Crítica | Orphan Black – 5X07: Gag or Throttle

estrelas 4
– Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Depois do bom, mas desapontador Manacled Slim Wrists, Orphan Black volta à sua velha forma com Gag or Throttle, que é focado em Rachel reconciliando-se consigo mesma e encontrando redenção. Confesso que já estava desesperançoso com esse final da série, mas é possível que, agora, nesses últimos momentos, a temporada traga um fim digno à saga dos clones.

Usando eficientemente flashbacks, o que é uma marca da série, o roteiro de Renée St. Cyr gira constantemente em torno da vilã, revolvendo seu passado remoto como uma jovem clone consciente de sua condição, sendo criada como uma cobaia de testes clínicos por uma empresa e tendo como figura paterna o Dr. Leekie e também seu passado recente, mais especificamente seu primeiro contato com P.T. Westmoreland, no primeiro episódio da temporada, cujos detalhes só agora passamos a conhecer. Com esses artifícios, somos brindados com um quadro completo sobre Rachel. Sua frieza é fruto da forma como ela foi criada, mas também do desejo de perseguir, a todo custo, uma cura para o mal genético que aflige os clones LEDA. Acima de tudo, porém, Rachel almeja a liberdade, ser uma mulher independente de verdade, que escolhe trabalhar na Dyad e não alguém que não tem outra opção que não trabalhar lá. Quando vemos Westmoreland dar sua alforria jurídica finalmente, entendemos seus desejos mais próximos de seu coração de pedra.

Mas, ao mesmo tempo, Rachel descobre que ela, mais do que nunca, não é muito mais do que um peão no vasto tabuleiro neolucionista controlado por um Westmoreland cada vez mais sinistro. Seu jogo é complexo e depende de muito fingimento, especialmente sua verdadeira identidade que ele guarda a sete chaves, mas que Cosima finalmente desencava em sua breve aparição no episódio depois de sua fuga desesperada da ilha com sua irmã mais nova. Rachel é, literalmente, os olhos de Westmoreland no continente e isso a destrói por dentro, já que ela descobre que viveu uma vida de mentiras, mesmo sempre tendo conhecimento de que é uma clone. De certa forma, em comparação com as demais clones LEDA que eram constante, mas secretamente vigiadas por monitores, Rachel é ainda mais prisioneira, com ainda menos opções. E foi assim durante toda sua vida. O olho cibernético que a mantém sob a vigilância atenta de Westmoreland é, apenas, a gota d’água nessa história toda.

Com isso, Rachel caminha de maneira certeira e rápida para sua redenção, salvando Kira de um destino que ela bem conhece e que viveu a vida toda e viu outros viverem e morrerem no cruel processo de Westmoreland, Virginia Coady e a finada Susan Duncan. Ao libertar Kira, Rachel se liberta e o excruciante e quase impossível de se assistir final em que ela arranca seu olho orwelliano parece ser seu ápice, seu grito – urro, no caso – de verdadeira liberdade, mesmo que isso signifique seu cárcere ou até sua morte pelas mãos dos minions de seu “pai”.

No entanto, toda essa construção aparentemente perfeita sofre de um problema sistêmico que é característico dessa temporada, que tem sido mal gerenciada pelos showrunners: todo esse movimento de queda e redenção de Rachel é mais um espasmo de ação, sem que tenha havido o polvilhamento dessa sua catarse ao longo da temporada. No primeiro episódio, nós a vemos como a líder da Dyad e essa condição não é alterada ao longo dos capítulos seguintes e, agora, Gag or Throttle sozinho faz tudo o que deveria ter acontecido de maneira mais homogênea e homeopático ao longo da temporada. A velocidade meteórica em que ela descobre sua condição ainda de propriedade da empresa e decide, depois de várias doses de vodka, trair tudo aquilo em que sempre acreditou simplesmente não desce e não obedece a lógica interna da série. Rachel foi construída como uma vilã fria, calculista e mortal. No intervalo de um ou dois dias, porém, ela muda de ideia e decide que, na verdade, ela está do lado de suas irmãs. Hummm, conveniente demais, fácil demais.

E isso não é culpa do roteiro deste episódio sob comento e sim dos showrunners que se perderam na temporada e fizeram a série boiar à deriva como a lancha de Cosima. Se Rachel fosse aos poucos descobrindo sobre sua condição e vagarosamente tomando medidas para reverter a situação – não necessariamente libertando Kira, vejam bem! -, sua traição seria muito mais crível, muito mais aceitável.

Além disso, a conveniente volta de Mark, Gracie, Helena e até de Alison, esta com novo corte e cor de cabelo, além de tatuagem, tumultuam o episódio e quebram a imersão no drama de Rachel. Sim, os retornos desses personagens eram inevitáveis, mas, novamente, talvez não todos de uma vez e certamente não em meio a uma narrativa tão séria e compenetrada.

Visto separadamente, Gag or Throttle é um excelente episódio, certamente o ponto alto da temporada até agora, o que justifica as quatro estrelas da presente avaliação. No entanto, como parte de algo maior e bem mais complexo, o episódio deixa às escâncaras as oportunidades perdidas por John Fawcett e Graeme Manson ao longo desse final.

Orphan Black – 5X07: Gag or Throttle (Canadá – 22 de julho de 2017)
Showrunners: John Fawcett, Graeme Manson
Direção: David Frazee
Roteiro: Renée St. Cyr
Elenco: Tatiana Maslany, Jordan Gavaris, Kristian Bruun, Maria Doyle Kennedy, Kevin Hanchard, Josh Vokey, Dylan Bruce, Ari Millen, Skyler Wexler, Rosemary Dunsmore, Cynthia Galant, James Frain, Jessalyn Wanlim, Évelyne Brochu, Gord Rand, Lauren Hammersley, Stephen McHattie, Kyra Harper
Duração: 42 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.