Crítica | Onze Homens e um Segredo (2001)

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Terminei meu texto sobre o Onze Homens original ressaltando o excesso de sorrisos de canto de boca com que Sinatra e sua trupe brindam o espectador durante o filme. De alguma forma, tal trejeito escancara a tentativa de malemolência malandra da película e a estraga, deixando um clima morno em seu final e provocando um sorriso de canto fatigado por parte da plateia.

Felizmente, o Onze Homens do novo milênio provoca mais sorrisos contemplativos de seu público ao suprimi-los de seus atores. E haja ator-estrela na obra de 2001. Clooney, Pitt, Damon, Cheadle, García e Julia Roberts – cujo rosto insosso dá lugar à sensibilidade fofa – se juntam ao diretor Steven Soderbergh – que acabara de alcançar fama mundial com Traffic (2000) e Erin Brockovich (2000) – para encenar o roubo de três cassinos na Las Vegas do filme de 1960.

A Las Vegas de 2001, em um primeiro acerto de Soderbergh, é mais dinâmica. De externas à decupagem ligeira, o remake de Onze Homens ganha fôlego ao repousar sua fluidez em uma edição hábil. Responsável por uma fotografia que prioriza a noite de Vegas e as cores quentes dos cassinos, Soderbergh proporciona o molde ideal para que o estilo da narrativa – e aqui, tudo repousa no estilo – ganhe destaque. Não é exagero falar que o filme respira a maior cidade de Nevada.

Talvez alguém pense ou lembre da obra como uma diversão pura e descerebrada. Ledo engano. Soderbergh faz um filme descompromissado, mas esmerado na montagem. Nem sempre um teor mais sério faz dos filmes do diretor peças assistíveis – pensando no patético Che (2008). Nada disso funcionaria, de qualquer modo, se o elenco galáctico não segurasse o roteiro ágil de Ted Griffin.

Mais do que entretenimento vazio, Onze Homens é um filme sobre elegância e acentuação precisa. Clooney e Pitt entregam cada linha diálogo com perfeito tom – ressalto os dois por serem o coração do filme, mas o mesmo pode ser dito de todos os atores, até mesmo de Cheadle com seu sotaque britânico. O grande deleite e a grande aula que o filme passa é sobre o poder de uma mísera expressão facial. Suave sem ser esnobe, afetuoso sem ser sentimentaloide… é um exemplo de filme agradável aos olhos pela extrema etiqueta empregada – nem mesmo a camisa prateada com gravata da mesma cor de Pitt consegue atrapalhar…

Uso propositalmente o nome dos atores em vez de seus personagens. Sem o charme empregado por cada um, o filme não funcionaria, repito. O entrosamento entre Clooney e Pitt é admirável – talvez o ponto mais admirável da trilogia toda. É sempre empolgante ver qualquer equipe de profissionais se juntar para um objetivo em comum – dos Onze Homens aos Vingadores. Sem os excessos cantantes e atos de cabaré perpetrados pelo filme de 1960, o deleite do suspense se dá da formação da equipe à execução do plano, com pouquíssimas quedas de ritmo.

Mais importante ainda: seja por um sorriso, por um silêncio, por um suspiro ou por um olhar, cada um dos onze homens é apresentado com um mínimo de background e personalidade. É claro que Matt Damon ganha mais espaço do que Shaobo Qin. A entrega cirúrgica de falas, todavia, passa por todos os atores. São elas que sutilmente ditam a diferença entre o cinismo de Pitt e o de Clooney, a convicção do saudoso Bernie Mac e a de Cheadle, ou a insegurança cômica de Damon e de Eddie Jemison.

Charmoso e com senso de humor fino, o Onze Homens de Soderbergh é um filme que envelheceu muito bem. Sua trilha jazzística e seus detalhes metalinguísticos só contribuem para uma combinação de ornamentos pontuada com extrema atenção. Um filme com tom próprio, discrição e graça, é e sempre foi a antítese do blockbuster barulhento, histérico e carente. Um exemplo bem realizado de honra entre ladrões no cinema do século XXI, que só podia terminar com uma nota de Debussy.

Onze Homens e um Segredo (Ocean’s Eleven) – EUA, 2001
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Ted Griffin
Elenco:  George Clooney, Brad Pitt, Julia Roberts, Andy Garcia, Matt Damon, Casey Affleck, Bernie Mack, Scott Caan, Eddie Jemison, Don Cheadle, Elliott Gould, Carl Reiner, Shaobo Qin.
Duração: 117 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran. https://twitter.com/AnthonioDelbon