Crítica | Orphan Black – 1ª Temporada

estrelas 5,0

Obs: Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Seja com Troopers no universo Star Wars ou na ponte aérea Brasil-Marrocos que tanto se fazia presente em uma das mais aclamadas produções de Glória Perez, temáticas que envolvam clonagem sempre foram motivo de fascínio e inquietação em ficções de todos os cantos. A constância com que se torna pauta na mídia, que o situa em debates éticos e morais, bem como a massificação em diversas produções fílmicas, fez com que o assunto perdesse força e que as abordagens a seu respeito se tornassem cada vez mais rasas e vazias. O que parecia ser o início de um caminho sem volta ganha esperança e possibilidade de ressurreição. Eis que esse marasmo se rompe e o tema ganha uma nova vida em uma das mais eletrizantes produções da televisão canadense.

Concebida pelo diretor Jonh Fawcett (Xena: A Princesa Guerreira) e pelo roteirista Graeme Manson (Flashpoint), Orphan Black estreou em março do ano passado no Canadá e nos EUA pelos canais Space e BBC América, respectivamente. A trama tem início quando a protagonista Sarah Manning (Tatiana Maslany), ao desembarcar em uma estação de metrô encontra uma mulher idêntica a ela. Após olharem uma para a outra, a mulher pula da plataforma e comete suicídio. Sarah, buscando reconstruir sua vida e quitar suas dívidas para, assim, reconquistar a guarda da filha Kira (Skyler Wexler), rouba a bolsa da detetive Beth Childs, a suicida.

Os problemas começam quando Sarah resolve tomar a identidade de Beth para conseguir acesso à grande quantia em dinheiro que a detetive guardava em uma conta de banco. A possibilidade de recomeço que Sarah tanto queria viu-se comprometida e dificuldade em meio à grande teia que envolvia sua origem e sua vida. A partir daí, em um ritmo frenético, à medida que vai se embrenhando numa conspiração sem proporções, a protagonista descobre que não está só.

É neste ponto que Orphan Black conquista um dos maiores trunfos da televisão contemporânea. A atriz Tatiana Maslany não só dá vida à protagonista Sarah, mas também a um número incontável de “irmãs”. Dessa forma, a série nos apresenta a clones dos mais diversos perfis. Desde a neurótica dona de casa Alison, passando pela inteligentíssima cientista Cosima e chegando à instável/adorável/detestável/ Helena.

Maslany nos apresenta uma variedade performática que enche os olhos e põe abaixo qualquer incredulidade que se possa ter diante do que é proposto pela série. Não temos aí aquela velha dicotomia entra a gêmea má, ou a gêmea boa. Não há sentido em construir uma situação Ruth/Raquel enquanto é possível explorar o máximo da complexidade em diversas interações diferentes.

Orphan Black dá novas possibilidades a uma proposta que parecia, até então, esgotada. A série não só traz a tona questões de relevância ao debate público, como também tem um potencial de entretenimento muito elevado. É impossível terminar de assistir a um episódio da série e não ter vontade imediata de assistir ao outro. Por isso, recomendo aos assinantes da Netflix (onde a primeira temporada já se encontra disponível) que certifiquem-se quanto ao momento em que assistirá o episódio piloto. Assistam de preferência em um dia sem muitos compromissos, caso contrário é muito provável que os deixe de lado para embarcar um caminho tentador (este sim nos parece sem volta). O papo é reto: tratando-se de Orphan Black, quando se começa a assistir, não há escapatória, não há pausa, deve-se seguir em frente.

Poderia buscar alguns defeitos na série. Algumas pequenas negligências, que, se contornadas com um pouco mais de zelo, seriam rapidamente resolvidas. Poderia também detalhar um pouco mais o restante do time de atores que compõem o elenco. Acredito, todavia, que qualquer outro aspecto a ser analisado torna-se dispensável, para não dizer inútil, diante do elemento que mais se destaca na série. Orphan Black só o é devido ao genial talento da versátil atriz Tatiana Maslany. A série é muito bem construída. Tem um roteiro seguro e direções competentes, mas, sem Maslany, de nada isso valeria.

Orphan Black – 1ª Temporada (Canadá – 2013)
Showrunners: John Fawcett, Graeme Manson
Direção: John Fawcett, T.J. Scott, David Frazee, Ken Girotti, BrettSullivan, Grant Harvey, Helen Shaver
Roteiro: Graeme Manson e outros
Elenco: Tatiana Maslany, Dylan Bruce, Jordan Gavaris, Kevin Hanchard, Maria Doyle Kennedy, Skyler Wexler, Eveline Brochu, Kristian Bruun
Duração: 44 min/episódio.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.