Crítica | Onze Homens e um Segredo (1960)

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Nem os olhos azuis de Frank Sinatra salvam o Onze Homens e um Segredo original de sua datada face descolada, o que deixa a pergunta: será que os filmes que priorizam estilo e descontração superficial não acabam indo, mais rápido do que se possa prever, da vanguarda divertida ao rol das mais enfadonhas películas?

Com ritmo acelerado e leve, Ocean’s Eleven apresenta cada um de seus personagens em sua primeira hora. Em seguida, logo traça o plano central: assaltar cinco cassinos em Las Vegas na noite de Ano Novo. E há muito Vegas e pouco desenvolvimento de roteiro e personagem aqui. A reunião dos gangsteres é como uma reunião de velhos amigos bon-vivants, lépidos e confiantes. Os clichês estão todos lá, dos milhares de sorrisos cínicos às inconsequentes brigas de bar.

Sinatra já era um artista para lá de reconhecido e premiado quando foi escalado para protagonizar a adaptação do livro de George Clayton Johnson. Mas nem como protagonista ele ganha o devido tempo de tela para ter uma personalidade desenvolvida. Sim, ele é a figura que tem a esposa e a amante. Sim, é ele quem dita as normas do golpe a ser realizado. Nada disso evita sua submersão no oceano de personagens genéricos e cantantes que enchem este filme.

Uma obra com a proposta de Onze repousa muito na noção de “descolé” que passa de época para época. Claro que o charme de Sinatra é atemporal, tal como a sua voz e a voz de Dean Martin e de Sammy Davis Jr., mas não basta colocar tais figuras e juntar uma estória para criar um roteiro decente. Também não ajudam a ambientação mais leve e a trilha pontual, acentuadora da comicidade já escancarada e esforçada por demais.

Nada disto tira o valor artístico da obra em sua proposta original – certamente meu pai veria muito mais humor em uma obra como essa do que em The Office ou na trilogia de Danny Ocean dos anos 2000. Há alguns traços que prometem, o que já é grande coisa: o filho mimado com problemas com o novo marido da mãe – em participação especial de Cesar Romero, seis anos antes de se tornar o Coringa – o dono do dinheiro, sentimental e afetuoso, a ser reprisado nos reboots de Steven Soderbergh.

O fato de serem onze veteranos da Segunda Guerra Mundial também chama atenção, pelo menos no primeiro momento. Mas o drama latente se dissipa em diversas cenas à luz do dia, apartamentos iguais, muito uísque, dançarinas e rostinhos bonitinhos. Cansa ver um ator tentando fazer mais tipo do que outro por duas horas. Nem reclamo do tempo da comédia em si, para não cair em anacronismo bobo…, mas que as piadas vêm descendo a esquina vagarosamente, isso é inegável.

A elaboração do plano em si, por exemplo, é deixada em segundo plano em prol das falas de efeito e dos instrumentos de sopro que dizem mais do que qualquer explicação. Filma-se simplesmente cada ladrão tirando, literalmente, o dinheiro de cada cofre. A montagem, neste sentido, parece travar demais o intuito de fluidez charmosa que o filme se propõe, dada a cara pretensiosa de seus atores – e um filme que repousa na montagem e no excesso de estrelismo para atingir seu olhar 43 corre sério risco de soar como um antiquário.

Morno e sem os sobressaltos que um golpe em cinco cassinos teoricamente promoveria, Onze Homens e um Segredo é um exemplo de como o excesso de sagacidade flerta com a boçalidade. O final tragicômico acaba respeitando a obra sem açúcar: leve e despretensioso, arranca um sorriso de lado, destes que foram repetidos a esmo durante toda a obra.

Onze Homens e um Segredo (Ocean’s Eleven) – EUA, 1960
Direção: Lewis Milestone
Roteiro: Harry Brown, Charles Lederer
Elenco:  Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr, Peter Lawford, Angie Dickinson, Richard Conte, Cesar Romero, Patrick Wymore
Duração: 127 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.