Crítica | Open, de Andre Agassi

“Grunhimos como animais, batemos na bola como gladiadores, o forehand dele, o meu backhand. Todos no estádio prendem a respiração. Até o vento para de soprar. As flâmulas permanecem imóveis nos mastros.”

Andre Agassi

Nunca fui um grande entusiasta de autobiografias. Sempre tive a nítida impressão de que histórias não tão interessantes eram transformadas em epopeias nas mãos de seus autores, que carregavam além da conta nas tintas para garantir que os rumos da narrativa seguissem exatamente para onde queriam. Ainda que haja histórias de vida acima da média, outro problema para mim sempre foi imaginá-las contaminadas por todo tipo de viés narrativo, afinal de contas, o autor não teria omitido coisas fundamentais à sua história? Toda evocação narrativa as omite, é verdade, mas a linha que separa esse processo natural de um ato desonesto e deliberado é bastante tênue e de difícil discriminação para o leitor. Não direi que não haja contaminações na explosiva autobiografia do ex-tenista norte-americano Andre Agassi. Mas é surpreendente notar que ela realmente funciona como o gênero deve ser, isto é, como uma longa visita a um confessionário.

Open, publicada em 2009, fez grande barulho na época de seu lançamento. Impressiona que o relato contenha mais confissões de erros, culpas, fraquezas e frustrações do que propriamente glórias esportivas. Isso porque estamos falando de um dos maiores tenistas de todos os tempos, que venceu oito Grand Slams e um dos poucos a conseguir ganhar todos os quatro torneios dessa categoria. Mas Open é para Agassi uma expiação de seus tormentos apenas entremeada por relatos de suas vitórias. O autor é claro quanto a isso. Após vencer Wimbledon pela primeira e única vez em 1992, justamente na grama onde ele se sentira tão desconfortável para jogar nos anos anteriores, ele escreve: “Não sinto que Wimbledon tenha me transformado. Sinto, na verdade, como se tivesse me permitido desvendar um pequeno segrego indecente: vencer não muda nada”. As derrotas custam muito caro para Agassi do início ao fim de sua carreira. Ele mais as amarga do que saboreia os triunfos. Isso, de fato, não muda após vencer seu primeiro Grand Slam.

Agassi diz ao longo de todo o livro que detestava jogar tênis. Sempre fazendo seu relato em tempo presente, dando ao leitor a sensação de estar lendo o diário do ex-tenista no ato de sua feitura, ele reescreve o diálogo em que afirma isso a diversos interlocutores. Um dos mais queridos esportistas de todos os tempos revela-se, contra todas as expectativas dos fãs de tênis, um amaldiçoado pelo próprio talento. Andre Agassi reconhece suas aptidões no jogo de fundo de quadra, sua exímia movimentação e, especialmente, sua devolução magnífica (considerada a melhor de todos os tempos até a chegada de outra lenda do tênis – o sérvio Novak Djokovic). Agassi relembra o comentário de John McEnroe após uma partida entre os dois: “Joguei contra Lendl, Connors e Becker e jamais alguém devolveu um saque meu assim”. Mas todo esse talento tornou o tenista de Las Vegas um prisioneiro. Tentou abandonar a carreira já como profissional no episódio insólito em que deu suas raquetes a um grupo de mendigos. Mas algo sempre o fez continuar. Agassi não esconde que talvez seja difícil para ele mesmo nomear esse sentimento.

Tal como o título de sua autobiografia sugere, “Open” significa tanto o termo com que se designam os principais campeonatos do tênis como também o ato de abrir suas memórias mais íntimas para o mundo. O ex-tenista conta em detalhes a relação difícil com o pai autoritário, que o queria transformar em número 1 do circuito a qualquer custo e a decepção com o primeiro treinador – Nick, que o acompanhava desde os tempos da Academia Bollettieri. Revela como se sentia aviltado quando Michael Chang erguia as mãos aos céus após cada vitória, como se Deus tivesse escolhido um lado. Chama Jimmy Connors de “babaca arrogante” e narra como foi ignorado pelo ídolo, cujas raquetes eram encordoadas pelo pai de Agassi quando ele ainda era um menino. Quanto a Boris Becker, deixa claro que chegou a entregar uma partida para não enfrentar o arquirrival na rodada seguinte, tempos depois de o alemão ter protagonizado o lastimável episódio no US Open de 1995 em que passara quase toda a semifinal mandando beijos para a namorada de Agassi – Brooke Shields. Quanto ao relacionamento dos dois, Agassi dedica longas páginas para explicar como ele o afetou, trazendo à tona a sua versão mais instável e destemperada. Conta a sua derrocada a partir daí, chegando a sair do top 100.

O norte-americano atira para todos os lados e isso, inexoravelmente, iria causar muitas reações no mundo do esporte. Curiosamente, uma das mais ponderadas veio justamente de Boris Becker, que, mesmo atacado em Open, conseguiu chamar atenção ao fato de que Agassi não fora mais duro com os outros do que fora consigo mesmo em sua exitosa autobiografia. O ex-tenista estadunidense revela suas inseguranças dentro e fora das quadras. Das provocadas pela queda de cabelo (aqui ocorre uma pitada de comicidade ao narrar o jogo em que frágeis grampos prendiam uma volumosa peruca à sua cabeça) àquelas que o atormentavam em momentos cruciais da partida. Confessa a sua ruína emocional ao perder repetidas vezes para seu maior rival Pete Sampras e, nas páginas mais polêmicas de seu livro, confessa o uso de drogas e ter enganado a ATP quando a substância foi descoberta em um exame anti-dopping. Agassi narra esses episódios sem nenhum orgulho. Ao contrário, demonstra que seu dopping não fez jogar melhor. Apenas marcou a fase mais descendente de sua carreira. E ele sobreviveu a ela.

Open contém descrições vivíssimas da experiência de estar em quadra, sob constante pressão e em absoluta solidão (já que o tenista não pode falar nem com seu técnico durante a partida). Encanta que Andre Agassi revele o jogo de tênis como uma guerra de golpes de forehand, voleios e smashes, mas igualmente de insegurança, frustração e raiva. Em seu livro, ele revela a quadra de tênis como um campo de batalha, tal como fora a sua própria vida fora do court. Muitos ainda se perguntam o motivo de ter feito tantas revelações bombásticas em sua autobiografia, inclusive aquelas que comprometem a ele mesmo. Ao fechar as páginas de Open, o motivo me parece claro – o menino transformado pelo pai em máquina de rebater bolas (o que provavelmente contribuiu para tornar sua devolução tão extraordinária) havia encontrado na maturidade uma oportunidade de se revelar como homem normal. Não mais como herói ou como um nome de destaque no Hall da Fama do Tênis. Talvez só assim Andre Agassi tenha encontrado a sua forma de amar o esporte que tanto odiou por centenas de milhares de golpes.

Open – EUA, 2009
Autor: Andre Agassi
Editora: Globo Livros
Número de páginas: 501

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.