Crítica | Olmo e a Gaivota

estrelas 4,5

A diretora brasileira Petra Costa, que em 2012 causou reboliço na comunidade cinematográfica com o sue primeiro longa, Elena; e a diretora dinamarquesa Lea Glob, que faz aqui o seu primeiro longa-metragem, uniram esforços após conhecerem-se em um festival de documentários na cidade de Copenhague, na Dinamarca, e foram cotadas para assumirem a direção de um documentário, cuja produção e contatos se deu em um curto espaço de tempo antes do início das filmagens. O tema surgiu com facilidade, dada a experiência de Costa com o mundo do teatro: ela e Lea Glob iriam acompanhar o cotidiano de uma atriz de teatro, mais especificamente do Thêatre du Soleil (grupo surgido como um coletivo de artistas em 1964).

Tudo parecia estar pronto para o início das gravações até que a atriz que seria acompanhada, Olivia Corsini, disse às diretoras que estava grávida de seu parceiro Serge Nicolai, também ator do Thêatre du Soleil. Dessa notícia, as diretoras tiraram o melhor proveito cinematográfico, lírico, poético e humano possível: ao invés de trocarem de atriz ou cancelarem o projeto, elas resolveram acompanhar a gravidez de Olivia Corsini, passando de uma obra unicamente sobre o fazer artístico para uma obra sobre a maternidade, sobre a mulher como geradora da vida, sobre uma artista que está entre a carreira que tanto ama e a gestação de um bebê que tanto ama.

Eu confesso que o filme me pegou inteiramente de surpresa. Eu não esperava que a sensível abordagem para a maternidade (e também para a paternidade, em segundo plano!) e a criatividade da narrativa fossem tão altas em Olmo e a Gaivota; e a cada nova quebra de parede, a cada novo acerto dramático a cada mistura de ficção e documentário eu me via em um jogo delicioso de cinema, em um filme híbrido, inteiramente filmado no bairro de Belleville, em Paris, e com os atores Olivia Corsini e Serge Nicolai interpretando dois personagens que em dado momento do filme acabam sendo eles mesmos, papai e mamãe de primeira viagem.

Vemos a proposta da companhia de teatro em adaptar A Gaivota (1896) de Anton Tchekhov, os planos iniciais de Corsini em trabalhar até as vésperas do parto e então a complicação inesperada, a necessidade de repouso e o rumo intimista que sua vida toma, ao lado de seu parceiro; um intimismo que se aprofunda com muita ternura e muita ousadia no filme. Até o momento em que assisti Olmo e a Gaivota eu nunca havia visto um filme que se dedicasse a mostrar a maternidade através de todo o período de gestação, trazendo à tona os sonhos, os medos, as mudanças no corpo, as perspectivas de futuro e o impacto para o casal envolvido, além de nuances filosóficas, artísticas e psicológicas sobre a mãe, obtidas tanto através de depoimentos e dramatização, como na forma como a gestação é tratada na fita.

Outro ponto positivo aqui é o lirismo como os corpos nus ou vestidos, em movimento ou parados, são mostrados, especialmente o corpo da mulher. Aliás, toda a abordagem para a atriz principal recebe um cuidado estético deslumbrante e cheio de intenções narrativas, uma característica vinda da direção de Petra Costa, anteriormente utilizada em Elena, e se dá tanto na naturalidade da fotografia no presente quanto na exibição de vídeos do passado, com a atriz mais nova e em outros relacionamentos.

A completude de um “ciclo da vida” é a imediata imagem que nos vem à mente ao passo que o filme avança e o desfecho da obra, com o belo Samba da Rosa de Vinícius de Morais e Toquinho, nos emociona e nos faz ver mais uma pequena vida com olhares de cumplicidade, mais uma primavera que chega ao mundo no mesmo momento em que o filme que ela gerou chega ao fim. É o início de mais um ciclo.

Olmo e a Gaivota (Olmo & the Seagull) — Dinamarca, Brasil, França, Portugal, Suécia, 2015
Direção: Petra Costa, Lea Glob
Roteiro: David Barker, Petra Costa, Lea Glob, Moara Passoni, Martha Kiss Perrone, Marie Regan, Franz Rodenkirchen
Elenco: Olivia Corsini, Serge Nicolai, Pancho Garcia Aguirre, Shaghayegh Beheshti, Elena Bellei, Sébastien Brottet-Michel, Célia Catalifo
Duração: 87 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.