Crítica | Operação Final

Conte a eles o que me contou, sobre as ordens que ignorou.

Como acabar com os nazistas? Matando, anonimamente, os restos dessa organização fadada ao fracasso, destinada ao repúdio dos descendentes de um amanhã? Sumindo com todos os rastros de sua existência, sem início, meio e fim? Os livros de história ficariam em branco. Um pensamento vil morre quando as consequências dele são exibidas ao mundo. Quando o pensamento não é executado, morto, mas julgado. Uma ideia não morre, pessoas sim, mas e se uma ideia é desacreditada ao nível da completa repulsa social, quanto – e se – reiterada posteriormente? A história narrada em Operação Final possui como objetivo a captura de Adolf Eichmann (Ben Kingsley), um dos grandes organizadores do Holocausto, fugido da Alemanha após o fim da guerra. O destino foi a Argentina, assim como tantos outros nazistas escaparam para territórios latino-americanos, como o próprio Brasil – situações que já foram diagnosticadas na literatura e na própria cinema. A morte desse homem, em segredo, o tornará esquecido com o tempo. A condenação marcará a história. Eichmann precisa ser deportado secretamente da Argentina e, com isso em mente, espiões israelenses de Mossad estão em seu encalço.

A obra opta por se localizar completamente no inglês como idioma, uma decisão compreensível, embora empobrecedora do material por completo, visto que certos contrastes culturais poderiam vir a calhar em relação à língua dos nazistas descobertos e à língua dos nazistas encobertos, porque, no final das contas, estamos falando de ferrenhos nacionalistas, tendo que se reunir em território estrangeiro. Uma contradição extremamente irônica. O poder da reunião entre os membros do partido, em um momento secreto, ainda permanece com a sua própria força, em decorrência do uso de expressões em alemão, reforçando o caráter patriótico desses encontros, assim como todo o discurso de ódio. Das falas mais amenas aos gritos mais enraivecidos, estamos diante daquelas pessoas mais perigosas para a humanidade. A descoberta, no tratamento de uma personagem, da realidade de quem o seu namorado é, descendente de imundos nazistas, a desnorteia completamente, assim como os espectadores, mesmo que já estivéssemos cientes disso. As sugestões são deixadas para outros momentos. Operação Final é, de certa maneira, bastante óbvio, caminhando para o piegas e o clichê pontualmente.

A fita, portanto, não tem muito receio em evidenciar os nazistas. O jogo, dessa forma, é mais explícito, tendendo para uma tensão em outro âmbito, da noção de que estamos diante do mal, da banalização do mal, como Eichmann seria referenciado futuramente – a trilha sonora de Alexandre Desplat é uma surpresa agradável para os ouvidos dos espectadores, que não esperavam tamanha competência audiovisual, complementada pela fotografia noturna. O grande destaque do jogo de estratégias é o monstruoso antagonista, interpretado por Ben Kingsley. A obra, surpreendentemente, retira muito do componente maniqueísta que narrativas envolvendo nazistas costumam, sem grandes problemas, possuir. Adolf Eichmann, o arquiteto do Holocausto, é retratado sob as lentes mais sinceras do ator que o interpreta, sem querer torná-lo uma criatura demoníaca, mas, caso não consiga afastá-la dessa vertente, aproximar as demais pessoas dela também. A questão é que, mesmo com discursos pomposos, discursos vitimados a limpar a barra de um homem cruel, existe muito cinismo em certas proposições e o longa-metragem não esconde isso. As duas facetas dessa guerra, todavia, estão nesse campo cínico.

Os espiões israelenses, porém, são deixados de lado, em uma trama muito pouco engajante, de tramoias e arquitetações, quando comparada às traçadas por outras obras similares estruturalmente, como Argo. O roteiro, ao menos, mostra-se preocupado em trabalhar o protagonista, Peter Malkin (Oscar Isaac), em uma narração transformada, inicialmente heroica, em de vingança, dada a inserção de flashbacks durante a projeção. O herói, porém, não desaparece com isso, apenas adquire camadas. A obra, portanto, ganha, com essas pontuações, uma dose considerável de carga dramática emocional, necessária para essa relação verdadeira de empatia entre o público e o caso, criada a partir de tal conjuntura. A condução, embora não seja das melhores, mais burocrática do que o necessário, não permite desandar uma história vigorosa e o texto, de fato, não é ruim, ainda mais os diálogos entre Eichmann e os espiões, em interrogatórios ou meros papos sobre o presente e o futuro. Uma navalha no pescoço ganha muitos significados. A duração com isso se estende, mas não o suficiente para o público abandonar a história, que, por bem e por mal, nunca deve morrer, para não esquecermos. Quando esquecemos, permitimos novamente acontecer.

Operação Final (Operarion Finale) – EUA, 2018
Direção: Chris Weitz
Roteiro: Matthew Orton
Elenco: Oscar Issac, Ben Kingsley, Mélanie Laurent, Lior Raz, Nick Kroll, Michael Arono , Ohald Knoller, Greg Hill, Torven Liebrecht
Duração: 122 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.