Crítica | Orgulho e Preconceito e Zumbis

estrelas 2

Um dos romances mais conceituados da História da Literatura já havia ganhado uma sensível adaptação cinematográfica com Orgulho e Preconceito de Joe Wright. Já na contramão do clássico, em 2009, o projeto variado de um “revisionismo histórico” dark e cômico de Seth Grahane Smith ganhava sua primeira obra concreta: Orgulho e Preconceito e Zumbis. O sucesso foi tremendo, mas, estranhamente, seu livro posterior, Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, desse nicho foi adaptado primeiro para os cinemas.

Quem escreve a adaptação do livro é o próprio diretor do filme, Burr Steers. Logo fica muito mais fácil encontrar o principal culpado pelo tom muito inconstante, porém divertido, deste longa. A narrativa ainda se centra no drama vivido pela família Bennet entre diversos triângulos amorosos, desilusões, conquistas, bailes, intrigas, romance, sonhos, frustrações e, no caso, zumbis. Bom, alguns zumbis. O cerne do conflito se mantém entre a relação problemática e apaixonante entre Darcy e Elizabeth Bennet. Só há a adição em tornar praticamente todos os personagens que protagonizam o filme em guerreiros habilidosos de artes marciais e exímios atiradores.

Mesmo tendo uma premissa interessante, Steers se perde, tanto na direção quanto no roteiro, no tom que ele pretende seguir. Ele não sabe se quer tornar o filme em uma experiência motivada pela comédia paródica quase spoof, pela ação/suspense das matanças diversas de zumbis, pelo drama das intrigas da sra. Bennet em tentar casar suas filhas a todo custo ou no romance de Darcy com Elizabeth. Logo, o que temos é um filme fragmentado com cenas que casam mal com as anteriores para fazer algum sentido dentro da história.

Muitas coisas jogadas na narrativa ficam sem conclusão ou ao menos são trabalhadas com algum cuidado. Isso tange, sempre, conflitos muito importantes para a tensão que Steers tenta trabalhar. Nunca é explorado direito a dúvida se uma irmã Bennet foi mordida por um zumbi, ou por qual razão Lady Catherine concede o matrimônio de determinados personagens. Porém, o mais grave, é a introdução sempre porca dos zumbis que invadem algum baile, festa ou qualquer outro lugar onde os personagens estejam no momento. No fim, há uma justificativa muito torpe que pede muito da sua suspensão da descrença deixando essa falha ainda mais escancarada.

Por incrível que pareça, não há tantas cenas que envolvam zumbis como deveriam existir. Ainda se trata da mesma história de amor escrita por Jane Austen com participações especiais de mortos-vivos. Entretanto, mesmo que a história seja fraca e pouco desenvolvida, há uma exploração satisfatória dessa mitologia proposta para a Inglaterra Vitoriana pós apocalíptica. Todo o establishing desse universo é bem apresentado pelos créditos iniciais muito bem animados com encartes que remetem livros pop up também apresentando a verve ridícula do longa.

Tudo que tange a essas novas características apresentadas para a história original é interessante e satisfatório, apenas. Nada surpreendente ou fantástico. Isso vai desde os novos papéis que os personagens assumem na história ou seu modus operandi em matar zumbis. É legal notar que houve uma preocupação em preservar a essência de cada um deles. Porém, com tantos personagens preenchendo espaço, alguns deles rapidamente são esquecidos como as irmãs de Elizabeth, incluindo Jane. A personagem mais problemática ainda é Lady Catherine. O que realmente salva é a motivação e construção de George Wickham mesmo que o desfecho do arco seja previsível e clichê.

Na maioria do filme, Steers consegue entregar um bom ritmo, bons enquadramentos com inspiração em Downton Abbey, além de coordenar muito bem toda a parte técnica impecável do longa. Não se engane, Orgulho e Preconceito e Zumbis é um filme muito bem produzido. Isso vai desde a bela cinematografia sempre atmosférica e bucólica ao primoroso design de produção incluindo um figurino de época muito refinado. O filme brilha nessaa áreas tão importantes para construir um universo crível. E como Steers costuma enquadrar com competência, tudo se torna mais agradável.

Até mesmo o trabalho com o elenco surpreende. Lily James, Sam Riley, Jack Huston e Matt Smith – trabalhando muito bem a comédia com Parson Collins, são os que se destacam dentro de uma variedade competente de atores que dominam o sotaque rebuscado do inglês já um pouco arcaico. Lily puxa em alguns momentos os olhares vidrados de Keira Knightley, mas sempre consegue construir facetas novas para fortalecer a personagem aproveitando agora que ela é uma mestra da pancadaria.

Steers falha – e falha miseravelmente, quando resolve enfiar seu dedo com nenhuma sutileza na direção. Ele tem certos vícios visuais que quebram a elegância do filme, o jogando diretamente no brega. Isso acontece em todas as vezes que usa o ponto de vista de um zumbi para mostrar o ataque em direção à vítima – sempre com um travelling in. É algo inspirado em Romero, mas não casa, é repetitivo e tosco. Fora a mania de usar blacks após essas passagens para frisar o acontecimento. Novamente, brega.

Além dessas barbeiragens, há o uso completamente equivocado e disfuncional de montagens paralelas que estragam o clima mais sóbrio da técnica. As montagens não funcionam e lançam o filme em um grau de amadorismo assustador. Infelizmente isso acontece mais de uma vez. Também há problemas para resolver o clímax do filme que é muito apressado. Ele erra não somente no que tange o visual, mas também no sonoro. É uma vergonha o modo atropelado e intrusivo que o diretor utiliza a boa trilha do erudito Fernando Velázquez. Não só o uso é, por vezes, falho, mas como a mixagem faz um estrago deixando a música extremamente alta em diversos momentos. incluindo o uso manjado para pontuar sustos e afins – todavia, isso pode ter sido apenas um deslize de calibragem da sala onde assisti ao filme.

Orgulho e Preconceito e Zumbis ainda se sustenta mais pela ótima história de Jane Austen. A ação de Steers não é péssima ou mal filmada, mas é sem graça. Os problemas já listados, além da indecisão sobre qual tom seguir aliado ao uso bizarro da inconstante violência gráfica, prejudicam a experiência do filme como um todo. Porém, não há como ignorar as proezas técnicas e do bom trabalho do elenco. A história segue a mesma qualidade das cenas de ação. Há sim algum divertimento, boas cenas e diálogos bem feitos, porém, o diferencial que faz jus a existência deste longa é tão vazio e fraco que nos revela como a narrativa original é forte para sustentar até mesmo uma história como essa.

Se quiser ver um filme de ação razoável este aqui é algo a se considerar com expectativa baixa. Acredito que a diversão chegará aliada a rapidez do longa tornando ele uma experiência satisfatória de entretenimento. Mas caso seja fã do clássico e de sua autora, certamente é melhor se contentar com o filme original.

Orgulho e Preconceito e Zumbis (Pride and Prejudice and Zombies, EUA, 2016)
Direção:
Burr Steers
Roteiro: Burr Steers baseado em Seth Grahane Smith e Jane Austen
Elenco: Lily James, Sam Riley, Bella Heathcote, Ellie Bamber, Millie Brady, Suki Waterhouse, Douglas Booth, Sally Phillips, Charles Dance, Jack Huston, Lena Headey, Matt Smith
Duração: 107 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.