Crítica | “Oops!…I Did It Again” – Britney Spears

estrelas 2,5

Com o lançamento do primeiro álbum, Britney Spears oxigenou o teen pop e trouxe um panorama de possibilidades para uma indústria que se mostrava rentável. Na época de surgimento do segundo trabalho, Gregory Mayfield, um dos integrantes da Billboard, fez uma declaração bastante coerente com o cenário: “minha filosofia é, se você tem um grupo de fãs adolescentes, você deve satisfazê-los enquanto eles ainda estão a todo vapor”. E foi exatamente assim que os produtores retornaram com Britney Spears, num álbum que pode ser pensado como o estabelecimento de um terreno propício para o furor sexual introduzido nos anos seguintes.

Britney alegou que quando havia feito o primeiro álbum, ela tinha completado 16 anos recentemente e ao refletir sobre o que viria a seguir, percebeu que precisava fazer algo diferente. “Um álbum mais maduro, porque eu cresci como pessoa também”, afirmou, ao adentrar o esquema de gravação assinado mais uma vez pela Jive Records, tendo nomes como Max Martin, Rami, Steve Lunt, Rodney Darkchild Jerkins e Barry Eastmond na produção musical.

Com 44 minutos e 30 segundos, Oops! I Did It Again rendeu muito comercialmente e revelou quatro singles, numa cartilha pop semelhante ao material do álbum anterior. A faixa título, escrita e dirigida por Max Martin e Rami, parcerias das principais canções do álbum, traz Spears afirmando que “não é tão inocente”, flertando com o filme Titanic, de James Cameron, além de brincar com os sentimentos de seu par amoroso. Segundo a MTV no lançamento do single, “Britney havia deixado de ser a colegial safadinha para se tornar uma gata sexy intergaláctica”.

Ao longo da faixa que traz as já comuns 96 batidas por minuto, Britney alcança o intervalo entre duas oitavas e tem como apoios vocais, a participação de Nana Hedin e do produtor Martin. Um videoclipe logo foi encomendado, sob a direção de Nigel Dick, o mesmo de três produções do álbum anterior. Com aspecto futurista, o material fez sucesso e se tornou uma das assinaturas de Britney Spears no terreno da cultura pop. Como segundo single tivemos Lucky, uma faixa escrita pela mesma dupla de produtores da música título. A canção teve colaboração de Alexander Krolund e apresentou Britney a se estender em seu vocal, ao longo do intervalo de uma oitava, e, através de 96 batidas por minuto, falar sobre ser uma famosa estrela, dona de beleza invejável, fama e dinheiro, mas que no fundo, é solitária e carente. O videoclipe, dirigido por David Meyers é bem produzido, mas Britney está na pior atuação da sua carreira audiovisual, num trabalho que causa vergonha alheia aos mais artisticamente sensíveis.

Stronger, terceiro single do álbum, também produzida por Martin & Rami traz a cantora soltando a voz através de 108 batidas por minuto, numa canção que fala sobre uma garota que abandona o namorado, haja vista a falta de confiança e a traição constante. Hino sobre vencer depois de um relacionamento, a faixa pode ser pensada como uma versão menor de Express Yourself (Madonna) e Believe (Cher). É uma espécie de declaração de independência de Britney Spears, mesmo que ela não tenha colaborado com um sinal de pontuação da letra. O videoclipe, dirigido pelo ótimo Joseph Kahn, também fez sucesso e pode ser considerado como um dos melhores desta fase da cantora. O último single foi a balada romântica Don’t Let Me Be Last to Know, escrita por Robert Lange, Keith Scott e Shania Twain. A canção fala sobre sentimentos amorosos de uma jovem que pretende ter o melhor relacionamento com seu par romântico. O videoclipe é um dos mais bonitos esteticamente, com cenário natural e sensualidade que indicava o que estaria por vir na carreira da princesa do pop estadunidense.

Além dos singles há alguns destaques: (I Can’t Get No) Satisfaction, cover dos Rolling Stones, produzido por Rodney Jerkins, abriu a participação de Britney Spears no VMA 2000, numa demonstração de uma jovem que não quer mais ser lembrada como a garotinha do Clube do Mickey; Dear Diary e Where Are You Know, duas baladas românticas razoáveis, surgem como a injeção de glicose do álbum; há ainda a divertida Don’t Go Knockin On My Door, escrita e produzida por Max Martin, Rami e Alexander Kronlund, uma faixa que mescla batida dance com ritmo empolgante, recheada de ironias.

Há pouco tempo, o site britânico Digital Spy o elegeu como melhor álbum pop do século XXI. Alguém enviou uma mensagem de bom senso? Apesar de não ser desqualificada artisticamente, a produção está longe de ser o melhor da contemporaneidade, tampouco da própria Britney Spears, artista que ainda lançaria os seus melhores álbuns entre 2002 e 2007.  Lançado numa época que a mídia celebrava o ritual de virgindade envolvendo a moça, havia ainda o agravante relacionamento com o príncipe pop Justin Timberlake, conturbado por conta da exposição constante nos tabloides. O sufoco e a pressão psicológica iriam explodir nos dois trabalhos seguintes, os flamejantes Britney e In The Zone. As inquietações ganharam a vida pessoal na fase Blackout, mas isso, no entanto, é assunto para as reflexões seguintes.

Aumenta: Stronger
Diminui: Lucky.

Oops!… I Did It Again
Artista: Britney Spears.
País: Estados Unidos.
Lançamento: 16 de maio de 2000.
Gravadora: Jive Records.
Artista: Dance-pop e teen pop.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.