Crítica | Operação Red Sparrow

Eu realmente pensava que Operação Red Sparrow seria um filme mais adulto equivalente a uma obra protagonizada pela personagem de quadrinhos Viúva Negra. Na trama deste longa-metragem dirigido por Francis Lawrence, após infortúnios destruírem a sua carreira profissional, Dominika Egorova (Jennifer Lawrence) se torna uma espiã russa, guiada pelo seu tio perverso, Ivan Egorov (Matthias Schoenaerts). As problemáticas começam a surgir na medida que Dominika gradativamente coloca o seu país de lado, ao se ver apaixonada pelo inimigo. Em um primeiríssimo plano, temos uma Jennifer Lawrence em excelente forma, expressando todas as dores, físicas e emocionais, que surgem para ela em decorrência de eventos trágicos – o senso de aprisionamento é crível. Francis Lawrence, aliás, inicia o seu filme em passos certeiros, com uma bela sequência de balé contrastando bem com uma outra sequência, muito menos poética, mas deveras tensa.

O longa-metragem definitivamente perde essa força no restante de sua duração, apesar das mazelas relacionadas à Egorova serem fortemente sensitivas pelo público. Já durante o treinamento de Dominika para se tornar uma Sparrow, nos vemos diante de um foco absurdo no caráter sexual, com a obra esquecendo das habilidades físicas, presumidamente essenciais para uma espiã. A nudez, em um caso específico, é utilizada para fins compreensíveis, de impacto. A sedução, enfim, é completamente comprável, o vazio de emoções também, mas cadê o senso de perigo decorrente da presença de pessoas como essas? As reviravoltas na história são presumidamente inteligentes, e podem até mesmo surpreender o público. Todavia, na verdade, elas são frutos de um trabalho confuso de roteiro, que não sabe para onde quer levar os seus personagens e, no final, cria uma grande quantidade de furos em si mesmo, tentando consertar tudo com uma presunção de inteligência. A história, portanto, é mal resolvida e brinca com as peças no tabuleiro como se quisesse dizer alguma coisa com elas, mas sem dizer nada eficientemente. No caso, o General Vladimir Korchnoi (Jeremy Irons) é uma figura ausente que os roteiristas buscam, nos últimos instantes, usar como manobra narrativa sagaz, adicionando profundidade onde não existia, de maneira completamente expositiva é claro.

Ledo engano, Operação Red Sparrow afia facas contra a política russa, os valores – e a falta de outros – fomentados pelo exército do país. Basicamente, Red Sparrow acaba sendo um filme “anti-Rússia”, que tem os ideais americanos sendo, como muito bem dito, os ideais. Ademais, o espírito é mesmo do de longas com temática de Guerra Fria, mesmo se passando em tempos contemporâneos; um problema anacrônico. Mesmo se não houvesse o maniqueísmo, dificilmente um espectador se aproximaria da ótica apresentada do outro lado. Isso é um problema, pois a tendência de pensamento do espectador não é nem no mínimo provocada, com o filme nos controlando indiscriminadamente, quando não precisaria de tanto para nos “convencer” de seu discurso. Em suma, Red Sparrow é um filme bastante malandro, mas em melhores palavras, poderia ser categorizado facilmente como desonesto. Para finalizar, o tal norte relativo a paixão que Dominika desenvolve por Nathaniel Nash (Joel Edgerton), um agente secreto americano, também é explorado aos trancos e barrancos. Francis Lawrence, apesar de saber conduzir algumas cenas muito bem, com direito a torturas angustiantes, senão sádicas, peca quando vai tentar transpor o amor proibido que um personagem nutre pelo outro. As relações também são mal desenvolvidas em outros momentos, como é o caso da colega de quarto Marta (Thekla Reuten), que não impacta o espectador emocionalmente, apenas graficamente.

Fora isso, o pecado maior da obra se concentra no erotismo e no fraquejo do roteiro e da direção, inclusive da própria atriz Jennifer Lawrence, em atacar esse mundo masculino sedento pelo prazer da carne, às custas de tudo o que pertence a mulher. Já que a crítica vai apenas aos russos, se esquece de uma misoginia universal. Sendo um thriller erótico, Operação Red Sparrow acaba tão passivo em sua mensagem quanto Cinquenta Tons de Cinzamesmo que a carga de eroticidade seja consideravelmente melhor trabalhada aqui, vide as tonalidades de vermelho que preenchem a fotografia, não tão apurada esteticamente quando se esperava. Mas, mesmo dentro de sua proposta, baseada no livro homônimo de Jason Matthews, também não esperem que muito seja tirado da essência do filme. Tudo absorvido pelo público é fabricado de maneira problemática, deméritos mascarados por um estilo e envolvimento manipulativos.

Operação Red Sparrow (Red Sparrow) – EUA, 2018
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Justin Hayth
Elenco: Jennifer Lawrence, Joel Edgerton, Jeremy Irons, Matthias Schoenaerts, Ciarán Hinds, Joely Richardson, Mary-Louise Parker, Charlotte Rampling, Bill Camp, Hugh Quarshie, Sakina Jaffrey, Thekla Reuten, Douglas Hodge, Sasha Frolova, Kristof Konrad
Duração: 140 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.