Crítica | Os 39 Degraus

estrelas 3,5

Os 39 Degraus é o filme que marca, em termos estéticos e narrativos, a fase final da carreira de Hitchcock na Inglaterra. O diretor tinha então liberdade considerável para escolher os roteiros que gostaria de filmar e, agora trabalhando para a Gaumont British Picture Corporation, passou a ter orçamentos e produtores de peso, o que lhe garantiu maior possibilidade de ousar na direção e cada vez mais no refinamento de seu estilo pessoal de fazer cinema.

Desde O Homem Que Sabia Demais, no ano anterior, Hitchcock passou a arquitetar um tipo de cinema marcado pela emoção causada no público, muitas vezes em detrimento de posições lógicas do roteiro, como a verossimilhança, por exemplo. Esse teor de preocupação com o público e suas emoções pode ser visto mais claramente em Os 39 Degraus, que corta praticamente tudo o que é cena de contextualização lógica e cria uma sequência quase sem pausa de ação e perseguição, a começar pela intrigante cadeia de eventos iniciais.

Num espetáculo de Music Hall, assistimos à performance de um certo Mr. Memory, personagem que terá um papel importante, impressionante e ao mesmo tempo patético ao final do filme. De sua apresentação, guardamos a pergunta “Qual é a idade de Mae West?” (que, a propósito, tinha 42 anos na época), e a briga de uns homens no bar, confusão que acaba em tiros, correria e o encontro seguido de uma forçosa relação entre Hannay (Robert Donat) e uma misteriosa espiã. Se fosse feito alguns anos depois e com algumas pequenas mudanças na fotografia/enredo, até poderíamos ter um drama noir na tela.

É interessante perceber que o ingrediente principal desse tipo de filme que Alfred Hitchcock então realizava e moldava para os anos futuros era a sua maior fraqueza. Ao ressaltar as emoções do espectador, estender pelo filme uma linha ininterrupta de medo e suspense em troca da lógica (ou parte dela) do enredo, o diretor sabia que realizava um filme que iria irritar os críticos mas quase sempre agradar aos espectadores. Penso que ele alternava a sua visão do que era importante ser verossimilhante ou não. Se elegermos os seus melhores filmes americanos, teremos o mesmo ingrediente de ação numa linha sequencial, mas com precisas cenas de ligação e comedida interação entre as duas faces da moeda, os dois lados que eventualmente se enfrentariam ou dariam força para que a história continuasse.

O que é realmente interessante em Os 39 Degraus é a jornada do falso culpado, que sai de Londres e vai para a Escócia em busca da tal organização secreta que dá nome ao filme. Hitchcock fez um trabalho belíssimo na direção de toda a rota escocesa da fita, destacando pontos estratégicos e muito bonitos da paisagem, inserindo-os de maneira dramática na tela, não apenas como simples local de ação para as personagens. A mesma coisa vale dizer da sequência no trem. O diretor adorava cenas filmadas em meios de transporte e não há dúvida de que era um dos melhores realizadores a utilizar esse contexto na tela e com belas tomadas, especialmente em trens.

A locomotiva de Os 39 Degraus não aparece de forma tão dramática quanto em O Mistério do Número 17, mas mesmo assim garante um bom impacto no público. São cenas como essas que fazem da película algo agradável de se ver, muito embora nos incomodemos com os absurdos dos encontros, a facilidade quase impossível com que os protagonistas aceitam seus destinos e o rumo que a história ganha no final, com a morte patética do Mr. Memory (embora notável, em se tratando dessa personagem) e as mãos dadas dos pombinhos protagonistas. Trata-se, evidentemente, de um bom filme, mas com alguns pontos que, se não estivessem lá, com certeza deixariam a obra bem melhor.

Os 39 Degraus (The 39 Steps) – UK, 1935
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Ian Hay (adaptado da obra de John Buchan)
Elenco: Robert Donat, Madeleine Carroll, Lucie Mannheim, Godfrey Tearle, Peggy Ashcroft, John Laurie, Helen Haye, Frank Cellier, Wylie Watson, Gus McNaughton, Jerry Verno
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.