Crítica | Os 47 Ronins (1994)

estrelas 2,5

Kon Ichikawa já ia em avançada idade e obra quando dirigiu Os 47 Ronins, em 1994. Cineasta de filmografia respeitável, ele conseguiu realizar, ao longo de sua carreira, películas de grande força dramática e qualidade estética, trabalhando muito bem com todo tipo de gênero e fontes de inspiração para roteiros, inclusive adaptações literárias, a exemplo do belíssimo As Irmãs Makioka (1983).

Ao voltar-se para a peça de Kaneo Ikegami sobre a história dos 47 ronins, Ichikawa teve como objetivo principal trazer para a tela a longa preparação dos samurais após descobrirem que seu senhor havia sido condenado a cometer seppuku por ter retirado a espada dentro do palácio do shogun e atacado um dos funcionários do soberano, lorde Kira.

Esse tipo de visão de bastidores para o fato já havia sido explorado com brilhantismo por Kenji Mizoguchi no épico de quatro horas, A Vingança dos 47 Ronins (1941). Mas diferente do caminho tomando pelo conterrâneo, Ichikawa trabalha alternando a dramatização daquilo que conhecemos da crônica secular e elementos novos, que muitas vezes retiram a essência do acontecimento e faz com que essa versão do roteiro acabe perdendo qualidade.

A sequência dos eventos aqui permanece a mesma da cronologia original, mas muita coisa é oculta ou narrada fora de ordem. A narrativa alinear, no entanto, não seria um problema se o roteiro fechasse bem o ciclo de histórias e fizesse com que o encontro entre as partes acontecesse de forma orgânica e em momentos realmente marcantes, a fim de não parecer algo gratuito ou apenas uma equiparação “natural” de tempos entre o que foi visto no início do filme e o presente momento da história, uma das piores concepções para unir dois blocos fílmicos separados por uma narrativa descontinuada.

Talvez pela influência da peça que lhe deu origem ou pela composição do roteiro, os eventos mais marcantes da história dos ronins não aparecem e o espectador precisa lidar desde os primeiros minutos com uma preparação de samurais para invadir um castelo mesmo sem ter um único motivo na história para isso. E para piorar, há uma injustificável negação do texto em revelar o verdadeiro motivo para o ataque de Asano a Kira, ao mesmo tempo em que o lado da corrupção e velhacaria do funcionário do shogun nos é apresentado como um boato espalhado pelos próprios samurais. Estaria Ichikawa tentando reescrever a história? Mas se a resposta for afirmativa, por qual motivo ele não reescreveu tudo? Manter o que for conveniente e reescrever justamente o que dá força à lenda não é a coisa mais indicada a se fazer!

Parece-me que o diretor quis tornar Asano realmente culpado, impressão que martela nosso bom senso o tempo inteiro, porque o próprio ponto de partida para a vingança dos ronins é vago, como se o mestre deles precisasse, quase como um dever obrigatório/robótico, ser vingado. Pouco do código de honra e da devoção dos samurais a Asano aparece no filme. A maior parte dos laços são soltos. Há mais interesses pessoais e conflito de egos do que destaque ao bushido.

Mesmo se considerarmos os micro-momentos em que oportunos flashbacks tentam mostrar o motivo da briga e a causa de toda a vingança, o caminho percorrido até então é tortuoso e tem como base um ponto de partida não oferecido ao público! Assim, quem assiste a essa versão, precisa tomar como legítima a causa de uma luta que só vai revelar os seus motivos  muito tempo depois – e ainda com carência absurda de detalhes –. E dentro de um contexto em que tais cenas de referência não cabiam mais.

Algo mais ou menos nessa linha pode ser percebido no épico A Queda do Castelo Ako, de Kinji Fukusaku. Só que nesse filme, a sequência dos eventos sustenta a proposta geral do filme, o que faz da omissão do conflito inicial um detalhe incômodo e não um erro crasso do roteiro.

Da primeira para a última parte de Os 47 Ronins, é possível perceber uma incômoda alteração na forma de mostrar o espaço geográfico e a relação entre os próprios samurais. De início, temos a impressão de que eles estavam se reunindo para planejar o ataque. Em pouco tempo, percebemos que esse é um ponto futuro da narrativa, e então voltamos, com a ajuda de um inconstante e dispensável narrador, para o momento onde a crise foi iniciada. Só que não vemos a crise. Ela é dada como pronta e acompanhamos somente o desenrolar de suas consequências na tela.

Nesse ponto da história, temos uma maior ocorrência de momentos musicais, porém, todos muito breves. Esses temas tenderão a desaparecer conforma a história for se tornando mais sombria, ao mesmo tempo em que perceberemos uma sutil diferença na cor dominante para a fotografia. Essas diferenças pouco exploradas fazem com que o longa nos pareça terrivelmente sem foco narrativo, o que é uma meia verdade. O foco existe, à sua maneira, mas ele é afetado por dramas desnecessários, especialmente os de teor amoroso. Não se trata da exploração de um lado familiar dos samurais, como feito por Fukusaku em A Queda do Castelo Ako ou mesmo na minissérie em quadrinhos Os 47 Ronins. Trata-se de plots cuja intenção é aproximar o espectador, mas que ao mesmo tempo falha em sua missão porque atrapalham o andamento da história já iniciada.

É inegável que existam momentos muito bons nessa versão de Ichikawa para a famosa história. Mas o diretor se perde numa miríade de intenções, distraindo o público quando não deveria (e com coisas supérfluas) ou negando ao público informações essenciais e exibidas na hora certa, para que se construa adequadamente os lados da história. Nem na batalha final o cineasta deixa de errar, suprimindo o som ambiente para criar um efeito que só poderia nos impactar se da hora e meia anterior tivesse se erguido de maneira correta, o que não é o caso. Talvez Os 47 Ronins valha pela curiosidade, mas no fim das contas, acaba sendo uma dupla decepção: a de ver tamanhos erros vindo de um diretor como Kon Ichikawa e a de ver uma história tão boa estragada por caprichos burocráticos cinematográficos.

Os 47 Ronins (Shijûshichinin no shikaku) – Japão, 1994
Direção:
Kon Ichikawa
Roteiro: Kon Ichikawa, Hiroshi Takeyama (baseado na peça de Kaneo Ikegami)
Elenco: Ken Takakura, Kiichi Nakai, Rie Miyazawa, Kôichi Iwaki, Ryûdô Uzaki, Tatsuo Matsumura, Hisashi Igawa, Gaku Yamamoto, Shigeru Kôyama
Duração: 132 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.