Crítica | Orphan Black – 5X10: To Right the Wrongs of Many

episódio:

estrelas 5,0

temporada:

estrelas 4

série:

estrelas 4

– Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

É simplesmente impossível fazer a crítica de To Right the Wrongs of Many, episódio final de Orphan Black depois de cinco temporadas, sem analisar, ainda que brevemente, a trajetória da criação de John Fawcett e Graeme Manson desde seu começo. Afinal, se pararmos realmente para pensar, o encerramento é, talvez, o perfeito encapsulamento da essência da série, algo que de certa forma se perdeu em algumas temporadas e que, nesta última, demorou a engrenar.

Se voltarmos lá para a primeira temporada, no já longínquo ano de 2013, lembraremos que Orphan Black começou simples, usando como base a clonagem para fazer um fascinante estudo de personagens, todas vividas maravilhosamente bem pela mais do que flexível Tatiana Maslany inserida em contexto misterioso de ficção científica, mas bastante terreno e próximo do dia-a-dia. Enquanto a série manteve-se assim, foi um acerto atrás do outro, com fascinantes surpresas a cada virada de esquina, em uma estrutura clássica de hierarquia de vilania, quase que como um videogame em que, a cada fase ultrapassada, outra mais difícil e com um chefe diferente aparecia e tinha que ser vencido.

Na medida em que os showrunners ganharam confiança, uma espécie de síndrome aguda de megalomania começou a se abater sobre a produção, com linhas narrativas paralelas – novos clones, novos personagens não clones que nunca eram o que pareciam ser, religiões malucas e assim por diante – e o aumento da complicação científica que chegaram ao ponto de ameaçar desfocar um pouco o caminho que estava sendo trilhado. O receio era que o amontoamento de mistérios não levaria à uma resolução razoável para uma série que pedia algo nessa linha e não um final transcendental e aberto como uma tal série que se passava em uma ilha. O que, porém, manteve a série nos trilhos foi Maslany e suas personagens, além de cada vez mais inesquecíveis coadjuvantes, especialmente Maria Doyle Kennedy como Siobhan, Jordan Gavaris como Felix e Kevin Hanchard como Art.

Quando começou a haver o encaminhamento para o final, já na quarta temporada que lutou para acertar os problemas da série, o final boss foi apresentado e muitos reclamaram que ele era um vilão aleatório, tirado da cartola. Mas a grande verdade é que P.T. Westmoreland – depois revelado apenas como um cara normal obcecado em estender sua vida – é tão aleatório e tirado da cartola quanto todos os demais. Claro, alguns ganhar ótimo desenvolvimento e outros não. Westmoreland permaneceu, ao longo de toda a temporada final, como uma criatura mítica, por assim dizer, um ser acima do certo e do errado, de difícil leitura e com razoavelmente pouca profundidade.

Arrisco a dizer, porém, que o tratamento dado a ele por Fawcett e Manson foi um dos maiores acertos de uma temporada final claudicante e que, em sua primeira metade, mostrou-se quase sem desenvolvimento narrativo efetivo. Ao transformar Westmoreland de um deus em um ser humano normal (monstruoso, mas normal em todos os demais sentidos), eles equalizaram o desafio final à humanidade que marcou tão fortemente a série desde o começo. Algo mais do que isso seria – aí sim! – um desvio completo do propósito da obra, que é discutir a moralidade e a ética do Homem diante da evolução. Se Westmoreland fosse um übermensch, toda a correção de rumo que os showrunners empreenderam iria por água abaixo.

E isso me traz, finalmente, a To Right the Wrongs of Many. O roteiro de Renée St. Cyr e Graeme Manson divide o episódio muito claramente em dois momentos: o encerramento da ação envolvendo o sequestro de Helena e o dénouement sobre a normalização da vida das clones. Em uma série ou filme comum, a primeira parte ganharia os holofotes e a segunda apenas alguns apressados minutos antecedendo a tela preta e os créditos.

Aqui, St. Cyr e Manson brilhantemente invertem a lógica e o que se espera de uma obra dessa natureza. E com isso, eles conseguem um resultado que respeita tudo o que veio antes, retornando a série às suas raízes.

A resolução do sequestro de Helena é, portanto, muito rápido, quase abrupto, mas completamente satisfatório. As duas irmãs – as únicas clones efetivamente irmãs, vale lembrar – têm excelentes momentos juntas que são paralelizados com lampejos para o passado em que vemos Siobhan (o último episódio da série simplesmente tinha que ter a presença dela!) ajudando Sarah em sua gravidez de Kira, começando por sua dúvida em manter ou não o bebê. Depois de tudo que Helena passou no episódio passado, era razoavelmente intuitivo que tudo acabaria bem para ela e seus filhos, mas o roteiro amplifica o drama do momento criando essas conexões entre irmãs, entre mãe e filha e entre elas e Art ao ponto de emocionar mesmo o espectador mais durão.

A ação em si, fica restrita primordialmente ao embate entre Helena e Virginia Coady e entre Sarah e Westmoreland. As duas sequências prezam pela simplicidade. Helena faz seu usual jogo de aparências com Art, usando os bebês para atrair Virginia para a morte certa e Sarah, com um tiro que acerta o alvo por pura sorte, acaba com as pretensões do chefão, já desesperado e insano. Sabem quando dizem que algo é “simples e eficiente”? Pois é o que melhor descreve esses momentos que fecham muito bem o lado confrontativo do episódio e toda a trama de experiências científicas magnificamente terríveis. As criaturas se viraram e derrotaram seus criadores. Justiça poética da mais clássica.

Mas, como mencionei, a escolha do roteiro em focar no que vem depois é que é inusitada e bem-vinda. Sem inimigos, sem paranoia, sem ameaças, vemos as clones se adaptando a uma vida que nunca tiveram ou que, pelo menos, há muito tempo não tinham. Helena parece ser uma mãe natural, apesar – ou talvez em razão – de seu passado de extrema violência. Seus bebês – roxo e laranja – são o centro das atenções em um chá de bebê na casa que, agora, Alison e Donnie compartilham com ela, que mora na garagem que uma vez foi palco para o enterro de cadáveres. Alison – ou a nova Alison – vive novamente em harmonia com seu marido e filhos, deixando a vida louca para trás. Cosima, finalmente curada do mal que lhe afligia, parece estar muito feliz ao lado de Delphine, por sua vez também radiante. Felix é um sucesso com sua art. Art, por sua vez, parece recuperado do trauma por que passou. Até mesmo Rachel tem seu momento final de redenção melancolicamente entregando a lista completa de clones LEDA para Felix.

Só Sarah é que luta para se encontrar. Duvidando de si mesma como mãe como sempre duvidou, ela tenta seguir em uma direção segura para sua filha, estudando para dar mais chances a ela. Mas sua natureza rebelde fala mais alto e suas perdas a levam para um lugar perigoso, para uma tentativa de deixar tudo para trás mais uma vez. Se pensarmos bem, foi Beth que salvou Sarah ao se matar, pois, assim, ela encontrou sua família, seu grupo. E, agora, quase revertendo a um status pré-Beth, Sarah mais uma vez encontra socorro, consolo e energia com sua nova e ampliada família, cada uma das clones deixando muito claro sua importância para Kira e para todas ali. É um momento que não só é tecnicamente sensacional – raras foram as vezes que vimos tantas clones em uma tomada só – como resume muito bem o que a série majoritariamente foi: uma grande ode à família, seja ela da natureza que for.

Com isso, Orphan Black termina exatamente da maneira como deveria acabar, olhando para trás e para seu começo, refletindo a evolução das clones e de todos ao redor delas. Um final anticlimático? Talvez. Mas a vida como ela é não é feita de fases de videogame que acabam em explosões fulgurantes, mas sim de obstáculos humanos e terrenos que têm que ser enfrentados na medida em que eles aparecem, com cada vitória e cada derrota funcionando para tornar a experiência de viver ainda mais completa e plena. Orphan Black, ao olhar para trás, acaba traçando um futuro positivo, seja ele qual for.

Orphan Black – 5X10: To Right the Wrongs of Many (Canadá – 12 de agosto de 2017)
Showrunners: John Fawcett, Graeme Manson
Direção: John Fawcett
Roteiro: Renée St. Cyr, Graeme Manson
Elenco: Tatiana Maslany, Jordan Gavaris, Kristian Bruun, Maria Doyle Kennedy, Kevin Hanchard, Josh Vokey, Dylan Bruce, Ari Millen, Skyler Wexler, Rosemary Dunsmore, Cynthia Galant, James Frain, Jessalyn Wanlim, Évelyne Brochu, Gord Rand, Lauren Hammersley, Stephen McHattie, Kyra Harper, Elyse Levesque
Duração: 46 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.