Crítica | Orphan Black – 5X08: Guillotines Decide

estrelas 4,5
– Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Por melhor que Guillotines Decide seja – e é realmente um excelente episódio! – o problema da temporada que venho salientando há tempos persiste. Os showrunners não parecem ter material suficiente para os 10 episódios regulamentares e esticaram demais a trama, tendo que trabalhar na base de espasmos nessa reta final. Gag or Throttle lidava, em 42 minutos, com material que poderia muito bem ter sido enxertado cirurgicamente ao longo dos episódios anteriores e, agora, o oitavo episódio continua a corrida.

A grande diferença, aqui, além do fim da melhor personagem não clone da série (que abordarei mais adiante, podem ter certeza), é a beleza estética do capítulo, muito provavelmente cortesia de Aaron Morton, que é primordialmente diretor de fotografia, tendo trabalhado ao longo das temporadas de Orphan Black nessa capacidade, além de ter em seu currículo, também como tal, as séries Spartacus e Spartacus: Deuses da Arena e a refilmagem de A Morte do Demônio, de 2013. O cuidado nas sequências no quarto de hotel para onde Rachel é levada por Ferdinand, com o preciso uso de cores fortes e enorme profundidade de campo parece algo saído de uma obra de David Lynch. E o mesmo vale para a fotografia clara e vibrante, mas com uma tonalidade de certa forma entristecida, que marca as frenéticas sequências na exposição de arte de Felix, quase como se Baz Luhrmann estivesse por trás das câmeras.

Com isso, Morton cria a atmosfera perfeita para o episódio. Afinal, o roteiro de Aisha Porter-Christie e Graeme Manson se fia na dúvida e no mistério. Qual afinal é o misterioso plano de Siobhan e Delphine? Qual será o destino de Helena, agora que Gracie descobriu seu paradeiro? E, quando a primeira pergunta é respondida, o suspense é mantido na linha do “é bom demais para ser verdade”.

Toda aquela vagarosa construção familiar na exposição de Felix funciona de maneira magnífica para pontuar o que é essa série, congregando todos os principais personagens em um só ambiente, incluindo três clones em sistema de revezamento muito bem inserido no contexto. A felicidade contagiante do artista e aquele discurso sobre nurture versus nature que tão bem encapsula o espírito de Orphan Black, com direito a Siobhan, Sarah e Adele no palco é, para qualquer um que conhece a série – ou qualquer série, diria – um momento para se temer, algo que diz, com todas as letras, que alguma coisa muito errada acontecerá.

Paralelo a tudo isso, vemos a complexa relação sadomasoquista entre Rachel e Ferdinand chegando ao seu ponto máximo, com o roteiro mantendo a dúvida (mais uma!) sobre a redenção da ex-vilã até o último momento, quando ela entrega seu amante aos lobos e o pen drive com as provas incriminadores da Dyad para Siobhan. É, para todos os efeitos, um bom fim para Rachel, ainda que eu desconfie que ela aparecerá novamente.

O grande momento, então, é o confronto entre Ferdinand e Siobhan, algo que Morton lida com a elegância, respeito e solenidade que o momento exige. Uma grande heroína e um grande vilão se vão no melhor estilo faroeste, depois que a maternidade da Sra. S é tão festejada por Felix em seu momento de glória. Foi, sem dúvida alguma, um belo adeus para essa fascinante e misteriosa personagem.

No lado de Helena, o óbvio ululante acontece e, com Gracie morta e a clone albina e seus bebês nascituros capturados, o fiapo narrativo dos dois episódios finais aparece. É muito provável – mas espero que não – que a tragédia de Siobhan seja até esquecida em prol do resgate de Helena por todas as clones remanescentes, talvez até mesmo outras que pouco vimos ao longo da série em um desfecho explosivo, mas potencialmente previsível. É de se esperar que os showrunners tenham mais do que apenas o sequestro de Helena para mostrar nos derradeiros momentos desta ótima ficção científica.

Entretanto, voltando ao começo, toda essa belíssima progressão de Guillotines Decide só é apreciável verdadeiramente se perdoarmos os atalhos que John Fawcett e Graeme Manson tomam aqui – como no episódio anterior – com a repentina volta de Felix e Delphine da Suíça depois de uma investigação que nunca vemos. E não só isso, pois Felix volta para sua exposição de arte que magicamente toma forma literalmente do nada, sem que ela tenha recebido sequer uma breve menção antes, preparando-nos para o evento. Além disso, ainda que a volta de Ferdinand seja explicada pelo roteiro, seu surgimento na Dyad no momento exato para salvar Rachel é conveniente demais, como se ele tivesse montado acampamento no restaurante 24 horas mais próximo do prédio e com um cirurgião a tira-colo. E, claro, o “desaparecimento” conveniente de Kira da trama é de rolar os olhos, além da inexistente tentativa de Siobhan e Sarah de esconderem a menina da Dyad depois dos acontecimentos do episódio anterior.

Esses problemas, claro, são decorrentes do descompasso da temporada como um todo, alvo de uma trama lenta que, a cada episódio, andava quase lateralmente, exigindo a correria que agora estamos vendo no final. Mas perdoar os problemas estruturais diante de um episódio como Guillotines Decide é quase uma obrigação pela qualidade do que é colocado na telinha. Trata-se do tipo de episódio que a série merece e que precisa ditar a tônica de seu final.

Orphan Black – 5X08: Guillotines Decide (Canadá – 29 de julho de 2017)
Showrunners: John Fawcett, Graeme Manson
Direção: Aaron Morton
Roteiro: Aisha Porter-Christie, Graeme Manson
Elenco: Tatiana Maslany, Jordan Gavaris, Kristian Bruun, Maria Doyle Kennedy, Kevin Hanchard, Josh Vokey, Dylan Bruce, Ari Millen, Skyler Wexler, Rosemary Dunsmore, Cynthia Galant, James Frain, Jessalyn Wanlim, Évelyne Brochu, Gord Rand, Lauren Hammersley, Stephen McHattie, Kyra Harper
Duração: 42 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.