Crítica | Orphan Black – 3ª Temporada

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estrelas 4

Obs: Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Orphan Black é uma daquelas “séries-armadilha” que prendem o espectador ao amontoar mistério em cima de mistério, resolvendo alguns em alguns momentos, mas criando vários outros logo em seguida. O crescendo de complexidade e de peças novas em um cada vez mais extenso quebra-cabeças ao mesmo tempo fascina e aflige o espectador que só tem um pensamento guiando-o: aonde é que tudo isso vai dar?

E, pelas estrelinhas que abrem a presente crítica, o leitor já deve ter percebido que essa característica da série não é necessariamente ruim. É bem verdade, porém, que uma análise verdadeiramente honesta só poderia ser feita ao final de toda a série, pois sua dependência em mistérios também significa que ela depende de sua resolução final e é importante que, mesmo que nem tudo seja explicado em seus mínimos detalhes, o final traga algo satisfatório e lógico, fugindo de saídas deus ex machina ou que pervertam completamente o que foi estabelecido antes. Portanto, ainda que a avaliação por temporada perdure e seja perfeitamente válida, pois a jornada também é elemento importante, um olhar para trás, ao final da 5ª e última temporada, será igualmente relevante.

Na 3ª temporada, os criadores e showrunners Graeme Manson e John Fawcett mais uma vez viram a mesa dos conceitos desse mundo onde vive Sarah Manning e suas irmãs clones e introduzem os clones masculinos do projeto CASTOR, controlados pelos militares e todos parecidos com Mark (Ari Millen), que é a grande revelação ao final da temporada anterior e que serve de fio condutor para a linha narrativa adotada aqui. Com isso, estabelece-se uma espécie de corrida atrás de uma cura para a degeneração neurológica que aflige os clones masculinos, algo que funciona como uma versão da doença respiratória de Cosima, ambas frutos de clonagens imperfeitas, feitas sem a matriz genética.

Como de costume, os roteiros são frenéticos e não dão tempo para o espectador respirar ou mesmo pensar muito. Pequenas revelações acontecem praticamente a cada episódio, duas novas clones femininas (ok, não exatamente feminina em um dos casos…) são apresentadas e abordadas ainda que brevemente e a estrutura de base militar desértica do projeto CASTOR é adicionada aos cenários fixos da série, já que Helena fica presa por lá algum tempo, gerando várias das melhores e mais tensas sequências da temporada. Além disso, ainda que ainda haja muita coisa para ser esclarecida, é possível pelo menos começar a entrever um final para a saga dos clones, mesmo que, obviamente, detalhes do que vai ainda acontecer sejam impossíveis de discernir.

Nesta temporada, porém, diferentemente das duas anteriores, é possível perceber alguns atalhos narrativos e uma certa “barriguinha”. Os atalhos, que são a “eliminação” de Kira e de seu pai da história, transportando-os para a Islândia e a drástica redução da participação do detetive Art Bell, que realmente fica sem ter o que fazer, incomodaram um pouco. Claro que, com a crescente complexidade da trama e a inserção de novos personagens e novas situações, o inchaço do elenco se faz sentir e alguns cortes teriam que ser feitos uma hora ou outra. No entanto, as saídas do roteiro para tirar Kira e Art do centro da história pareceram-me apressadas e convenientes demais. Além disso, a narrativa quase paralela que lida com a vida suburbana de Allison e Donnie Hendrix e o envolvimento dos dois com o tráfico de drogas para levantar dinheiro para a campanha de Allison para ser a nova representante local na escola de seus filhos é detalhada e extensa demais, ainda que funcione quase sempre como alívio cômico bizarro. Sua integração com o restante da trama é frágil e também cômoda e coincidente demais, o que acaba tornando alguns episódios mais “longos” do que outros por mais adorável que seja ver Maslany como uma soccer mom brincando de Breaking Bad com seu marido Donnie…

Mas, independente de qualquer outra consideração, o grande destaque, sem sombra de dúvida, é Tatiana Maslany. Falar sobre ela é chover no molhado, mas seria absolutamente injusto não abordar seu trabalho a cada vez que Orphan Black é analisada. Se Sarah Manning é a versão mais “padrão” e “clichê” dos clones femininos, ela não deixa de ser menos interessante mesmo considerando que sua função principal é de condutora da história e não muito mais do que isso. Maslany brilha mesmo é nas variações de Manning, por assim dizer. Sua transformação em Allison chega a ser assustadora, o mesmo valendo para a composição perfeita da cientista lésbica Cosima, talvez a clone com mais nuances de todas. Helena, lógico, é o Diabo da Tasmânia em pessoa: uma analista tática e assassina fria capaz de momentos absolutamente desconcertantes em que demonstra sua capacidade retorcida de amar suas irmãs, resultando em uma personagem fascinante e cativante. Rachel, com seu tom vilanesco, ganha outras camadas com os desenvolvimentos nesta temporada, algo que Maslany opera como uma verdadeira mestre. E isso sem contar com as duas novas clones que ela cria aqui, uma delas uma sensacional “loira burra” que é tão contrária aos personagens mais sérios que vive, que é impossível não rir quando ela entra em cena.

No entanto, talvez o mais impressionante seja ver as situações em que a atriz vive ao mesmo tempo duas personagens. E não falo ao mesmo tempo diante das câmeras com truques de filmagem, mas sim no mesmo corpo quando, por exemplo, Maslany vive Sarah vivendo Rachel ou quando vive Cosima vivendo Allison. A atriz é camaleônica nessas situações, mantendo traços da personagem que finge ser a segunda personagem, mas permitindo que os traços dominantes da segunda personagem tomem conta da primeira (entenderam?). É até difícil colocar em palavras o que ela faz quando, com uma mera touca e um simples casaco, transforma a enlouquecida Helena na certinha Allison por alguns hilários e sanguinolentos minutos.

Mesmo com alguns probleminhas, Orphan Black segue solidamente como uma grande “série-armadilha”. Se o fim não chegar aos pés da jornada, mesmo assim ela terá valido a pena. Pelo menos é isso que prova esta 3ª fascinante temporada.

Orphan Black – 3ª Temporada (EUA – 18 de abril a 20 de junho de 2015)
Showrunners: John Fawcett, Graeme Manson
Direção: David Frazee, John Fawcett, Chris Grismer, Helen Shaver, Ken Girotti, Aaron Morton, Vincenzo Natali
Roteiro: Graeme Manson, Aubrey Nealon, Chris Roberts, Russ Cochrane, Alex Levine, Sherry White
Elenco: Tatiana Maslany, Jordan Gavaris, Kristian Bruun, Maria Doyle Kennedy, Kevin Hanchard, Évelyne Brochu, Dylan Bruce, Ari Millen, Skyler Wexler
Duração: 44 min. (por episódio – 10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.