Crítica | Os 13 Porquês, de Jay Asher

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estrelas 2,5

Assunto polêmico desde sua estreia, a série original da Netflix 13 Reasons Why dividiu opiniões e inundou a internet. Críticas contrárias e favoráveis apresentavam bons argumentos de ambos os lados, aumentando ainda mais o interesse pela história e, claro, seu sucesso comercial. A premissa da jovem que cometera suicídio deixando gravadas fitas acusatórias a seus supostos carrascos ganhou fãs fervorosos e haters idem, gerando um debate que acabou eventualmente perdendo de foco pontos importantes da narrativa concebida por Jay Asher.

Os 13 Porquês foi publicado no Brasil em 2009, mas nunca havia gerado tamanha repercussão – embora, de fato, não a merecesse. O tratamento de questões como suicídio, assédio e estupro dão a entender que se trata de um livro forte, mas necessário – e escondem que, na verdade, o romance juvenil de Jay Asher é bem medíocre. Pior: considerando que é dirigido a adolescentes, pode-se dizer que beira a irresponsabilidade no tratamento desses temas. É claro que tudo isso precisa ser discutido – mas não de qualquer maneira. E o livro falha consideravelmente em diversos aspectos. Vamos por partes.

Hannah Baker, a garota suicida, culpa 13 pessoas que, ao longo de um processo de anos, teriam influenciado sua decisão de tirar a própria vida. Nessa lista, constam desde um estuprador até um colega que “poderia tê-la salvo, mas não o fez”; um professor que não soube orientá-la; uma colega que parou de falar com ela por causa de um boato; um rapaz que publicou um poema de Hannah anonimamente no jornal da escola… e por aí vai. Mesmo sem entrar nos méritos de quais dessas pessoas realmente mereceriam figurar numa lista dessas, o que se tem aqui é claramente o suicídio como culpabilização de terceiros. E isso é uma noção muito, muito complicada.

Segundo a psicologia, é comum que potenciais suicidas tenham esse tipo de raciocínio: tirar a própria vida como forma de punir pessoas supostamente culpadas pelo seu estado de infelicidade. Faz parte do processo de terapia mostrar a essas pessoas que, infelizmente, essa noção é equivocada e bastante perigosa. E uma das falhas do livro é não só não questionar isso, como reforçar essa noção ao longo de toda a narrativa. As motivações de Hannah jamais são questionadas, e, como a garota morta e narradora já distanciada da ação, ela ganha uma aura divina e justiceira que coloca em segundo plano o cerne da questão: uma menina de apenas 17 anos tirou a própria vida. Isso não lhe dá poder. Isso não acaba, de fato, com a vida de seus algozes. Sua vingança não surte o efeito esperado – e mesmo que surtisse, ela jamais saberia. Essa realidade tão trágica, por incrível que pareça, não é o foco. Infelizmente.

Outra falha de enfoque por parte de Asher é na discussão da cultura do estupro. Dos 13 porquês de Hannah, 10 são homens. Muitos desses a assediaram e a violentaram física e psicologicamente, até que ela passasse a se sentir desconfortável no próprio corpo. Isso é extremamente grave. Mas é machismo, não bullying. É cultura do estupro, não rivalidade adolescente. E embora um leitor mais maduro consiga perfeitamente chegar a essas conclusões, nunca se deve perder de vista que o livro é juvenil, e, nesse sentido, perde muito dessa discussão quando contextualiza tudo isso num cenário high school norte-americano sem problematizar nem por um momento a permanência desse problema em todas as esferas sociais – não só a escolar/adolescente. Não é bullying. É muito pior e mais sistêmico que isso.

A essa altura, alguns leitores podem se questionar: “mas e daí se Asher não discute esses temas de maneira adequada? É uma narrativa, não um livro didático ou uma tese de doutorado”. Ao que a resposta seria: não, não é. Mas é uma narrativa que se propõe a debater esses temas relevantes com adolescentes. Que se vende como quebradora de tabus. Que tem lucrado e muito com seu suposto serviço ao discutir o suicídio abertamente, além dos demais temas já citados. E é aí que se abre também para julgamentos nesse sentido: se o livro sugere que sua função é essa, é inegável que ela foi mal desempenhada.

Em relação à literariedade, Os 13 Porquês também decepciona. Devido às questões psicológicas que o tema aborda, a análise e a profundidade das personagens – da protagonista, inclusive – deixa a desejar. Hannah transforma a coisa toda numa espécie de jogo sádico, e como tudo o que ouvimos dela são as fitas, muito do seu processo psicológico, de suas camadas, é por nós desconhecido. Um bom exemplo é como ela diz algumas vezes que com certeza os pais a ajudariam se ela conversasse com eles. Então, por que não conversa? Como é essa relação? Como se dá essa decisão em não pedir ajuda às pessoas em quem ela confiava para entregar sua salvação nas mãos de colegas ou professores? As respostas a essas e a outras perguntas poderiam mudar radicalmente a percepção da narrativa – mas permanecem vazias.

Muitos se interessaram por Os 13 Porquês devido à possibilidade de entender o que leva alguém a tirar a própria vida, ou como os distúrbios psicológicos funcionam, ou como lidar com pessoas potencialmente suicidas, ou como discutir esse tema com adolescentes. De fato, a proposta do romance é tentadora: o problema é que ela não se cumpre. O suicídio de Hannah é transformado num jogo; o leitor, levado a crer que o mais importante nesses casos é encontrar – e punir – culpados. A construção literária está longe de ser marcante. A análise psicológica, longe de profundidade. Em resumo, poderia ser só um livro despretensioso, mas, na medida em que se propõe a ser referência no tema, erra feio, erra rude. Realmente, se não fosse a Netflix – e todo o apelo da série, em que rola praticamente um tutorial de suicídio (ausente no livro, ainda bem), provavelmente não seria digno de nota.

Os Treze Porquês (Thirteen reasons why) – EUA, 2007
Autor: Jay Asher
Publicação: Editora Ática, 2009
Tradução: José Augusto Lemos
256 Páginas

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.