Crítica | Olhos Famintos

estrelas 5,0

Quando Olhos Famintos foi lançado nos cinemas em 2001, o campo do terror urgia por fertilização: a maioria das produções preocupavam-se em extrair o que podiam da “essência” de Wes Craven em Pânico e as narrativas de assassinos mascarados já havia alcançado o colapso nervoso dos filmes de terror. Com nome sugestivo e enredo simples, o filme tinha tudo para ser mais uma bobagem do gênero, mas ao contrário do que se esperava, o clima estabelecido foi um dos melhores na época.

Dinâmico e divertido, este terror dirigido pelo experiente Victor Salva é um daqueles exemplares que consegue segurar o público com apenas uma dupla de protagonistas cercado por meia dúzia de coadjuvantes que surgem em cena apenas para alimentar o vilão da vez. O mote de Olhos Famintos não é tem nada de novo: Trish (Gina Phillips) e Darry (Justin Long) são dois irmãos que se encontram numa estrada deserta retornando para casa depois de um evento distante. No caminho são encurralados por um misterioso caminhoneiro que ao passo que a narrativa avança, parece interessado em ceifar as suas vidas.

Baseado numa história real sobre o sumiço de uma dupla de turistas noticiada quando o cineasta era criança, Salva acrescentou alguma dose de fantasia e deu vida a uma criatura aterrorizante: semelhante a um enólogo, o ser que surge a cada 23 primaveras, durante 23 dias, sente o medo das suas vítimas e as escolhe a dedo. Para ser levada pelo monstro com asas de gárgula, a vítima precisa preencher alguns requisitos. Em suma: a criatura só mata aqueles que possuem algo interior que a interesse.

Não me perguntem os motivos: isso não fica devidamente esclarecido no filme, mas afinal, será que é preciso explicar tudo? Um dos problemas das narrativas contemporâneas é tentar explicar tudo em detalhes para o público, deixando parco espaço para a imaginação. Alguns detalhes elididos no enredo não incomodam a fruição da narrativa e a qualidade do clima de tensão e mistério estabelecido.

No que tange aos aspectos visuais, Olhos Famintos é muito bem concebido: o esconderijo do monstro é uma espécie de Capela Sistina do Horror. O design de produção Steve Legler investiu em corpos pendurados de forma artística, num espetáculo aterrorizante orquestrado por uma equipe preocupada nos mínimos detalhes da narrativa. A montagem de Ed Marx dá ritmo aos acontecimentos e trabalha em parceria com a eficiente trilha sonora de Bennet Salvay.

A equipe de efeitos especiais , comandada por Brian Penikas, o mesmo de Cocoon, Marcas do Destino e Stigmata também merece o devido destaque. Utilizam a tecnologia, mas não ficam presos nas amarras dos efeitos. Ao construir a figura do monstro, os envolvidos criam uma obra de arte grotesca, mas interessante e menos lugar comum porque possui uma mitologia própria.

Com características modernistas, ao longo do filme o monstro precisa se alimentar das suas vítimas para alcançar a transformação. Construído à base da mitologia gótica e repleto de “simbolismo” o ser criado pelo ilustrador Brad Parke funciona por ser estruturado detalhadamente, não sendo apenas um monstro jogado no filme para espalhar sangue e terror.

Outro detalhe interessante e que merece destaque é a dinâmica estabelecida entre a dupla protagonista. Se fossem namorados, talvez a química não tivesse sido a mesma. Gina Phillips e Justin Long funcionam muito bem juntos. A relação com o monstro tornou-se mais realista devido ao que foi estabelecido nos bastidores: segundo detalhes de entrevistas, os produtores evitaram contato entre os protagonistas e o ator que interpretou a criatura. A estratégia era criar uma linha de medo e pavor, o que de fato funcionou.

Com ritmo e estilo que lembra os igualmente interessantes O Massacre da Serra Elétrica, Encurralado e Quadrilha de Sádicos, Olhos Famintos ganhou uma sequência, como já era de se esperar. O filme segue um ritmo interessante, mas não chega a ser tão interessante quanto o primeiro. A sua análise, entretanto, é tema para outra crítica. Enquanto isso, o que acha de voltar 15 anos no tempo e rever esta aventura cheia de adrenalina e mistério?

Olhos Famintos (Jeepers Creepers) – Alemanha/EUA, 2001
Direção: Victor Salva
Roteiro: Victor Salva
Elenco: Gina Philips, Justin Long, Jonathan Breck, Patricia Belcher, Brandon Smith, Eileen Brennan, Jeffrey William Evans, Avis-Marie Barnes, Steve Raulerson, Tom Tarantini, William Haze.
Duração: 88 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.