Crítica | Orlando

A autora Virginia Woolf, além de ser uma exemplar escritora, abordou temas como empoderamento feminino e homossexualidade em uma época em que a sociedade era ainda mais conservadora do que atualmente. Obviamente, os livros de Woolf discutem muito mais do que isso, contudo, as abordagens acerca do feminismo, por exemplo, deixaram um imenso legado para o mundo literário. Um dos trabalhos mais reconhecidos da autora foi Orlando, publicado em 1928, porém, devido à complexidade da história, muitos diretores sequer cogitaram adaptá-la. Mesmo assim, a realizadora inglesa Sally Potter assumiu a responsabilidade e levou a história para o cinema.

O filme mostra a vida do nobre Orlando (Tilda Swinton) que, após uma visita da rainha Rainha Elizabeth I (Quentin Crisp) à sua casa, é condenado a permanecer eternamente jovem. A maldição se cumpre e o rapaz atravessa os séculos experimentando vidas, parceiros, sentimentos e mudanças de gênero.

O que aprendemos com trajetória de Orlando é que, antes de apaixonar-se por alguém, é fundamental amar a si mesmo, não através do egocentrismo, mas no sentido de olhar-se no espelho e gostar do que vê. A história do protagonista mostra que um amor pode sim preencher nossa vida, mas não podemos tratá-lo como fundamental para nossa felicidade. Por isso, o arco em torno do personagem, mesmo com algumas elipses demasiadamente bruscas, é perfeito em pontuar o amadurecimento de Orlando. Dividido em capítulos, o roteiro mostra com precisão como seus desejos mudaram com o decorrer de vida e a influência que cada um teve em seu amadurecimento.

Porém, ao mesmo tempo que o filme mostra o lado doce de cada paixão, como a satisfação da reciprocidade, também destaca as decepções de cada uma, como, por exemplo, a negação da amada, a falta de gentileza de um ídolo ou as guerras causadas pela política. No entanto, a cada revés que Orlando sofre, ele aproxima-se da plenitude enquanto indivíduo, adquirindo amor por si mesmo, como fica explícito na linda cena em que o personagem enxerga-se mulher pela primeira vez.

Além disso, poucos longas abordam com tanta sensibilidade temas como androginia, homossexualidade e bissexualidade, algo complementado pela atuação impecável de Tilda Swinton, construindo um personagem cheio de nuances. Durante sua trajetória, Orlando nasce homem e descobre-se mulher e Tilda perfeitamente apresenta um homem sensível e gentil na primeira metade, para tornar-se uma mulher decidida e feliz consigo mesma na parte final, em uma das grandes interpretações da carreira da atriz, reconhecida justamente por papéis que possibilitam essa ambiguidade.

Essas mudanças sofridas por Orlando são pontuadas brilhantemente pela direção de Sally Potter através de uma paleta de cores baseada em tons neutros no início e que, com o decorrer do amadurecimento do protagonista, ganha tons mais coloridos e diversificados. No que diz respeito aos enquadramentos, Potter opta por planos gerais médios e planos gerais, destacando não apenas os magníficos cenários e locações, como também ressalta o isolamento e solidão de Orlando. Baseado nisso, perceba como a diretora, após o personagem adquirir maior autoconhecimento, utiliza mais close-ups. Outro elemento técnico digno de elogios é o figurino, sendo rico em detalhes, perfeito em evocar a época e contribuindo para destacar a androginia de Orlando.

Ademais, o roteiro possui algumas quebras na quarta parede (quando o personagem olha diretamente para a tela) que aproximam a protagonista do público, permitindo que seu lado sensível fique evidente e, mais do que isso, tornando a desconstrução de padrões próxima de quem assiste, facilitando a compreensão sobre o tema, uma vez que fica explícito o que se passa na mente da personagem.

Pra completar, o lado fantasioso da obra também contribui com os temas debatidos. Quando vemos Orlando acordando pela manhã e se enxergando mulher, o momento representa como o descobrimento da sexualidade ou do gênero não é complexo, pelo contrário, é um momento belo, quem complica são os outros, algo exemplificado pela cena em que poetas criticam mulheres na frente da protagonista. Para completar, a imortalidade da personagem deixa claro como conceitos de masculinidade e feminilidade sofreram mudanças com o tempo e, justamente por isso, é absurdo exigir que alguém enquadre-se em um padrão, resultando em um final que remete diretamente ao início e fechando um arco impecável em torno de Orlando.

Além de entregar um ótimo filme, Sally Potter mostra que, por mais complexo que seja o material fonte, qualquer obra pode ser adaptada com competência para o cinema nas mãos de um bom diretor. Mais do que isso, Potter demonstra um imenso respeito pelo trabalho de Virginia Woolf, conseguindo transparecer na tela tudo aquilo que a autora transmitiu em Orlando.

Orlando (Idem) – Reino Unido, 1992
Direção: Sally Potter
Roteiro: Sally Potter (baseado na obra de Virginia Woolf)
Elenco: Tilda Swinton, Quentin Crisp, Jimmy Somerville, John Wood, John Bott, Elaine Banham, Billy Zane, Anna Farnworth, Sara Mair-Thomas, Anna Healy, Dudley Sutton, Simon Russell Beale, Matthew Sim, Charlotte Valandrey, Toby Stephens, Oleg Pogodin
Duração 93 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.