Crítica | On Yoga: A Arquitetura da Paz

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Com uma extensa e grandiosa carreira em que teve a oportunidade de fotografar personalidades das mais diversas áreas, como a atriz Catherine Zeta-Jones, o ex-jogador de basquete Michael Jordan, o diretor Martin Scorsese, a nadadora Natalie Coughlin, entre outros, Michael O’Neill se consolidou como um dos maiores nomes de sua geração na fotografia. Após décadas de trabalho, porém, o fotógrafo precisou passar por uma cirurgia por conta do estresse e pressão do trabalho, que lhe deixou com o braço direito paralisado. A partir desse momento, o retratista procurou no yoga uma forma de curar sua deficiência e acabou se encantando com todo o universo dessa prática.

É exatamente este o foco do documentário On Yoga: A Arquitetura da Paz: mostrar a relação de O’Neill com o yoga, baseando-se em seu livro homônimo, fruto de 10 anos de trabalho focado no exercício. O filme é o primeiro documentário do diretor brasileiro Heitor Dhalia e transmite calmaria, relaxamento e tranquilidade, conforme a película avança de forma maravilhosa, como se estivéssemos assistindo uma aula de yoga em formato cinematográfico. E esse é apenas um dos pontos fortes do projeto.

Através de diversos depoimentos de mestres de yoga, gurus e yogis (nome dado a quem pratica yoga), uma grande variedade de reflexões e pensamentos filosóficos acerca da prática e até mesmo da vida humana são apresentados para os espectadores, comprovando que o yoga é muito mais do que um exercício físico. É também um exercício mental, filosófico e espiritual que faz com que os praticantes busquem o autoconhecimento e a autorrealização, reconhecendo de que a felicidade se encontra no interior de cada um e não em objetos materiais e desejos efêmeros. Uma linda e profunda mensagem que é apresentada de forma extremamente reflexiva e tocante pelos idealizadores.

Mas o ponto mais alto da produção é, sem dúvidas, a fotografia de Adolpho Veloso, que nos proporciona belíssimas cenas em todo o tipo de local, seja em um plano mais fechado numa densa floresta, em um plano aberto à beira-mar, na loucura e intensidade de Nova York ou no sossego e quietude de um monastério no Tibet. As cores, igualmente magníficas, também desempenham um papel importante, pois são utilizadas, mesmo que suavemente, para nos passar sentimentos de paz, felicidade e harmonia, tornando a obra visualmente ainda mais encantadora. A fotografia é tão marcante que transmite, apenas com imagens, uma sensação semelhante aos profundos pensamentos e reflexões dos entrevistados, trazendo à tona a máxima “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

Outro ponto que vale destaque é a excelente trilha sonora de Silvio Piesco, presente em quase todos os momentos da película. Imensamente marcante, é composta, em boa parte, por arranjos leves e suaves que casam perfeitamente tanto com as declarações dadas quanto com as excepcionais imagens que nos são apresentadas. Como se não bastasse, a música ainda consegue potencializar os sentimentos de relaxamento e serenidade que nos tomam conta durante toda a reprodução, algo que não parecia possível à primeira vista.

Apesar de sentir falta de mais informações com relação aos entrevistados (não há nome, local ou quaisquer outras informações sobre boa parte das pessoas durante suas falas, algo que dificulta sabermos se é uma opinião de um guru, mestre ou yogi), On Yoga – A Arquitetura da Paz é um belíssimo documentário sobre um exímio fotógrafo que busca nesta prática uma forma de cura e acaba se apaixonando por seu universo. Possuidora de grandiosos pensamentos reflexivos, a obra consegue agradar desde os mais espiritualizados até os mais céticos, uma conquista e tanto numa sociedade tão dicotômica e cheia de extremos como a nossa.

On Yoga: A Arquitetura da Paz (On Yoga: The Architecture of Peace) — Brasil, China, EUA, Índia, 2017
Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Heitor Dhalia
Elenco: Michael O’Neill, Sadhu Vijay Giri, Moojibaba, Dra. Linda Lancaster, Dr. Dean Ornish
Duração: 87 min.

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.