Crítica | Orca – A Baleia Assassina

Entre os subgêneros do eco-horror, os tubarões provavelmente sejam os mais numerosos. Há uma série de produções contemporâneas grotescas que deixaram de lado qualquer pudor em prol das aventuras com tubarões de todo tipo. Uma avalanche de absurdos que podemos denominar de rabiscos dramatúrgicos. Desde o lançamento do filme de Spielberg uma quantidade enorme de produções emulou o enredo que de acordo com a ideia e o animal escolhido, traria um conflito numa cidade atordoada com os problemas que envolvem a presença de determinada criatura a matar e tirar o sossego de muitos habitantes.

Orca – A Baleia Assassina é uma dessas produções integrantes do painel jawsplotation. É absurda, excessiva, patética em alguns trechos, mas dona de certa dignidade que nenhum destes subprodutos contemporâneos com tubarões, salvas algumas raras exceções, conseguem carregar em sua estrutura. A trama envelheceu com o tempo, haja vista seu lançamento nos anos 1970 e o esgotamento dos filmes com animais marinhos assassinos, mas ainda assim, traz em sua embalagem uma aura saudosista, parte de uma geração que cresceu assistindo ao filme nas exibições televisivas exaustivas.

Lançada em 1977, a aventura nos apresenta ao Capitão Nolan (Richard Harris), um homem que acidentalmente mata uma orca fêmea que está grávida. O seu interesse na realidade era capturar um tubarão branco para o aquário da cidade, mas a baleia foi o que veio primeiro. Então, o bravo homem não se conteve e dizimou o que viu pela frente. O macho, do fundo do mar e numa perspectiva “ponto de vista”, assiste a tudo. Talvez esta seja uma das melhores personificações do cinema, pois a forma como o animal assiste ao abate da fêmea e a retirada do feto nas entranhas é de uma “humanidade” hedionda. Há um trecho que o design de som deixa bem nítido o som do choro do animal.

Tomada pelo sentimento de tristeza, a orca começa o seu projeto de vingança e a ideia é destruir a tudo e a todos. Objetivos gerais? Vingar-se pela morte da companheira. Objetivos específicos? Destruir a cidade, matar a todos e dar aos humanos o que eles merecem. Justificativa? Não se deve fazer tão mal aos animais, principalmente aos que estão praticamente em extinção. Procedimentos metodológicos? Infernizar a cidade, destruir as possibilidades de curtição dos turistas, vingar-se de todos e atrair os diretamente culpados pelo massacre da “família orca” para um terceiro ato similar ao colega de gênero cinematográfico, Tubarão, mais experiente e lançado em 1974, o que designa uma espécie de referências consultadas.

A orca não vai conter qualquer instinto e destruirá boa parte da cidade, algo que pede a suspensão da crença por parte do espectador. Com cenas gravadas num tanque e com a presença de alguns animatrônicos em determinados trechos, o filme possui uma narrativa arrastada, absurda e em alguns momentos, brega. A trilha sonora de Ennio Morricone, conhecido compositor de dramas edificantes, dá um pouco mais de dignidade ao filme que em si é ordinário, principalmente por plagiar praticamente toda estrutura da adaptação do romance de Peter Benchley.

Para provar que o roteiro é uma planta baixa do filme de Spielberg, observe: a especialista em animais marinhos Rachel Bedford (Charlotte Rampling) e o esquimó Umilak (Will Sampson) unem-se ao capitão para seguir rumo ao gelo, local onde haverá o desfecho trágico, pois a baleia os seguiu até a zona gélida. Um final com três personagens integrando a equipe responsável por expulsar o animal marinho. Alguma semelhança ou mera coincidência? Uma cidade inteira preocupada com o desfalque no desenvolvimento cultural e econômico por conta de uma baleia irada e em busca de vingança, responsável por afastar os peixes e causar danos estruturais ao local. Mais coincidência? Creio que não.

Há uma polêmica que envolve o filme, similar ao título do clássico O Massacre da Serra Elétrica. Quando divulgado no Brasil com o título traduzido, reclamantes alegaram que é o instrumento criminal de Leatherface é uma motosserra, haja vista a impossibilidade de um maníaco utilizar uma serra elétrica nas circunstâncias apresentadas pelo filme. No caso de Orca – A Baleia Assassina, a questão é polêmica pelo fato da Orca ser parte integrante da família dos golfinhos, não das baleias, o que traz toda uma confusão biológica em torno do animal. A confusão não chega a atrapalhar o roteiro de Luciano Vincenzoni e Sergio Donati, tampouco a direção de Michael Anderson, todos confusos antes mesmo da definição do título, equivocados em suas escolhas literárias e narrativas.

Em seus 92 minutos, Orca – A Baleia Assassina nos mostra que é uma história de vingança. A referência ao clássico Moby Dick, de Herman Melville é evidente. O capitão Nolan é uma versão do Capitão Ahab da obra literária, numa prova de como os fios que entrelaçam essas narrativas são oriundos de uma rede que lembra um rizoma, com colaborações de todos os lados e uma maneira de se espalhar que segue direções variadas e toma de empréstimo elementos da literatura clássica, dos textos bíblicos, de histórias da vida real e do próprio cinema, como é o caso desta narrativa que se firmou como o derivado de Tubarão com maior projeção na época.

Orca – A Baleia Assassina (Orca) — EUA, 1977
Direção: Michael Anderson
Roteiro: Luciano Vincenzoni, Sergio Donati
Elenco: Richard Harris, Charlotte Rampling, Will Sampson, Bo Derek, Keenan Wynn, Robert Carradine,
Duração: 92 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.