Crítica | Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

estrelas 3

Há três motivos que fazem de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, uma das obras mais conhecidas da história da literatura. As suas adaptações é o tópico número um, haja vista que a obra é um dos textos mais traduzidos para o teatro, o cinema e pela televisão. O tópico número dois fica por causa do seu estatuto canônico na memória cultural, pois a obra, independente dos elos que a tornam um texto cheio de altos e baixos, é extremamente canônica. E o último tópico, não menos importante, é a sua estrutura cheia de conflitos: a relação tempestuosa entre homens e mulheres.

Apesar de ambientar-se no século XIX, a história ainda exerce fascínio, principalmente no público feminino: toca nas cordas sensíveis do casamento por interesse e o papel da mulher na sociedade. Publicado em 1813, Orgulho e Preconceito centraliza e a sua história em Elizabeth Bennet, uma jovem que precisa lidar com os problemas que envolvem a sua existência na sociedade inglesa de uma época machista e conservadora.

Educação, cultura, moral e os interesses da aristocracia rural fazem parte do painel de fundo dos conflitos que gravitam em torno de personagens bem característicos da época em questão. Elizabeth é a segunda filha de um proprietário rural em Meryton, cidade fictícia próxima de Londres.

“Um romance elegante”, disparou Anne Isabella Hilbanke, esposa do Lord Byron, na época de lançamento. A autora, ao utilizar novamente a antítese em seu título (a mesma de Razão e Sensibilidade), conseguiu guiar o público em um mar de emoções múltiplas. Não se engane: Jane Austen possuía uma postura bastante conservadora, mas em suas histórias, já trazia, mesmo que de leve, a busca da mulher por um “lugar melhor ao sol”.  O livro segue a ótica do historiador Olwen Hufton. Ele aponta que independente das suas origens sociais, a partir do momento em que nascesse, a mulher passava a ser definida por seu casamento com um homem. Se não fosse isso, à obediência à “santíssima trindade” marido, tutor ou pai.

Jane Austen era de uma família que promovia a leitura como catalisadora da formação cultural no lar. Pertencia a nobreza agrária em Hampshire, mas em sua escrita, é possível observar as suas críticas a questões como os direitos femininos e as lutas de classes. Diferente de muitas mulheres da época, Austen posicionava-se politicamente em questões consideradas como “papo masculino”. Em sua obra é possível perceber que o ambiente de sobrevivência das pessoas é importante para o crescimento e o desenvolvimento da moralidade dos jovens. Outro ponto bem nevrálgico em sua narrativa: a situação social e a riqueza não são necessariamente vantagens para se dizer uma pessoa de vida “abastada”. Valores morais, segundo o prisma conservador e “limpinho” de Jane Austen, contavam mais.

Ao descrever os seus personagens revestidos de ironia, nos apresentou um painel de tipos: Elizabeth Bennet é a protagonista. A história é contada sob o seu ponto de vista. Tem 21 anos, é descrita como alegre e sincera, às vezes é impulsiva quando está no posto de julgamento de ações alheias, característica que vai delinear muitas das suas ações ao longo da narrativa. A moça flerta com Fitzwilliam Darcy, um rapaz apontado como bonito e inteligente, protagonista masculino da história, socialmente bem sucedido e culto. Em suma, o que conhecemos em nosso imaginário como o arquétipo do “Lorde Inglês”.

Mr. Bennet, patriarca da família, relaciona-se bem com as duas filhas mais velhas. Igualmente culto e inteligente, tem pouca paciência com a sua esposa, Mrs. Bennet, uma mulher afeiçoada à filha mais nova, uma “dondoca” cheia de vontades. Dedicada e ansiosa, a matriarca coloca Elizabeth constantemente em situações vexatórias em público, sendo estes os momentos cômicos do romance carregado pelo melodrama.

Há ainda outros personagens importantes para o compor o painel de conflitos do romance: as irmãs Jane, Marty, Catherine e Lydia, além do clérigo William Colins e Lady Catherine de Bourgh, uma aristocrata dominadora e orgulhosa, típica das séries e novelas embasadas no clichê folhetinesco, em suma, aquela personagem que desejamos ver destroçada pela vida no final, tamanha a postura agressiva no enredo.

O livro veio na esteira de um período em que a figura pública da família era o homem, sendo a mulher relegada ao privado. A afetividade das relações estava ligada às alianças e acordos familiares, sendo o homem o chefe de família, ícone responsável por assegurar a coesão indispensável para a manutenção do patrimônio e da honra oriunda do eixo familiar.

Orgulho e Preconceito dialoga com o que Hegel traçou na filosofia sobre o casamento e as relações sociais. Conforme apontou, o âmbito doméstico constitui uma instância reguladora fundamental e desempenha um papel de “deus oculto”. Em suma, os indivíduos da época, e porque não pensar, de agora, tornam-se subordinados aos círculos sociais, como se estivessem em corporações até mesmo em seu ambiente familiar.

Outro filósofo que “chega junto” dos temas do romance é Kant. Segundo a sua proposta sobre o cerne privado, a mulher é ambígua, pois é o centro da casa, mas ao mesmo tempo constitui o seu perigo. É a moral da mulher que vai definir o comportamento dos seus filhos, afirma o filósofo. Se eles falharem, não há outra pessoa a não ser a mãe, mulher, a carregar a “cruz da culpa” pelo resto da sua indigna vida. Jane Austen, ciente do sufocamento proposto por este pensamento, já traçava algumas linhas para fazer a sociedade pensar quão claustrofóbica era a vida da mulher neste modelo de sociedade.

Todavia, foi preciso quase dois séculos para essa ideia modificar-se na teoria, pois na prática a situação da mulher ainda é a pauta do dia em congressos, palestras de ONGS, temas de redação de vestibulares, filmes, letras de músicas, espetáculos POP e outras manifestações narrativas da humanidade.

Com a sua pena carregada de sensibilidade, Jane Austen, tanto em Orgulho e Preconceito como em outros romances, explorou a situação miserável da mulher com base no que o seu tempo e a sua sociedade permitiam. Apesar de conservadora, entretanto, Jane Austen coloca as mulheres numa situação de combate muito melhor que as vexatórias moças contemporâneas que decidem abdicar de tudo para se tornar uma vampira, ou então, servir de alvo para o chicote ou as mordaças de um riquinho boboca que só seduz mesmo aquelas que estão extremamente carentes e desprovidas de bom senso.

Orgulho e Preconceito (Inglaterra, 1813)
Autor: Jane Austen.
Editora: Edi.
Páginas: 200.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.