Crítica | Ontem, Hoje e Amanhã

estrelas 4

O diretor Vittorio De Sica é reconhecido por ser um dos maiores nomes do neorrealismo italiano, caracterizado por utilizar elementos reais em histórias de ficção, normalmente abordando a realidade social da época. Esse movimento fez com que ele dirigisse obras marcantes que entraram para a história do cinema, como, por exemplo, Ladrões de Bicicletas e Vítimas da Tormenta. Apesar de ser lembrado pelos dramas, De Sica também produziu comédias, como o longa analisado a seguir, Ontem, Hoje e Amanhã. Mas será que fora do gênero que o consagrou De Sica conseguiu realizar um bom trabalho?

A obra conta a histórias de três mulheres (interpretadas por Sophia Loren) e os homens que atraem. A primeira mostra Adelina, vendedora de cigarros importados e casada com o desempregado Carmine (Marcello Mastroianni). Ela é sentenciada a prisão, mas pode escapar enquanto estiver grávida. Sete anos e sete filhos depois, o marido esta exausto e a prisão parece algo inevitável, assim como o desprezo de Adelina por Carmine. A segunda acontece em Milão, onde Anna está entediada e resolve dar carona para um escritor. Ela fala com um ar sonhador em fugir dali e ele dá a atenção que ela precisa, até que algo inesperado acontece. Por fim, a terceira história conta sobre Mara, uma prostituta, que chama a atenção de um ingênuo seminarista, fazendo com que ela brigue com a avó do rapaz e faça um voto de castidade.

O risco de construir um filme com três histórias diferentes e independentes entre si é a falta de coesão que isso pode acarretar na obra, uma vez que, se a qualidade destas for desparelha, o ritmo do longa pode ser prejudicado. Mesmo sendo separadas, todas as tramas têm a mesma base: o relacionamento entre homem e mulher. Os roteiristas são hábeis em explorar cada trama de maneira diferente, como pode ser destacado pelo fato do primeiro segmento envolver uma mãe de família e o terceiro uma prostituta, evitando a sensação de repetição e construindo uma obra que em nenhum momento cai na monotonia.

Apesar de ser uma comédia, o roteiro não investe em piadas durante os diálogos, mas busca ser engraçado através de histórias que focam na inversão de papéis, atingindo seu objetivo pelo absurdo de algumas situações, como, por exemplo, o fato de uma garota de programa fazer um voto de castidade para que um padre não largue a batina, ou o marido que fica mais cansado e feio a cada filho, enquanto sua mulher fica mais bonita. Nenhuma dessas cenas faz o espectador gargalhar, mas causam uma constante sensação de graça, tornando o tom do filme suave e cada vez mais agradável de assistir.

Um dos fatores que dão leveza à obra é a excelente química entre Sophia Loren e Marcello Mastroianni, apresentando casais de relacionamentos completamente destoantes, mas que captam o carisma do público desde o início. Mesmo encarnando três personagens diferentes, Loren explora a sensualidade em todas as suas composições, mas com ótimas variações entre elas, criando uma Adelina que é a típica mãe italiana, falando alto e cheia de gestos; mostrando Anna com um olhar arrogante e superior; e construindo uma Mara que é simplesmente uma das personagens mais sensuais da carreira da atriz. Já Mastroianni se destaca por trazer mais variações em suas composições, uma vez que, não há nenhuma semelhança entre seus personagens, nem mesmo a sensualidade, portanto, Carmine é preguiçoso e vagabundo; enquanto Renzo transmite um ar de sabedoria e preocupação; e Augusto se destaca pela infantilidade e desespero para ter relações com Mara.

Mas se o elenco funciona, claro que isso é graças as escolhas do diretor Vittorio De Sica, que também tem méritos em sua direção, utilizando os elementos técnicos da obra em função da história, uma vez que, pelo pouco tempo de duração de cada segmento, os demais componentes do longa precisavam ajudar a contá-los. Portanto, muito mais do que decorar e vestir, a direção de arte e figurino mostram detalhes sobre seus personagens, como, por exemplo, o fato das camas de Mara e Carmine serem próximas a dos seus filhos, além de destacar a humildade deles, sugere a união da família; já o Rolls Royce que Anna dirige destaca a riqueza dela, enquanto o figurino decotado de Mara evoca toda a sensualidade da prostituta, justificando o porque do Padre se deslumbrar e querer largar a batina. Devido a esses detalhes, De Sica investe mais em planos médios, captando todo o entorno dos personagens e suas movimentações corporais, utilizando também alguns zooms-in e travellings para reforçar o relacionamento entre eles, como na cena em que Anna conversa com Renzo no carro posicionados juntos na composição, até que ambos começam a falar sobre dinheiro e a câmera se move para enquadrá-la sozinha, destacando como ela só pensa em si mesma.

Claro que De Sica sempre será exaltado por suas grandes obras neorrealistas, como o já citado Ladrões de Bicicletas, mas o diretor entrega em Ontem, Hoje e Amanhã um filme que não deve em nada a outras comédias, pelo contrário, a obra, além de divertidíssima, se destaca na filmografia do diretor por sua leveza e irreverência ao abordar um tema que, em pleno século XXI, ainda é cheio de tabus como o sexo.

Ontem, Hoje e Amanhã (Ieri, Oggi, Domani) – Itália e França, 1963
Direção: Vittorio De Sica
Roteiro: Eduardo De Filippo, Isabella Quarantotti (segmento Adelina); Cesare Zavatti, Bella Billa, Lorenza Zanuso (segmento Anna); Cesare Zavattini (segmento Mara)
Elenco: Sophia Loren, Marcello Mastroianni, Aldo Giuffrè, Agostino Salvetti, Lino Mattera, Tecla Scarano, Silvia Monelli, Armando Trovajoli, Tina Pica, Gianni Ridolfi, Gennaro Di Gregorio
Duração: 118 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.