Crítica | Onde os Fracos não Têm Vez

ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ PLANO CRITICO

SPOILERS!

“A vida é uma história contada por um idiota: cheia de som e fúria, significando nada.”

William Shakespeare – Macbeth, Ato V, Cena V.

Quando Clint Eastwood encarnou seu “pistoleiro sem nome” na célebre Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, o gênero western ganhou um novo arquétipo. Não mais o cowboy bom-moço de outros clássicos do gênero, como os interpretados por John Wayne. Agora o protagonista demonstrava claramente sua moral duvidosa e seus óbvios traços de cinismo. Não é segredo para ninguém que ali o protagonista de western ganhou contornos bem mais humanos e quase que fronteiriços entre o herói e o anti-herói. Também seria óbvio dizer que os irmãos Coen conheciam muito bem essa evolução quando filmaram Onde Os Fracos Não Tem Vez.  Mas a obra-prima de 2007 é muito mais que um simples decalque modernizado do gênero. Os diretores adicionaram elementos que modificaram sua estrutura e seu espírito. Se o longa-metragem o subverte ao dar o protagonismo a um anti-herói inequívoco, ele acaba também por modificar os próprios moldes dos vilões tradicionais, já que Anton Chiguhr é em tudo atípico.

Qualquer análise sobre Onde Os Fracos Não Tem Vez gravitará necessariamente em torno de seu anti-herói – um dos grandes vilões da história do cinema. Javier Bardem interpreta Chiguhr de modo assombrosamente inspirado e o compõe de uma série de maneirismos que revelam sua frieza, sua soberba e sua completa loucura. Seu corte de cabelo excêntrico parece ser usado por ele como uma ironia ou um deboche. Impressiona seu ritualismo a cada cena. Ele caminha calmamente até suas vítimas e dialoga com elas sem jamais se exaltar. O personagem decide com lances de uma moeda se seu interlocutor morrerá ou viverá. Anton Chiguhr nega o livre arbítrio. Seus atos são reflexos de uma força que não demora a se revelar – o psicopata dos irmãos Coen encarna a própria força da morte. Irreprimível e atemporal. Nenhum dos personagens do longa-metragem apresenta registros de historicidade. Nada sabemos sobre eles. Nem suas motivações nem seus objetivos. Presente, passado e futuro tornam-se um só.

Se o tempo parece tão insignificante no filme, a solidão toma conta de seus enormes espaços desérticos. Nos primeiros minutos de Onde Os Fracos Não Tem Vez, são os planos gerais que nos dizem isso. Os diretores, realizando o melhor trabalho de direção de sua carreira, sabem que enquadrar a amplidão dessas locações diz muito mais que explicá-las com diálogos e narrações. Sabem que suas imagens exprimem melhor o peso do mundo sobre os ombros frágeis de homens cujas vidas valem tão pouco. Esse vazio é aumentado pela ausência de trilha sonora. Em seu lugar, o filme utiliza alguns ótimos efeitos. Valorizam-se os sons dos passos, das respirações ofegantes, dos disparos de armas e dos motores das caminhonetes que cortam as ermas estradas. O trabalho de edição e de mixagem de som valoriza os menores detalhes sonoros e um ótimo exemplo disso é visto na famosa “cena da moeda”, em que o ruído desagradável de um papel se abrindo anuncia o perigo em um momento importante.

Os irmãos Coen fazem um exímio trabalho na criação de suspense ao longo de todo o filme. Um dos momentos que mais facilmente enerva o espectador é aquele em que o personagem Llewellyn Moss (Josh Brolin) descobre o transponder dentro da mala de dinheiro. Em silêncio absoluto, o plano se fecha em um close-up no rosto tenso do caçador. Corte para um plano médio entre ele e a porta, com a câmera estática. Corte novamente para o rosto de Moss, para a porta e, a seguir, mais uma vez para o rosto do personagem. Corte, então, para a soleira da porta, onde um feixe tênue de luz entra sorrateiramente e cria a expectativa de um disparo que virá a qualquer instante do extracampo. Os cortes seguintes repetem o padrão e sustentam o suspense até a resolução da cena. Essa inteligente decupagem dispensa quaisquer cacoetes previsíveis do ator e quaisquer rasgos manjados da trilha sonora para criar tensão. Sem auxílio de muletas, o filme consegue um dos momentos mais impressionantes na história recente do cinema.

Se essa cena constrói todo o suspense pela iminência do embate entre Anton Chiguhr e Llewellyn Moss, o possível assassinato do último pelo primeiro, que tanta expectativa criou no público, surge na tela de modo inesperadamente prosaico. É neste momento que a obra muda subitamente seu ponto de vista e a morte de Moss é mostrada pelo olhos do xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) como se fosse apenas mais um crime. Uma morte qualquer, sem nenhuma glória e que o filme mal permite que se sinta. A escolha é surpreendente e o filme zomba do envolvimento do espectador. Quem vive e quem morre é algo que não parece ter a menor importância em Onde Os Fracos Não Tem Vez. O que interessa mesmo é a força destrutiva personificada em Chiguhr e que chega sem dar avisos. Repentina como o arrombamento da fechadura (marca ritualística do psicopata) e assustadora como o head-on que registra a chegada do protagonista do outro lado de uma porta.

É importante notar também que até esse momento, a câmera centrava-se basicamente nos travellings, muitas vezes fechados nos pés dos personagens e que permitiram a criação de todo o clima de perseguição implacável entre Chiguhr e Moss. Curiosamente, a obsessão de ambos em perseguir uma mala de dinheiro, que se reflete na própria obsessão da câmera por seguir em seu encalço, acaba sendo esvaziada de sentido. Os protagonistas trilham um caminho eivado de violência e de morte, mas nunca fica claro o porquê de toda a devastação que causam, nem aonde pretendem chegar com uma perseguição que nunca parece ter fim nem razão. Penso que aqui chegamos ao fulcro da obra-prima dos irmãos Coen – Anton Chighur e Llewellyn Moss são uma alegoria da nossa própria história. Sempre fomos eficientes em matar. Matamos em nome da fé, da ausência dela, de uma postura ideológica ou da sua contrária. Criamos razões e aperfeiçoamos os métodos. Matamos uns aos outros como animais em outro tipo de selva. Não é por acaso que Chiguhr utiliza uma arma de matar gado quando ataca suas vítimas.

Mas a questão maior e mais espinhosa de Onde Os Fracos Não Tem Vez é:  para onde a história nos conduz enquanto deixamos nosso rastro de ruína? A mensagem final não é nada otimista. O mal segue adiante. Prevalece e se renova. E seguimos com ele sem qualquer ponto de chegada. Somos todos como o xerife Ed Tom Bell e seu velho pai – cavalgando sem norte em um sonho banal.

Onde Os Fracos Não Tem Vez (No Country For Old Men) – EUA, 2007
Direção: Joel Coen e Ethan Coen
Roteiro: Cormac McCarthy, Joel Coen e Ethan Coen
Elenco: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, Kelly Macdonald, Garret Dillahunt, Tess Harper, Barry Corbin
Duração: 122 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.