena. Já a trilha sonora de Ryuchi Sakamoto, responsável pela música de Furyo – Em Nome da Honra,  insere um tom de suspense interessante para a trama.

Outro ponto a favor do diretor é sua escolha de elenco, principalmente em Nicolas Cage como protagonista, uma vez que, o ator transmite com perfeição as intenções duvidosas de seu personagem, criando um Rick Santoro claramente desonesto, que pensa apenas em si, mas sendo incrivelmente carismático. Já Gary Sinise convence mostrando como Kevin aparenta ser um policial correto que depois mostra sua verdadeira face e pragmatismo. Por fim, Carla Gugino constrói bem em Julia o estilo mocinha cheia de boas intenções, mas talvez devesse apostar mais na dualidade, para combinar com o tom da história.

De nada serve uma direção eficiente sem uma boa trama e o roteiro, escrito por David Koepp, possui uma premissa interessante, explorando todo o mistério em torno da conspiração que causou a morte do Ministro da Defesa, tornando todos dentro daquele local suspeitos. Além disso, é genial o confronto onde um policial corrupto precisa ser o mocinho e um ex-militar, supostamente honesto, é o vilão, criando uma inversão de valores interessante, onde ambos parecem não fazer o que desejam, mas agem pelo o que considerarem correto.

Porém, todo o potencial da história é um pouco desperdiçado por diversas situações que caem na implausibilidade e duvidam da inteligência do público, por exemplo, se Kevin queria tanto que Julia e o Ministro morressem porque ele não esperou seu companheiro realizar a tarefa para matá-lo? Outro momento mostra como Kevin não tem coragem de matar Santoro, mas comete suicídio após ser descoberto, ou seja, prezou mais pela vida do amigo do que pela própria, algo difícil de acreditar diante a frieza do personagem em alguns momentos, inclusive matando colegas de equipe.

Aliás, os detalhes destacados acima deixam claro qual o maior problema da trama: o seu vilão. Apesar de Sinise se esforçar para compô-lo, o personagem tem uma motivação clichê e ufanista (proteger os soldados do seu país), tornando o antagonista desinteressante. Além disso, para um ex-militar, Kevin mostra-se um péssimo estrategista, uma vez que, Cage descobre suas intenções com uma facilidade absurda, inclusive interrogando pessoas aliadas ao antagonista.

Apesar de problemática, a trama envolve, brinca com as dúvidas do público e entretém. Aliado a isso, Cage entrega uma ótima composição que intercala muito bem a dualidade de seu personagem e De Palma, como sempre, mostra porque é um dos grandes diretores americanos. Claro que Olhos de Serpente não é um dos melhores filmes da carreira do diretor, mas a obra funciona muito bem como thriller.

Olhos de Serpente (Snake Eyes) – EUA, 1998
Direção: Brian De Palma
Roteiro: David Koepp
Elenco: Nicolas Cage, Gary Sinise, Carla Gugino, Stan Shaw, John Heard, Kevin Dunn, Michael Rispoli, Joel Fabiani, Luis Guzmán, David Anthony Higgins
Duração: 98 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.