Crítica | Carmen, de Georges Bizet, no Metropolitan Opera (1987)

estrelas 4,5

Creio que é raro encontrar pessoas que nunca ouviram sequer uma ária, prelúdio ou entreato de Carmen, ópera popularíssima de Georges Bizet, encenada pela primeira no Ópera-Comique de Paris, em 3 de março de 1875. Esta foi a penúltima ópera de Bizet. Em 1885 ele daria pronta a peça Noé, mas esta era uma co-autoria que dividia com seu sogro (o compositor Fromental Halévy), que falecera, deixando-a inacabada. Bizet, então, terminou a ópera, dividindo os créditos.

Carmen foi a primeira ópera realista e chocou as suas primeiras plateias, primeiro, pela naturalidade de construção das personagens – a alma humana em conflito realmente não é algo agradável de e ver representado –, depois, pelo assassinato passional ocorrido no último ato.

A versão que comento nesse texto é uma montagem de 1987, produzida pelo Metropolitan Opera (com sua orquestra e coro) e dirigida por Brian Large, que começou a se destacar na cena operística nos anos 70, mas que se tornou realmente conhecido a partir de sua direção em Lucrezia Borgia (1980) e da saga O Anel do Nibelungo (1980-1).

Em sua montagem de Carmen, Brian Large realizou um trabalho notável, não só na concatenação de todos os elementos cênicos direcionados para as câmeras – mesmo sendo uma gravação ao vivo –, mas também na captação da atmosfera correta, tarefa na qual foi acompanhado por toda a equipe técnica.

Os cenários possuem uma excelente abertura para movimentação dos atores e dão um ar de grandeza e ao mesmo tempo pequenez (dramática) que fazem da tragédia e do amor contidos na obra elementos arraigados àqueles lugares. O destaque vai para as representações de Sevilha no primeiro e quarto atos e também a taverna de Lillas Pastia, no segundo ato. Destaca-se igualmente a fotografia para esses ambientes (idem para o pouco inspirado cenário do terceiro ato), que se altera com suavidade e apresenta muito bem a característica quente, libidinosa e viva que perpassam toda a ópera.

Prelúdio de Carmen (1987), sob regência de James Levine.

Os figurinos de John Bury também merecem destaque. Ele não descambou para um guarda roupa rococó, antes, trouxe vestimentas simples para as mulheres da fábrica de cigarros, os contrabandistas, as crianças pobres e um uniforme também simples para a Guarda local. Nada nesta montagem é colossal, cheio de colunas gregas e roupas da elite do século XIX ou coisa parecida. Há um acertado entendimento por parte da produção para como o local e o tom da trama, e esse entendimento pode ser visto na produção artística inteira do espetáculo.

Quem dá voz à protagonista é Agnes Baltsa, a mezzo-soprano grega que ficaria bastante conhecida por esta interpretação. A cantora mostra-se também uma excelente atriz, o que dá à sua personagem um destaque ainda maior e ajuda a formar a dualidade da personalidade de Carmen, às vezes vista como uma vilã. Sua voz é precisa nos agudos e suave quando deve ser, sem gritos e forçosa colocação de sua voz onde não cabe, como muitas vezes acontece com Carmens que vemos por aí.

José Carreas interpreta um Don José bom, mas nada absurdamente genial. O que fica mais evidente é a sua péssima capacidade de ator, o que abre um contraste imenso com suas principais companheiras de cena: Batsa (Carmen) e Leona Mitchell, que faz uma doce e bela Micaëlla, com destaque para sua interpretação maravilhosa na ária Je dis rien ne m’épouvante, no terceiro ato. Em relação a Samuel Ramey, há apenas que dizer que seu Escamillo foi a melhor interpretação da ópera, e que sua capacidade vocal melhora a cada vez que o vemos cantar. É incrível.

Regida pelo ótimo James Levine, essa montagem de Carmen pelo Metropolitan Opera, em 1987, é uma das melhores já realizadas para palco e câmera (destaque-se bem isso), e com certeza deve constar na lista dos admiradores de Bizet e sua obra inesquecível.

* Lançada em DVD no Brasil.

Carmen (França, 1875)
Local e data da presente montagem: 
The Metropolitan Opera, EUA, fevereiro de 1987
Composição: Georges Bizet
Libretto: Henri Meilhac, Ludovic Halévy
Direção: Brian Large
Regência: James Levine
Metropolitan Opera Orchestra, Metropolitan Opera Chorus
Elenco: Agnes Baltsa, Leona Mitchell, José Carreras, Samuel Ramey, Myra Merritt, Diane Kesling, Anthony Laciura, Bruce Hubbard, Vernon Hartman, Ara Berberian, Nico Castel, Charles Duval
Duração: 172 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.