Crítica | Operação França

Dois anos antes do lançamento de O Exorcista, trabalho mais famoso de William Friedkin, o cineasta já havia consolidado seu nome dentro da indústria cinematográfica com Operação França. Sucesso comercial e de crítica, o longa ainda levou o Oscar de Melhor Filme, Melhor Direção para Friedkin e de Melhor Ator para Gene Hackman. Inspirado em fatos reais, o filme acompanha o policial Jimmy “Popeye” Doyle (Hackman) e seu parceiro Buddy Russo (Roy Scheider), ambos do departamento de narcóticos da cidade de Nova York, que investem seu tempo em pequenas apreensões pela cidade. Porém, quando reparam um sujeito desconhecido envolvido no meio, eles passam a investigá-lo, descobrindo que se trata de Sal Boca (Tony Lo Bianco), cuja origem da renda altíssima é associada à venda de drogas. Enquanto isso, o empresário francês Alain Charnier (Fernando Rey) orquestra o envio de um enorme carregamento de drogas para a cidade norte-americana.

Fotografada por Owen Roizman através de uma paleta dessaturada onde predominam tons de marrom e cinza opacos — isto é, uma paleta fria e sem vida –, a Nova York vista em Operação França é suja e barulhenta. As ruas da cidade são filmadas por Friedkin e Roizman através de uma câmera instável que sempre acompanha o trabalho da polícia de perto; assim, os bandidos são muitas vezes enquadrados em planos gerais à distância, permitindo que o cineasta inclua cidadãos comuns e fachadas comerciais em tais planos, aumentando a proximidade do filme com a realidade. Da mesma forma, o trabalho do departamento de som (formado por Christopher Newman e Theodore Soderberg) contribui para a verossimilhança do universo retratado, ao compor os ambientes com sons altos e secos – como, por exemplo, as buzinas, os motores e o bater das portas dos carros, o ranger do metrô e do trem em movimento, e até mesmo os passos dos personagens nas calçadas.

E esta visão de uma Nova York dominada pelas drogas em toda a sua extensão é posta lado a lado ao retrato da cidade francesa de Marselha, que é exibida de maneira bela e calorosa em sua superfície, mas que guarda nas sombras de suas estreitas ruas uma alma corrompida e violenta. Com isso, é fascinante observar a analogia que Friedkin e seu roteirista Ernest Tidyman nos permitem fazer: se a cidade norte-americana é hostil e decadente, o policial Doyle também o é; se a cidade francesa é elegante na sua aparência e sombria em sua essência, o empresário Charnier também o é.

O que nos leva ao principal elemento que conduz a narrativa de Operação França: o jogo de gato e rato vivenciado pelos personagens interpretados por Hackman e Rey. De fato, a investigação feita pelo policial e por seu parceiro em cima do carregamento de drogas é o grande centro do filme, mas tudo em prol da construção da personalidade conturbada de Doyle. Agressivo e de temperamento explosivo, a obsessão do policial apenas cresce à medida que a projeção avança; desta forma, cegamente centrado em seu objetivo final, Doyle não enxerga que é justamente sua obsessão doentia a responsável pelo fracasso de alguns momentos chaves da investigação – como o final de uma perseguição que se dá no metrô subterrâneo e, evidentemente, a trágica conclusão de Operação França.

Mas o brilhantismo do trabalho de Friedkin e Tidyman vai além ao subverter a personalidade e o moralismo clichê dos personagens de filmes policiais feitos até então: o policial Doyle acorda em bares, não possui boas relações com praticamente ninguém, é cabeça quente e dorme com qualquer garota que encontra na rua, enquanto o empresário vendedor de drogas Charnier é educado, esperto e possui bom relacionamento com familiares.

E tudo isto só funciona graças ao trabalho excepcional do elenco. Gene Hackman surge em cena com a barba por fazer e com o cabelo bagunçado, sugerindo aí a falta de cuidado pessoal que o policial possui em função do vício no trabalho. Da mesma forma, o ator é hábil ao conseguir transmitir a fúria e a obsessão do personagem para o espectador, o que é essencial para que possamos conhecer a personalidade de Doyle, e, consequentemente, entender a magnitude que certas ações suas alcançam ao longo do filme. Enquanto isso, Roy Scheider é eficiente como Buddy Russo, o parceiro do protagonista, cujo papel é fundamental ao manter a cabeça no lugar durante a investigação, funcionando muitas vezes como a voz da razão ao longo do filme – por mais que esta voz dificilmente seja ouvida pela cabeça dura de Doyle. Por fim, Fernando Rey como Charnier transforma seu personagem em um sujeito elegante, calmo e seguro de si, sem nunca deixar de ser visto como uma ameaça, tornando o empresário uma figura memorável que cresce ao longo da projeção.

Assim, com isto em mãos, a direção de William Friedkin é de suma importância para que tudo funcione na mais perfeita harmonia. Auxiliado pela edição de Gerald B. Greenberg, marcada pelo ritmo inquieto e por cortes secos e brutos, e novamente pelo departamento de som que faz uso de sons diegéticos (isto é, sons ambientes) para construir a atmosfera necessária, o cineasta transforma algumas cenas em verdadeiras aulas de Cinema: a perseguição a pé feita por Doyle e seus companheiros pelas ruas de Nova York é calcada em paciência e transmite apreensão, ficando cada vez mais exaustiva à medida que avança – refletindo a própria sensação dos personagens participando de tal acontecimento; e a icônica perseguição de carro feita por Doyle ao trem é conduzida de maneira intensa, frenética e envolvente.

Contando ainda com uma trilha sonora de Don Ellis que pontua muitíssimo bem os momentos em que surge, Operação França foi responsável pela releitura feita aos filmes policiais na década de 70, ao lado de filmes como Perseguidor Implacável de Don Siegel (também lançado em 1971). Carregado de pessimismo, este grande trabalho de William Friedkin oscila pela moralidade ambígua vista nos dois lados da lei; assim, o espectador chega ao fim da projeção com um inevitável gosto amargo na boca, haja visto a angustiante e por vezes frustrante experiência cinematográfica proporcionada pelo filme.

Operação França (The French Connection) – EUA, 1971
Direção:
William Friedkin
Roteiro: Ernest Tidyman (baseado na obra de Robin Moore)
Elenco: Gene Hackman, Fernando Rey, Roy Scheider, Tony Lo Bianco, Marcel Bozzuffi, Frédéric de Pasquale, Bill Hickman, Harold Gary, Ann Rebbot, Arlene Farber
Duração: 104 minutos.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.