Crítica | Once Upon a Time – 1ª Temporada

estrelas 4,5

Todas as histórias de contos de fadas começam com “Era uma vez…”. Ao ser intitulada assim, a série já anuncia a premissa que será largamente explorada, firmada no questionamento: “você acredita em mágica?”. A partir disso, estabelece-se o paralelo entre o mundo contido em um livro de contos e o mundo que reconhecemos como a realidade. E no núcleo dessa abordagem reconhecemos personagens familiares como a Branca de Neve e a Rainha Má, interpretadas respectivamente por Ginnifer Goodwin e Lana Parilla.

Mas o detalhe, aqui, e talvez o segredo do sucesso de Once Upon a Time, é a maneira bem costurada como a narrativa é construída de modo a decompor os enredos que conhecemos, traçando um elo de contemporaneidade entre diversos personagens e arrastando uma história para dentro da outra, tornando possível a caracterização de novas tramas.

A maneira de contar a história se enquadra perfeitamente com as constatações de Vladimir Propp, um ícone da narratologia que estabeleceu os elementos básicos da narrativa ao analisar os contos russos. Outros estariam mais familiarizados com o conceito de Monomito de Joseph Campbell que, por sua vez, serviu de base para o Memorando Vogler.

O memorando era direcionado para roteiristas e se tornou um método aderido pela Disney, onde o autor, Christopher Vogler, trabalhava à época. Mas o que de fato ocorre nesta série é o uso de uma base narrativa muito mais próxima de Propp que de Vogler, dando origem a um roteiro flexível em torno de um núcleo constante. Tudo é encaixado e removido e realocado com sucesso nesse roteiro.

Nesta primeira temporada da série, temos o desenvolvimento da trama central que se baseia na história de Emma, interpretada por Jennifer Morrison. Uma caçadora de recompensa que é encontrada pelo filho, Henry, que deu para adoção anos atrás e que agora vem impulsionar a heroína para a jornada dela. Como nos contos que Propp analisou, essa história também começa com o distanciamento da família, o membro que deixou a Floresta Encantada foi Emma, mas chegou a hora de regressar ao lar.

A realidade esconde uma maldição que congelou o tempo na pequena cidade de Storybrooke e a memória dos moradores, extraordinariamente comuns, adormece com as lembranças do passado mágico. É em desvendar os mistérios da cidade e identificar os personagens que se baseia a trama geral da temporada. Enquanto no núcleo, o importante é o relacionamento familiar. Os obstáculos são todos impetrados pela Rainha Má, que nesse mundo, se chama Regina, com a participação de outro importante personagem, Rumpelstiltskin, ou, se preferir Mr. Gold (Robert Carlyle). O mais importante de Once Upon a Time é que a história não chegou ao final feliz.

Once Upon a Time – 1ª temporada (EUA, 2011)
Criador: Edward Kitsis, Adam Horowitz
Diretor: Diversos
Roteiro: Diversos
Elenco: Ginnifer Goodwin, Jennifer Morrison, Lana Parrilla, Josh Dallas, Jared Gilmore, Robert Carlyle, Emilie de Ravin
Duração: 946 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.