Crítica | Onde os Fracos não Têm Vez

onde os fracos

estrelas 5,0

SPOILERS

Estranhamente, por mais incrível que pareça, os irmãos Coen não são os únicos artistas em destaque nessa magnífica obra. Tudo se desdobra de um homem só, um mestre da literatura contemporânea: Cormac McCarthy. Ele já é considerado um gênio em vida ao lado de Thomas Pynchon e Philip Roth. Com obras muito sólidas e distintas, McCarthy emplacou sucessos de crítica com O Filho de Deus, A Estrada, Nas Trevas Exteriores e A Travessia. Muito por acaso, uma de suas maiores obras, Onde os Velhos não Têm Vez, chegou nas mãos dos Coen, então já considerados diretores de alto escalão em Hollywood.

Ao contrário de outras obras nas quais os irmãos adaptaram um texto original para o cinema como Bravura Indômita, Invencível ou Ponte dos Espiões, optaram por seguir muito à risca o que Cormac havia escrito no livro. Algo a se louvar, pois a estrutura da história é simples e magnética. Um texto tão impecável, único como o qual o autor já havia escrito só contribuiu para os irmãos capricharem na forma do filme, em sua plena perfeição plástica.

A narrativa acompanha três personagens em uma perseguição “desconstruída”. Llewelyn Moss fracassa em sua caçada rotineira, porém tem um enorme sucesso ao se deparar com os resultados de um clássico impasse de negociação de tráfico de drogas que deu errado no ermo selvagem texano. Após descobrir que um dos homens sobreviveu à matança e negar a ele seu último pedido em vida, Moss nota que as drogas ainda permanecem no local. Então passa a procurar a maleta cheia de dinheiro que possivelmente estaria nessa negociação. Com pouco esforço, ele encontra os seus dois milhões de dólares junto à um cadáver mais afastado.

Ao chegar em seu simples trailer, com a consciência pesada por ter negado o último desejo a um moribundo, Moss larga sua mulher e volta ao local do impasse. Porém, ao chegar lá, descobre que o mexicano foi executado e que está em maus lençóis pois mais alguns traficantes chegaram ao local. Fugindo desesperadamente, Moss consegue se livrar dos homens, porém o terror de sua vida havia apenas começado. Moss não terá que fugir somente dos assassinos do cartel, mas também do obstinado psicopata contratado, Anton Chigurh – um cara com pouco senso de humor.

O que mais gosto dentre todas as qualidades do roteiro dos Coen e do texto de McCarthy é a subversão e transcendência dos gêneros cinematográficos e da literatura. Inicia-se na velha máxima que permeia tantos filmes, o clássico jargão “na hora e no lugar errado”. Porém a ironia da narrativa é a subversão desta na primeira cena com Moss. Naquele momento, ele está na hora e no lugar certo, afinal ele já teria uma enorme vantagem em relação aos seus prováveis perseguidores caso não tivesse voltado ao local da tragédia. Aí, já temos outra grande ironia dada inclusive pelo impecável título nacional: Onde os Fracos não Têm Vez.

Para entender isso, temos que analisar Moss e a atuação exemplar de Josh Brolin. O protagonista é um bronco, um cara independente, veterano de guerra e, logo, um sobrevivente. Brolin mantém sempre uma figura sisuda, de uma personalidade que tem prazeres simples e amargores complexos vindos de seu passado nebuloso. McCarthy pouco traz do passado do personagem e os Coen também não arriscam em inventar – algo ideal que tange, na verdade, todo o rol de figuras que movem o filme. Sabendo então que o cidadão é um personagem forte fisicamente e intelectualmente – diversas vezes há um embate da estratégia de sobrevivência de Moss com os planos de Chigurh para encontra-lo e matá-lo, seu pior erro reside em ser fraco, talvez pela primeira vez na vida.

Retornar ao local para dar água ao mexicano moribundo é a decisão que inicia inferno de sua vida. Para este mundo duro, seco e implacável de McCarthy, a compaixão é uma sentença de morte. Dito e feito, a fraqueza de Moss é o que causa sua morte, mesmo que sua jornada tenha sido tão árdua, exaustiva e perigosa. Entretanto, não é somente a fraqueza de Moss que o acaba levando ao caixão, afinal o filme constrói muito bem como ele sempre supera os obstáculos inerentes à caçada.

Na verdade, a fraqueza que assina a sentença de morte do protagonista é vinda da sogra, mãe de Carla Jean, que revela o paradeiro de Moss para um mexicano que a ajuda carregar as malas quando ambas se dirigem à rodoviária – ela mesma diz que é velha e cansada quando o integrante do cartel oferece ajuda e começa a fazer as perguntas certas. Novamente, pouco é mostrado ou explorado no que tange o relacionamento de Moss e sua esposa. É um filme de poucas palavras.

O que atrai bastante ainda no roteiro tão bem adaptado é a figura do herói. Nitidamente aqui não temos uma história de herói vs vilão como moldada na narrativa clássica de outros filmes western, noir ou de perseguição policial. Moss, apesar de ser o “protagonista” desta história, é somente um homem comum dentro da perseguição maior. Afinal temos um jogo onde o xerife, Ed Tom Bell, persegue Chigurh que por sua vez caça Moss.

Porém apesar de serem personagens tão ligados dentro da narrativa por conta da perseguição, raríssimas vezes que há um contato direto entre eles. Moss e Chigurh se enfrentam somente duas vezes enquanto Tom Bell só “encontra” o psicopata uma vez na jornada. Esse jogo de conexões ganha aspectos visuais muito relevantes através do cenário do trailer onde Moss vive, pois, todos os três se sentam no mesmo lugar no sofá que preenche a apertada saleta com um intervalo muito pequeno entre cada visita. Eles veem os seus reflexos na mesma televisão. Algo de essência simples, mas de forte simbologia que os Coen inferem tão bem nos enquadramentos certeiros.

O trunfo desta grande história é a natureza de seus personagens. Moss como já dito é um belo exercício de desconstrução da figura do herói, mas seu algoz, Chigurh é um espetáculo à parte. Em contraponto ao protagonista, a construção é o foco dos roteiristas para tratar sobre o antagonista. A cada nova cena, novos detalhes são revelados. Descobrimos como o psicopata é orgulhoso e ciumento no que tange ao seu trabalho assassino. Ele tem aversão a pessoas covardes, enxeridas ou fracas – isso é muito bem apontado quando ele recua ao ser confrontado pela mulher dona do estacionamento dos trailers, possivelmente a única que sobrevive ao encontro com ele, além de Moss.

Porém sua característica que define completamente o personagem é a forte crença que ele tem com o destino, ainda que isso seja explorado em apenas duas cenas. No jogo psicótico de definir as pessoas através da sorte da moeda, no cara ou coroa. O estranho é que isso não vale para todos, pois a maioria das pessoas que cruzam seu caminho acabam mortas sem qualquer chance. Aliás, seu desprezo pleno para com a vida humana é explicitado pela sua pistola de pressão – arma de abate visada à gados, que o auxilia a executar tantos coadjuvantes.

Para trazer tudo isso às telas, há o trabalho que rendeu o primeiro Oscar a Javier Bardem, impecável. Sempre impassível, com pouquíssimas cenas onde esboça um sorriso doentio, Bardem faz seu personagem virar um dos maiores assassinos da História do Cinema. Sua atuação é realmente algo que eleva toda a ameaça que ronda o personagem, o transformando na pura encarnação do mal. Se o Diabo tivesse nome, certamente seria Chigurh. O ator torna o ato de matar algo tão natural ao personagem que assusta, pois ele sempre caminha com calma, não altera a respiração, não esboça o menor nervosismo. Há apenas a carnificina e sua estranha serenidade, pois o personagem não gosta de masoquismo e sadismo. O serviço é sempre feito rapidamente, mas não da maneira mais limpa. Ele já é introduzido ao filme em uma das cenas mais chocantes ao estrangular um guarda na delegacia. Nasce diretamente da morte.

Entretanto, mesmo com essa atmosfera pesada ao seu redor, os Coen elaboram um tom levemente cômico no visual dele. Claramente o personagem não pertence àquela diegese texana, mas há o esforço dele tentar se misturar, porém seu figurino menos clássico e excêntrico corte de cabelo já revelam que ele é um peixe fora d’água.

Com o último personagem de destaque, o casting é perfeito com Tommy Lee Jones, porém o consagrado ator consegue fugir do clichê de suas atuações carrancudas. A jornada de Ed Tom Bell talvez seja a mais sofrida psicologicamente, pois desmonta toda a fé que ele tem dentro de sua capacidade como xerife e representante da lei já que ele falha em salvar Moss e capturar Chigurh. Aliás, isso é outro ponto interessante da narrativa. Os três personagens falham com seus objetivos: Moss morre e o dinheiro tem o destino incerto e Chigurh não mata seu alvo. Com esse grande sentimento de impotência, Tom Bell acaba completamente derrotado.

Entretanto, outra jogada astuta que os Coen têm é deixar em evidência algumas características que os personagens compartilham entre si sendo o principal deles, o niilismo. Porém duas cenas conectam a personalidade de Chigurh com Moss, além da metodologia de ambos sobre sobrevivência e caça. Quando ambos necessitam de uma peça de roupa de um desconhecido, já ofertam com dinheiro, nunca apostando na gentileza de outrem. Isso evoca muito da natureza humana retratada no filme quando os personagens estão enfraquecidos fisicamente. A vulnerabilidade é compensada pela persuasão do dinheiro. Ao contrário do que ocorre com Chigurh em diversas passagens do filme quando ele está saudável. Diversas pessoas são prestativas voluntariamente e acabam mortas. Como disse, o discurso é claro: a compaixão é vista como fraqueza e punida com morte e desgraça.

Em deixar o texto praticamente intacto em sua adaptação, os Coen brilham na direção do filme, talvez a melhor de suas carreiras. A presença autoral se dá logo no contraste no começo. Eles exploram as belíssimas paisagens naturais do oeste texano que evocam paz e tranquilidade. Poucos minutos depois já há o primeiro dos diversos assassinatos sendo este o mais brutal. O estrangulamento que corta a jugular do policial jorrando sangue na tela. O teor então já é apresentado. O festim de violência irrestrita é algo que pertence ao universo extremamente crível que eles criaram para representar a história de McCarthy.

A técnica dos Coen, acredito, estava em seu auge. Assumiram a câmera e os enquadramentos de forma tão clássica que chega a emocionar quem aprecia a arte da forma fílmica. Chegaram até mesmo a desprezar as famigeradas objetivas zoom. Tudo é feito meticulosamente e o resultado não foge do espetacular. Plasticamente, Onde os Fracos não Têm Vez é um filme perfeito. Antes das filmagens, os Coen e o designer de produção, Jess Gonchor, passaram meses desenhando os enquadramentos do longa inteiro. Tudo foi planejado para não dar margem a qualquer imprevisto ou perda de tempo com discussões em set.

De alguma forma isso é passado para nós, pois a decupagem segue uma lógica de sequenciamento visual muito própria. Ao mesmo tempo que é simples, é genial. Vejamos a antológica cena onde Chigurh confronta um homem na loja de conveniência, apostando a vida dele na moeda. A cena tem um poder enorme, gera a tensão do suspense tão desconfortável presente na obra inteira. Ela toda possui apenas cinco enquadramentos difundidos em sessenta e cinco planos contando apenas com um travelling in no momento decisivo da escolha da face da moeda. Todo o dispositivo é, de fato, clássico, simples, já explorado, mas ganha essa força exemplar na mão dos dois diretores, do diálogo inteligente, da atuação e da ambiência sonora.

Logo, a direção deles na câmera é quase matemática a partir do momento que paramos para pensar no planejamento de decupagem que eles fizeram de modo tão apropriado. Ainda assim, seus grandes trunfos residem nas ótimas simbologias que eles costumam trabalhar. Antes de encontrar o local do impasse do tráfico, Moss caça alguns antílopes. Em um grandioso plano geral, nota-se uma enorme nuvem que projeta sua sombra a poucos metros do local iluminado que os antílopes se encontram. Após acertar o tiro, todos os bichos correm para a parte sombria do terreno. No caso, trata-se de um belo foreshadowing de representação de símbolos clássicos. Refletindo Moss nos antílopes, se depreende que sua jornada seguirá para territórios mais sombrios, além de ter uma inversão no papel de caça e caçador.

Já em outra cena, Chigurh está dirigindo e repara em um corvo descansando no corrimão de uma ponte. Enquanto faz a travessia, ele tenta matar a ave, um dos símbolos mais clássicos da morte. Depois, com Moss ferido fugindo para o México, ele é encontrado e salvo por um grupo de mariachis, também representação clássica da alegria e calor do povo mexicano. Porém, levando em conta o contexto histórico do tempo diegético dos anos 1980, quando havia uma imigração em massa e o auge dos grupos mariachi nos EUA, nada mais irônico do que a inversão dos papeis entre migrantes, além de tocar uma fina ironia sobre hospitalidade entre os dois países que é evocada quando Moss retorna ao Texas e passa pela guarda da fronteira.

Também há o raccord visual da transição de cena quando Ed Tom Bell admite sua derrota ao observar os parafusos e a grelha do tubo de ventilação jogados no chão que dão lugar a um deserto onde se passa a última cena de Ed como policial.

A presença autoral mais marcante ainda é vinda através da iluminação de Roger Deakins, um dos maiores diretores de fotografia da atualidade. Trabalhando com os Coen desde Barton Fink, Deakins já sabia do grande amor dos diretores pelos filmes noir. Com as mentes sintonizadas, ele conseguiu criar o visual do noir contemporâneo que ainda possui muitas características da cinematografia original dos filmes de 1950, porém com toques difusos, sombras mais delicadas e tratamento barroco expressivo para a iluminação principal. As altas luzes da contraluz permanecem intocadas.

Além desse tratamento noir para a iluminação geral, Deakins já insere suas marcas autorais na cinematografia com diversos trabalhos de silhuetas e contraluzes mais delineadas. Isso tudo aliado a uma experimentação com projeções de sombras tornam a atmosfera verdadeiramente única. É algo belíssimo, sem a menor dúvida. A cor também é pensada para evocar o calor daquele deserto. Médio contraste, saturação intensa e tons pastéis bem vivos retratam à época dos anos 1980. Muitas vezes os personagens refletem com clareza os pontos de iluminação para transmitir as altas temperaturas texanas. Muito do trabalho que ele realizou aqui pode ser conferido em Sicario, outro longa de tema similar onde a forma supera o conteúdo.

Outro ponto crucial e muito inusitado da direção de Ethan e Joel é o uso da trilha musical. Ela é praticamente ausente o filme inteiro. Em pouquíssimas cenas há alguma melodia. Em outras, para criar tensão, o compositor Carter Burwell aposta somente em sons de uma nota frequência específica e desconfortável. Com isso, a sugestão do suspense não vem da música ou é potencializada por ela como acontece em tantos outros filmes. Os Coen priorizam a encenação, a edição e a mixagem de som para conferir o efeito desejado. Nos dá a liberdade para apreciar o ótimo trabalho que o departamento sonoro realizou para o filme sem muitas distrações. Nisso, há cenas memoráveis que funcionam somente pela ambiência. Como a que acompanhamos Chigurh procurando Moss através do rastreador de proximidade ou então com a intuitiva montagem interpolada que explora os dois quartos geminados que Moss se esconde do hitman.

Meu único porém se encontra na pressa em amarrar o filme após a morte de Moss – aliás é interessante como os diretores deixam esse episódio marcante restrito ao ponto de vista de Ed Tom Bell. Entretanto, isso é compensado com mais uma sequência excelente para encerrar o núcleo de Chigurh, além deles arranharem novamente o surrealismo com o monólogo dos sonhos impotentes do ex-policial e finalizarem o filme de modo tão pessimista.

Onde Os Fracos não Têm Vez é uma daquelas obras que acontecem uma vez em milhares de filmes medíocres. Em 2008, a justiça foi feita na premiação do Oscar com o longa vencendo quatro categorias sendo elas Melhor Filme e Melhor Direção, algo totalmente apropriado para uma obra tão meticulosamente construída aqui. Além de ser uma realização audiovisual extremamente relevante para o estudo cinematográfico, os Coen conseguem apresentar também uma peça que traz, indiretamente ou não, os terrores e consequências da já fracassada guerra contra as drogas inauguradas por Nixon nos anos 1970. Um filme que se sustenta como arte, entretenimento e peça histórica apenas com uma história simples e forma clássica. Da simplicidade e coesão dos irmãos Coen, podemos ter o prazer de provar mais uma vez uma obra genial na sétima arte.

Onde os Fracos não Têm Vez (No Country for Old Men, EUA, 2007)
Direção: Ethan e Joel Coen
Roteiro: Ethan e Joel Coen baseados na obra de Cormac McCarthy
Elenco: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson, Kelly Macdonald, Garret Dillahunt, Tess Harper, Barry Corbin
Duração: 122 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.