Crítica | Orange is the New Black – 1ª Temporada

estrelas 3,5

Mais uma série produzida pelo canal de streaming Netflix, Orange is the New Black, baseada em um livro de memórias de mesmo nome escrito por Piper Kerman, é uma refrescante visão de “drama de prisão” sob o ponto de vista feminino. Composta de 13 episódios, cada um com duração que varia entre 51 e 60 minutos, a série mistura fortes pitadas de comédia com personagens cativantes.

Sem perder muito tempo, a série já estabelece a situação: Piper Chapman (Taylor Schilling), uma jovem loira de classe média alta é condenada a 15 meses de prisão por tráfico de drogas. O crime fora cometido há 10 anos, mas a condenação vem mesmo assim e, nos momentos iniciais, a série se esmera em mostrar a vida de conforto de sua protagonista com seu noivo Larry (Jaso Biggs da série American Pie) que a apoia em absolutamente tudo. Piper está juntando suas forças para se entregar voluntariamente ao encarceramento em um presídio feminino de segurança mínima.

Mas é evidente que, por mais preparado que alguém possa estar, o choque com a vida prisional é inevitável. Piper é a loirinha bonitinha e inocente que está perdida no meio de prisioneiras veteranas. Sua vidinha de luxo acaba como que por um passe de mágica e seu inferno começa. Sem entender as regras de convívio em uma prisão (que marinheiro de primeira viagem efetivamente entende, não é mesmo?), Piper logo cria antagonismo com a chefe de cozinha Red (uma russa ruiva vivida por Kate Mulgrew) e literalmente passa fome até que consegue, a duras penas, dar a volta por cima.

Na medida em que vai aprendendo como se comportar em ambiente tão diverso, ela cria amizades e inimizades com diferentes personagens, cada uma mais interessante que o outro (bom, pelo menos para nós, espectadores). Piper é obrigada a amadurecer rapidamente, a pensar com rapidez e a lidar com pessoas que nunca fizeram parte de seu restrito universo.

Mas não se enganem se o espectador espera uma série padrão sobre “prisão”. Não estamos falando de Prison Break nem de qualquer tipo de filme semelhante. A prisão para onde Piper vai funciona muito bem como um artifício da narrativa – por mais que a série seja baseada em fatos – para um estudo de personagens. Sim, é bem verdade que vários, se não todos, são personagens caricatos ou que caminham fortemente para esse lado, mas, cada um a sua maneira representa uma categoria de pessoas cujo tratamento aberto dado por Jenji Kohan, criadora de Weeds e de Orange – sem filtros ou embelezamentos – engaja o público.

Temos a já citada Red que, como se pode deduzir muito facilmente, tem relação com a máfia russa. Temos Pennsatucky (Taryn Manning), uma carola viciada em drogas; Crazy Eyes (Uso Aduba), uma louquinha que desenvolve uma fixação por Piper; Nicky Nichols (Natasha Lyonne), uma ex-viciada em drogas com bastante experiência de vida e que tem a proteção de Red; Sophia (Laverne Cox), um homem que passou por uma operação de mudança completa de sexo e é, agora, a cabeleireira da prisão; Daya (Dascha Polanco), uma latina que desenvolve uma relação amorosa secreta com John Bennett (Matt McGorry), um dos agentes correcionais; Irmã Ingalls (Beth Fowler), uma freira que foi presa por seu ativismo contra uso de energia nuclear; Poussey Washington (Samira Wiley), jovem que vive em um entra e sai de prisão e que tem possibilidade de sair mais uma vez; Big Boo (Lea DeLaria), uma lésbica dominadora que já teve diversas esposas na prisão e mais um sem-número de personagens cativantes.

Chega um ponto – e aí talvez seja meu maior “problema” com a série – que ela deixa de ser sobre Piper e sua ex-amante (Alex Vause, vivida por Laura Prepon) e responsável por ela estar na prisão – e que cumpre pena, coincidentemente, no mesmo local que Piper – e passa a ser difusamente sobre todas as prisioneiras e suas inter-relações dentro e fora da prisão, sendo que o “fora da prisão” nos é mostrado por intermédio de flashbacks. Piper se transforma na “loirinha sem graça” que é mero fio condutor para a narrativa.

Acontece que esse meu “problema” com a série, e daí vêm minhas aspas, seja justamente sua maior qualidade. O investimento de Jenji Kohan em desenvolver um grande número de coadjuvantes é corajoso e, de certa forma, inédito. E, durante toda essa primeira temporada, o artifício dos flashbacks é usado comedidamente, por relativamente poucos minutos, sem que a narrativa no presente perca com isso.

O Netflix caminha por um mar de possibilidades e Orange is the New Black pode não ser sua melhor série exclusiva até agora, mas ela definitivamente agradará em cheio àqueles que procuram uma comédia “séria” que faz pensar e que nos dá uma visão diferente do que costumamos imaginar quando a expressão “filme de prisão” é usada para classificar alguma coisa. Resta saber se, com as modificações vindouras para a Segunda Temporada – Laura Prepon já anunciou sua saída como personagem regular – a qualidade se manterá.

Orange is the New Black – 1ª Temporada (EUA, 2013)
Showrunner: Jenj Kohan
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Taylor Schilling, Jason Biggs, Kate Mulgrew, Taryn Manning, Natasha Lyonne, Uzo Aduba, Laverne Cox, Dascha Polanco, Matt McGorry, Beth Fowler, Samira Wiley, Lea DeLaria, Laura Prepon, Pablo Schreiber
Duração: 715 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.