Crítica | Orphan Black – 5X09: One Fettered Slave

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estrelas 5,0
– Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Tensão. Dúvida. Equilíbrio.

Essas foram as três palavras que ficaram em minha mente quando mais esse excepcional episódio de Orphan Black, nessa estirada final, acabou. Se em Guillotines Decide a estrutura narrativa nos fazia esperar o trágico, mas honrado fim de Siobhan, a melhor personagem não-clone da série, em One Fettered Slave o roteiro de Alex Levine (que nos trouxe Beneath Her Heart um bom e ao mesmo tempo perdido episódio desta temporada) brinca com nossas expectativas e com o que a série nos permite temer.

Afinal, considerando que estamos em seus estertores, simplesmente qualquer solução para o rapto de Helena era possível, incluindo – e talvez especialmente – sua morte, mesmo por suicídio, uma solução final que pode parecer fora de questão em razão de seu passado religioso, mas que é muito claramente sua forma extrema de proteger sua prole de um destino semelhante ao que ela teve e ao que ela sabe que outras crianças tiveram na mão dos neolucionistas. Temos que lembrar, também, que, por mais trágica que a personagem seja, por mais simpática a nós ela tenha se tornado desde que apareceu pela primeira vez como uma fria e enlouquecida assassina que se auto-flagelava, Helena é responsável pela morte de diversas clones LEDA. Seu passado definitivamente a condena e uma saída da ordem sugerida por longos momentos no episódio seria dolorosa para nós, mas certamente longe de impensável.

Portanto, a tensão do episódio está intimamente ligada com o destino de Helena, destino esse que oscila várias vezes entre o “agora ela foge” e “ih, não vai dar mais” em uma excelente gangorra amplificada por um trabalho de direção de David Frazee (do ótimo Gag or Throttle) que mantém uma estrutura centrada em Helena, salpicando as narrativas paralelas de forma a fazê-las organicamente convergir para um mesmo ponto, por intermédio de pistas visuais e do uso quase que exclusivo de personagens não-clones como Felix, Art e Scott. De certa forma, é como ver um frenético filme de ação condensado em apenas pouco mais de 40 minutos, o que é uma arte em si mesma.

Mas essa tensão não se restringe a Helena. Art é muito bem trabalhado aqui, de certa forma compensando seu quase completo subaproveitamento ao longo de toda a temporada. Sempre ao lado de Sarah, vê-lo agindo sozinho e de maneira tão decisiva – e potencialmente traumatizante para ele – foi uma ótima forma de mostrar o potencial de Kevin Hanchard e de integrá-lo de forma lógica à narrativa do episódio e do encerramento da série. Mais do que nunca, Arthur “Art” Bell faz parte do Clube das Clones.

A dúvida é parte da construção da tensão. Por toda duração do episódio, ela permanece no ar sobre cada um dos personagens. Em um primeiro momento, é desapontador ver Sarah ficar “no banco”, mas, por outro, faz sentido ela finalmente pisar firme e tomar o lugar de Mrs. S, permanecendo ao lado de Kira e no controle geral da situação. Quando ela finalmente entra em ação, o roteiro não esconde de nós que ela está fazendo as vezes de Rachel, pois esse truque já fora usado muitas vezes e ele seria ineficaz para os espectadores. Mas a dúvida permanece sobre Helena. Se ela sobreviverá ou não, se seus bebês sobreviverão ou não. A presença sinistra de Westmoreland e principalmente de Virginia Coady, completamente sob o encantamento de seu mestre, o que a leva a matar Mark com apenas um pouco de hesitação em um angustiante momento, serve para nos avisar que tudo pode acontecer. Até o próprio Art, mesmo depois de despachar o capanga de Westmoreland, ainda poderia perecer diante da normalmente muito eficiente Enger.

Mas o que mais chamou atenção ao longo de One Fettered Slave é o quanto o episódio consegue equilibrar ação e luto pela morte de Mrs. S. Em minha crítica anterior, mencionei que receava que esse momento fosse esquecido na série diante do rapto de Helena e de só haver mais dois episódios para encerrar a série. Mas, muito ao contrário, o capítulo faz uma bela homenagem à personagem, começando com seu enterro e a leitura de sua carta por Felix, além dos comentários paralelos de Cosima e Alison conversando pelo computador. E, como mencionei, quando Sarah decide ficar na reserva, ela efetivamente calça os sapatos de Siobhan e assume o comando da “operação em um belo momento de reconhecimento da importância de sua mãe em toda sua vida. E essa presença de Mrs. S permanece uma constante ao longo de toda a progressão narrativa, mesmo quando a ação está perfeitamente engrenada. Aliás, mais do que isso, o que os personagens fazem é, claro, para salvar Helena, mas, mais do que isso, é para preservar a memória de tudo que S representou para todos eles. Isso fica claro nos semblantes e diálogos de Art e Scott, o primeiro mergulhando a fundo na trama e o segundo recusando-se até o último segundo a abandonar o barco, tendo cumprido sua função.

Se a temporada final de Orphan Black começou claudicante, tudo indica que seu final compensará os problemas detectados até bem depois de sua metade e trará redenção para as clones e, claro, uma nova geração representada pelos bebês de Helena. One Fettered Slave foi mais um grande acerto de John Fawcett e Graeme Manson!

Orphan Black – 5X09: One Fettered Slave (Canadá – 05 de agosto de 2017)
Showrunners: John Fawcett, Graeme Manson
Direção: David Frazee
Roteiro: Alex Levine
Elenco: Tatiana Maslany, Jordan Gavaris, Kristian Bruun, Maria Doyle Kennedy, Kevin Hanchard, Josh Vokey, Dylan Bruce, Ari Millen, Skyler Wexler, Rosemary Dunsmore, Cynthia Galant, James Frain, Jessalyn Wanlim, Évelyne Brochu, Gord Rand, Lauren Hammersley, Stephen McHattie, Kyra Harper, Elyse Levesque
Duração: 41 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.