Crítica | Ônibus 174

O sequestro do ônibus 174 e o atentado ao World Trade Center foram duas das tragédias midiáticas mais marcantes da minha trajetória enquanto espectador televisivo nos primeiros momentos dos anos 2000. Enquanto o agonizante 11 de setembro de 2001 fora observado, com curiosidade e espanto, por meio das vitrines das lojas de eletrodomésticos, enquanto trafegava em minhas atividades diárias numa empresa de telefonia, o mal sucedido sequestro do infrator Sandro do Nascimento foi obrigatoriamente assistido como substituto das narrativas novelísticas comuns a uma residência que naquela época, os jovens obedeciam ao movimento hierárquico dos mais velhos e suas tramas das seis, das sete e das oito, trocadas pelo que de mais polêmico a sociedade do espetáculo brasileira tinha para oferecer naquele tenebroso dia 12 de junho de 2000.

Era época do Ensino Médio, rotina que compreendia ir para a escola no turno vespertino e organizar os estudos logo que chegasse de volta ao lar. Naquele dia, entretanto, as atividades escolares foram substituídas por um evento que desde o meio da tarde, já era burburinho pelos corredores da escola, algo muito vago porque sequer imaginávamos o intenso fluxo das redes sociais e aplicativos que iriam emergir pouco mais de uma década depois. O jovem Sandro do Nascimento, transtornado, havia sequestrado um ônibus por volta das 14 horas, num acontecimento captado pela mídia intrusa que buscou maximizar ao extremo cada passo das negociações entre a polícia e o criminoso.

Durante cinco horas, Sandro manteve os reféns sob a mira de um revólver, tornando-se personagem de uma história que ele sequer imaginou que fosse de fato acontecer um dia, planos de uma agenda juvenil solapada pelas mazelas sociais que gravitavam constantemente em torno de sua existência. Os acontecimentos se dividiram de acordo com o seguinte esquema: Sandro anunciou o assalto, a polícia é interceptada, há policiais que adentram pela porta traseira e dianteira, mas são obrigados a sair por conta do revólver calibre 38, apontado para a cabeça de uma mulher tomada como refém.

Apavorados, os passageiros ficaram a mercê do clima de tensão por horas. Primeiro Sandro exigiu que a passageira Luciana Carvalho tentasse dirigir o ônibus, mas sem sucesso, irritou o sequestrador, que disparou o primeiro tiro contra a janela, numa demonstração de poder e intimidação em relação aos cinegrafistas, jornalistas e demais “espectadores”. Após a liberação de um refém, Willians de Moura, a passageira Janaína Neves recebe a missão de escrever, com batom, frases do tipo “ele vai matar geral” e “ele tem pacto com o diabo”.

“Todo homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”. Segundo o palestrante que versava sobre violência e criminalidade no Brasil em um encontro de pesquisadores da área de Comunicação Social, o excerto citado na abertura desta reflexão, assinado por Rosseau, um dos pensadores prediletos dos estudantes que desejam alcançar um bom rendimento nas competências avaliadas na correção das redações do ENEM, é um dos pontos norteadores para compreendermos as críticas tecidas ao longo da extensa malha audiovisual do documentário Ônibus 174, dirigido e produzido pelo cineasta José Padilha, em início de carreira. Ele havia assistido ao polêmico Um Dia em Setembro e inspirado pela reflexão, decidiu levar adiante um projeto sobre o acontecimento que mexeu com a opinião pública brasileira.

Para que a análise seja permeada por observações relevantes, creio ser necessário fazer um breve panorama do sequestro. Amplamente divulgado em tempo real pelas lentes das câmeras e por repórteres desesperados pelo “furo” de reportagem, o caso funcionou como uma espécie de “Aquário do Terror”, pois o ônibus tomado por Sandro do Nascimento parecia um reduto de seres visualizados por milhões de espectadores, telespectadores e internautas, ansiosos pelo que aconteceria no embate entre as vidas humanas que circulavam dentro daquele ambiente energizado por hostilidade e envolto numa redoma de incertezas.

Na tarde do dia 12 de junho de 2000, uma segunda-feira, o jovem Sandro do Nascimento tomou o ônibus da linha 174, rota Gávea-Central, na capital do Rio de Janeiro, tendo em vista realizar um assalto com o seu revolver calibre 38. O que ele não esperava era a sinalização de um passageiro para a polícia que passava por perto, algo que culminou na perseguição ao veículo de transporte parado pela polícia, inicialmente controlado, até que Sandro se manifestou e anunciou o sequestro, minando o plano inicial dos dois policiais que entraram pelas portas, dianteira e da frente, respectivamente, mas que tiveram de recuar quando perceberam que as vidas que ali se encontravam estavam por um fio.

O sequestro durou em média seis horas. De acordo com as reféns, não havia interesse do rapaz em matar ninguém, mas o cerco policial e a influência midiática e seus flashes inoportunos tornou tudo confuso e de complicado diálogo. Foram negociações, discussões, mortes simuladas para causar pânico, ligações para as autoridades políticas, pois em ano de eleição, todo cuidado era pouco. Próximo ao fim, Sandro saiu do ônibus com uma das reféns. Um dos policiais, despreparado, avançou sem a devida autorização e disparou tiros que não atingiram o sequestrador, mas a refém, de raspão. O problema é que Sandro caiu e com isso disparou tiros nas costas da vítima. Geisa Firmo Gonçalves, infelizmente, teve a vida ceifada nesta tragédia.

Logo depois, Sandro morreu asfixiado no camburão. Os policiais foram afastados, julgados, mas depois absolvidos. Construído com base na argumentação sobre os documentários ocuparem um papel de promotor de discussões na sociedade, tendo em vista significar à realidade, Ônibus 174 levou 18 meses para ser produzido. A Rede Bandeirantes possuía 40 minutos de imagens gravadas, a TV Record 04 horas e a TV Globo, 20 horas. Padilha, ao injetar o valor de R$800 mil para financiar o documentário, adquiriu 50 minutos destas imagens, material vinculado aos relatos registrados especialmente para o filme.

Dentre os entrevistados temos as reféns Maria Aparecida, Luanna Belmon, Janaína Aparecida e Claudete Beltrana; o Capitão Batista e Rodrigo Pimentel, representantes militares; a assistente social Yvonne Bezerra de Mello; a tia do sequestrador, Julieta do Nascimento, e Dona Elza, membros ligados ao eixo familiar, dentre outros, oriundos do campo das Ciências Sociais e do Jornalismo. Os depoimentos, no geral, buscam complementar a análise social em questão, numa busca de entendimento do que levou Sandro a perder o controle.

De acordo com os relatos, o rapaz, alijado da sociedade, viu a mãe se morta com golpes de facas por um criminoso na favela do Rato Molhado, em frente ao bar que gerenciava para se manter. Inicialmente Sandro foi recepcionado pela tia, mas alguns conflitos o fizeram ir para as ruas. Personagem da chacina da Candelária, Sandro passou por delegacias e reformatórios, sobreviveu aos ambientes mais opressores e conseguiu sair ileso dos pequenos furtos e assaltos cometidos para manter-se vivo.

Muitos estudos criticaram a forma como o campo do jornalismo se comportou diante dos acontecimentos. Na tese Seis Questões Sobre o Jornalismo: Uma Leitura da Imprensa Brasileira nos anos 90 a partir de Ítalo Calvino, a pesquisadora Cláudia Regina Fonseca Lemos afirmou que a mídia tentou pintar uma imagem de Sandro muito similar aos personagens criminosos dos contos de Rubem Fonseca. Foi uma postura de “demonização”. Na dissertação de mestrado Notícias do Crime, Relatos da Insegurança – Os Discursos da Violência na Cidade do Rio de Janeiro (2000) mostra que Sandro foi concebido como um estereótipo do jovem drogado, criminoso e favelado, principalmente pela reiteração de frases como “vocês tem medo, eu não, estou com o diabo”, falas do jovem em meio aos tensos momentos do sequestro.

Lançado em outubro de 2002, dois anos após os acontecimentos que revolucionou a circense sociedade do espetáculo brasileira, o filme adota a linha de pensamento do teórico Giorgio Agambem, ao descolar-se de uma questão tão contemporânea, ferida diabética, sem cicatrização social. Ele se desloca do seu tempo histórico para observá-lo com distanciamento e olhar reflexivo. Diferente das análises superficiais que a mídia hegemônica brasileira, em especial, a cobertura do famigerado Jornal Nacional e suas interpretações de cunho psicológico raso fizeram, o filme abre espaço um debate profundo e cuidadosamente delineado, demonstrando a histórica polifônica dos envolvidos no sequestro que terminou em tragédia.

Após comprar materiais de cobertura da imprensa, liberado por três emissoras televisivas, José Padilha se juntou ao eficiente montador Felipe Lacerda, tendo em vista organizar a estrutura do filme. Eles tinham uma média de 70 horas gravadas de depoimentos, além das imagens midiáticas. Montante que precisava ser reduzido e transformado em um documentário de apenas duas horas. Distribuído com maior intensidade no exterior, com menor número de salas no Brasil, Ônibus 174 não é ficção, mas consegue ter uma linha narrativa carregada de tensão, como se estivéssemos diante de uma narrativa com conflitos internos e externos bem planejados, num sequestro que chega a ser mais angustiante que a bomba do ônibus enfrentada por Sandra Bullock e Keanu Reeves em Velocidade Máxima, personagens ficcionais reféns de um terrorista que manipula o seu ataque à distância.

Para muitos especialistas, no Brasil, Ônibus 174 funciona como explicação para as nossas históricas celeumas sociais. O Estado constantemente produz violência por conta da sua ineficácia na resolução dos problemas que acometem os brasileiros há séculos. Interessante observar que a produção segue adequadamente o que Manuela Penafria delineia em O Filme Documentário – História, Identidade e Tecnologia: “o documentário não é uma reportagem”, pois “o jornalista e o documentarista se pautam por princípios muito diferenciados”. Antes de encerrar, permita-me dialogar com outro autor, Jean-Jacques Jespers. Em Jornalismo Televisivo, o especialista diz que o documentário “fala na primeira pessoa, confessa a sua subjetividade, quanto a grande reportagem ou o inquérito escondem esta subjetividade sob uma pretensão à universidade”. José Padilha foi muito cuidadoso neste aspecto, o que culminou nas premiações ao seu filme, bem como aos textos críticos que compreendiam o seu feixe justo de análise de uma injusta realidade social.

Ônibus 174 — Brasil, 2002.
Direção: José Padilha
Roteiro: José Padilha, Felipe Lacerda
Elenco: Sandro do Nascimento, Julieta do Nascimento, Janaína Lopes, Dona Elza, Luciana Carvalho, Capitão Batista, José Henrique, Cláudia Macumbinha
Duração: 128 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.