Crítica | Orphan Black – 5X06: Manacled Slim Wrists

estrelas 3
– Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Está cada vez mais claro que a última temporada de Orphan Black tem pelo menos dois problemas mais salientes: personagens demais e uma narrativa claudicante. A solução para a primeira questão tem sido pior do que o problema em si. Fawcett e Manson, os showrunners, têm inexplicavelmente limado diversos personagens importantes da narrativa, como as clones Helena e Alison, além de Felix e Delphine. Eles ainda são mencionados aqui e ali, mas suas aparições em carne e osso tem sido no máximo esporádicas. A questão da narrativa é ainda mais complicada, pois há um claro problema de compasso entre cada episódio.

E esse segundo aspecto fica evidente em Manacled Slim Wrists, que continua um pouco depois do ponto em que Cosima foi presa no porão de Westmoreland, ao final de Ease for Idle Millionaires. Diferente do que vinha sendo construído nos últimos dois capítulos, o novo episódio corre para solucionar o cárcere da biogeneticista, trazer Virginia Coady das sombras e colocá-la em oposição à Susan, catalisar a morte de Susan depois de ela mesmo tentar matar Westmoreland e, de brinde, ainda acelera os problemas neurológicos de Ira, o último clone CASTOR e amante de Susan.

Em outras palavras, o que poderia ter sido melhor distribuído ao longo de alguns episódios, foi comprimido em um só e isso tudo em meio à revelação definitiva que Westmoreland não é quem diz ser (o que torna grande parte da investigação secreta de Siobhan inútil) e a revolta em Revival que isso ocasiona. É como ver uma temporada toda – ou metade ao menos – em apenas 42 minutos, em um roteiro que até consegue ser eficiente em sua proposta, mas que, quando visto dentro do conjunto da obra, está evidentemente fora do ritmo estabelecido.

No continente, a história não melhora muito, pois, mesmo com a volta da hilária clone “loira burra” Krystal mais uma vez atirando no que vê e acertando no que não vê, pouco aprendemos além de um vetor epidérmico para a grande experiência de Rachel e Westmoreland a partir do material genético de Kira. Aliás, diria, sem muito medo de errar, que a presença de Krystal se justifica única e exclusivamente para permitir que o episódio alcance o tempo regulamentar, pois a informação obtida poderia chegar às mãos de Siobhan de várias outras maneiras, especialmente considerando que a investigação de Felix na Suíça acontece completa e ridiculamente off screen, o que permite qualquer tipo de desenvolvimento sem que seja gasto um centavo do orçamento.

Mas ver Tatiana Maslany como Krystal mais uma vez é muito divertido e vê-la como Sarah imitando Krystal é ainda melhor, lembrando-nos o quanto a atriz impressiona constantemente em seus múltiplo papéis, emprestando total independência a cada clone que constrói. No entanto, infelizmente, isso não é suficiente para tornar a temporada mais do que uma enrolação de qualidade atrás de outra enrolação de qualidade para provavelmente chegarmos aos três ou quatro episódios finais a toque de caixa, com Sarah possivelmente retomando a seu papel de liderança e levando todas as clones – que, tenho certeza, aparecerão em pelo menos uma sequência só, inclusive a clone transgênero que nunca mais deus as caras – para o embate final contra a Dyad e os neolucionistas.

Outro ponto que me incomoda é esse mistério sobre quem é Westmoreland na verdade. E a razão é simples: o que a revelação de que ele é outra pessoa muda os acontecimentos da série? Tudo será revelado como uma mentira? Pouco provável, pois os clones LEDA e CASTOR efetivamente existem e isso basta para impedir que uma revelação bombástica desmantele as premissas da série. Ou será que ele é alguém que já conhecemos? Outra improbabilidade se os showrunners quiserem manter algum traço de verossimilhança em sua obra. Portanto, o mistério artificialmente construído sobre P.T. e agora desconstruído parece ter servido unicamente para eliminar a ilha do cenário e possivelmente transpor toda a ação de volta ao continente. Se for isso mesmo, como desconfio que é, será como se metade desta temporada tivesse sido um gigantesco filler.

Posso estar parecendo amargo demais na presente crítica, mas é que Orphan Black merecia mais. A série vinha se mantendo muito bem ao longo de suas quatro primeiras temporadas, mesmo que com problemas aqui e ali. Mas, agora, chegando ao final, ela parece deixar às escâncaras que não havia um plano muito bem desenvolvido para mais esse passo e que tudo poderia ter acabado já na quarta temporada. Só nos resta esperar que os quatro episódios finais façam a série voltar à sua qualidade original, ainda que eu ache difícil que isso aconteça…

Orphan Black – 5X06: Manacled Slim Wrists (Canadá – 15 de julho de 2017)
Showrunners: John Fawcett, Graeme Manson
Direção: Grant Harvey
Roteiro: David Bezmozgis
Elenco: Tatiana Maslany, Jordan Gavaris, Kristian Bruun, Maria Doyle Kennedy, Kevin Hanchard, Josh Vokey, Dylan Bruce, Ari Millen, Skyler Wexler, Rosemary Dunsmore, Cynthia Galant, James Frain, Jessalyn Wanlim, Évelyne Brochu, Gord Rand, Lauren Hammersley, Stephen McHattie, Kyra Harper
Duração: 42 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.