Crítica | Ondas Do Destino

estrelas 5,0

“Não é diante de ti que me ajoelho, mas diante de todo o sofrimento humano.”

Fiódor Dostoievski em Crime e Castigo

Sexualidade e religião são quase uma fixação temática na obra de Lars von Trier. Quando Joe, interpretada por Charlotte Gainsbourg em Ninfomaníaca, reivindica sua sexualidade aberrante diante do grupo de viciados, o diretor dinamarquês apenas leva o tema às suas últimas consequências. Quase duas décadas antes, ao realizar o filme que lhe trouxe a consagração definitiva – o esplêndido Ondas do Destino, Lars von Trier pisava pela primeira vez no solo que ele desbravaria o longo de sua filmografia. Mas em seu filme de 1996, não há o apelo imagético nem a explicitude impactante de seu longa-metragem de 2013.

A história de Bess McNeill inicia uma trilogia centrada em personagens inocentes, desenvolvidos em tom patético e cujo comportamento sofrerá uma dura reprovação. A Trilogia do Coração de Ouro seria completada nos anos vindouros por Os Idiotas (1998) e Dançando no Escuro (2000). O curioso nome de sua trilogia Lars von Trier mesmo explica. Quando criança, ele foi muito marcado por um livro infantil de nome Coração de Ouro, que narra a história de uma menina que atravessa uma floresta com pães nos bolsos, terminando a travessia nua e sem nenhuma comida. Ela dera tudo o que tinha aos que encontrou pelo caminho e conclui a história afirmando: “eu vou ficar bem, de qualquer jeito”. A entrega sem reservas e o auto-sacrifício ilimitado da menina ressurgirá com Bess e terminará com Selma.

Dizer que Ondas do Destino segue os dez mandamentos do Dogma 95, publicados no ano anterior, é um erro relativamente frequente. Mesmo com a câmera integralmente nas mãos e filmado com iluminação natural, há vários elementos que já rompem com o recém-criado manifesto. A trilha sonora extradiegética (lindíssima, por sinal e repleta de clássicos de Elton John, Bob Dylan e David Bowie) e a fotografia com efeito granulado são alguns exemplos. Lars von Trier realizará na segunda parte da trilogia o seu único filme plenamente obediente ao movimento, exatamente no mesmo ano em que seu companheiro Thomas Vinterberg faria o mesmo com Festa de Família. Extremamente formalista, Os Idiotas é um capítulo à parte na cinematografia do diretor escandinavo. Dois anos depois, Dançando no Escuro, seu filme mais desolador, romperia novamente com o Dogma, fechando a trilogia a pleno vapor.

Em Ondas do Destino, a bondade sem concessões de Bess esbarrará no moralismo perverso de uma pequena cidade escocesa. O enredo não é mesmo fácil e, mais uma vez, Lars von Trier coloca na tela uma questão que preferimos ignorar. Quando seu marido Jan (Stellan Skarsgard) fica tetraplégico devido a um acidente em uma plataforma de petróleo e pede que ela faça sexo com outros homens, para que ele satisfaça sua esposa mesmo que por meio de outros, ocorre uma inversão surpreendente. O sacrifício não é dele, mas sim dela. Bess não deseja atender aos pedidos do marido e sofre tremendamente em seu suplício. Sente náuseas, vomita e chora. Ela afirma: “Sempre fui estúpida. Meu talento é esse”. Ela assume que seu propósito em vida é servir aos outros e abdicar de si mesma em nome de um amor tão profundo como o que sente por Jan. A atriz britânica Emily Watson rouba a cena.

Bess tem plena consciência do erro e do pecado. Dialoga com Deus, pedindo perdão e se penitenciando. Sentada no chão da igreja, ela alterna sua voz afável com outra mais grave, que Deus lhe dirige em reprimenda. Ingênua e algo infantil, Bess carrega traços semelhantes aos de Maria Madalena, a prostituta a quem Jesus dedicou palavras tão amorosas e compreensivas. Já os anciãos do vilarejo veem-se como verdadeiros emissários de Deus, dominando todos os seus desígnios (inclusive a própria salvação das almas, como o epílogo demonstra) e dispensando a sua antiga e já inútil presença – o que aparece na metáfora dos sinos retirados da igreja. Os religiosos de Lars von Trier ecoam a famosa parábola do Grande Inquisidor, de Os Irmãos Karamázov. Seu coração, movido por ódio e soberba, arruinou o amor divino entre os homens. Bess descobre que não é possível amar a Palavra, se não houver amor pelos que se desviaram Dela, isto é, pelos que caíram em tentação e pecado. É exatamente isso que ela expressa quando fala pela primeira vez na igreja.

A protagonista traz muito da prostituta Sônia, de Crime e Castigo, que se sacrifica por sua família miserável. A jovem de alma pura, mas consciente de seu pecado, busca a redenção por meio do sofrimento e do sacrifício. Quando se ajoelha a seus pés, aos prantos, o assassino Raskólnikov alcança também a sua salvação, pois curvado diante de Sônia, ele se encontra na própria presença de Deus enquanto piedade e redenção. O adultério de Bess é seu modo de sacrifício, pelo qual ela restituirá a vida ao marido. Em Ondas do Destino, Deus não está nas alturas, entre os castos e os imaculados, mas sim na baixeza dos impudicos e, sobretudo, porque eles tem a consciência de sua própria falha. Bess e Sônia ensinam que o amor ao próximo é mais fácil para aqueles que identificam em si a mesma matéria de iniquidades que constitui o outro. É mais fácil amar ao próximo padecendo na mesma lama.

Uma leitura comumente feita sobre a personagem de Emily Watson é de que ela sofreria de alguma doença mental. O diretor não dilui seu discurso totalmente contrário a essa ideia. Inquirido sobre o estado de saúde mental de Bess, o personagem Dr. Richardson declara que seu problema era ser “boa”. Ele recua de seu “diagnóstico” após ser pressionado, mas Ondas do Destino não deixa dúvidas de que categorizar sua protagonista em compartimentos psicopatológicos seria um tremendo erro de interpretação. Afinal, quem são de fato os doentes em um mundo onde a pureza tornou-se sintoma? O amor de Bess por Jan e a solução encontrada por eles para sustentá-lo após o acidente ferem mais do que somente a ética cristã adotada pelo vilarejo. O casamento da protagonista é o amor romântico em plenitude, fora do lugar e capaz de tudo. Se Romeu e Julieta se matam, Bess renuncia ao próprio corpo por amor ao marido. É a beleza desse ato que machuca tanto os outros. Voltando a Dostoievski, se a beleza salvará mesmo o mundo, há quem simplesmente não a suporte e queira medicá-la.

Lars von Trier inverte o mito grego de Penélope (a mulher que mantem a castidade por amor ao marido) para construir uma de suas personagens mais importantes e por quem surge, pela primeira vez em todo o filme, o olhar de Deus. O famoso plano zenital final, que retoma a metáfora dos sinos com evidente inspiração tarkovskiana, consagra a protagonista, romântica e pecadora, como mártir. Quase como santa. Bess é a prostituta santificada de Lars von Trier.

Ondas do Destino (Breaking the Waves) – Dinamarca, 1996
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Emily Watson, Stellan Skarsgard, Adrian Rawlings, Anthony J. O’Donnell, Bob Docherty, Brian Smith, Finlay Welsh, Jean-Marc Barr, Katrin Cartlidge, Sandra Voe, Udo Kier
Duração: 159 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.