Crítica | Os Amantes Passageiros

estrelas 3Não foram poucas as críticas e comentários negativos a respeito de Os Amantes Passageiros (2013), comédia de Pedro Almodóvar sobre a curiosa tripulação e o eclético grupo de passageiros de um avião com problema no trem de pouso. Trazendo ingredientes de comédias anteriores do diretor, o filme garante uma boa diversão para espectadores menos xiitas em relação à análise de uma obra em perspectiva, mas isso não significa que se trata de uma película livre de problemas.

A situação dramática é simples, assim como o argumento principal do longa. Tendo percebido um problema no trem de pouso, os pilotos resolvem silenciar sobre o caso, mas orienta algumas ações estranhas para a equipe. Os passageiros da classe turística são sedados, e assim permanecem durante todo o voo em círculos, à exceção do jovem que é assediado por uma vidente virgem. O problema técnico é descoberto pelo namorado-amante de um dos pilotos, e então entendemos que todas as medidas cautelares e de entretenimento têm como núcleo esse fato, que aponta para uma possível catástrofe.

Embora falhe no desfecho do roteiro, Almodóvar consegue segurar muito bem o seu desenvolvimento, trabalhando uma série de acontecimentos inusitados, cômicos e indiretamente críticos à situação de crise enfrentada hoje pela Espanha. As próprias atitudes dos profissionais, já na abertura, apontam para a incompetência de todos os setores de prestação de serviços, algo o que vai desembocar em uma realidade quase surrealista dentro do avião, o cenário principal do filme.

Esse desenvolvimento do roteiro contém toda a graça e bizarrice típicos do diretor, alternando momentos bem escritos e ações deslocadas, uma linha dramática que ora afasta, ora cativa o público. O bom disso é que os melhores momentos superam os piores, garantindo boas risadas e acontecimentos tão loucos quanto verossímeis, não negando o mundo de personagens drogados, homossexuais, criminosos e esquisitos do universo de Almodóvar.

Todavia, o cenário praticamente único e uma sutil mudança na direção descaracterizou ou trouxe-nos uma outra face da identidade formal que conhecíamos do cineasta, não no quesito estético, que mantém aqui o mesmo alto nível, mas no sentido de formato diegético, gerando uma obra que, na minha opinião, parece bem menos um filme de Almodóvar e mais uma comédia espanhola escrachada.

O fato de eu ter apontado, anteriormente, algumas semelhanças com outras películas do diretor não significa que elas, inseridas em um contexto maior que é um filme de 1h30, guardam a mesma aparência e uso em que habitualmente as vemos, a exemplo de comédias almodóvarianas como La Concejala Antropófaga, Kika ou Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. De maneira individual é possível elencar semelhanças, mas elas tendem a desaparecer sutilmente no todo da obra, o que não é comum em Almodóvar, nem mesmo se compararmos a sua direção também diferente da habitual em A Pele que Habito, cujo resultado foi esplêndido.

A ligação do espaço claustrofóbico com um cenário externo talvez seja o ponto narrativo mais deslocado do filme, porque cria um mini universo à parte e desvia a atenção para um ponto externo, privilegiando um dos passageiros mais insossos do avião. Mesmo que o fio da meada seja retomado para essa mesma trama ao final da película (o reencontro de Galán e Ruth), tudo em relação a ela poderia não fazer parte do filme. É claro que é possível entender a intenção do diretor e roteirista ao adicionar esse atalho narrativo, mas também é possível considerarmos outras e melhores escolhas que servissem de alívio cênico para os eventos passados dentro do avião.

Os tropeços cometidos por Almodóvar em Os Amantes Passageiros espantam, é verdade, principalmente se pensarmos no tipo de diretor de comédias que ele pode ser; mas isso não significa que o filme seja ruim. Há falhas no roteiro, mas há momentos que superam isso com folga. O longa ainda traz uma produção técnica notável e três pontas de atores recorrentes na filmografia do diretor: Antonio Banderas, Penélope Cruz e Paz Vega.

Mesmo que não seja uma fita para se rasgar de elogios aos quatro ventos, Os Amantes Passageiros vale a sessão e garante boas risadas, cumprindo, pelo menos em parte, o seu objetivo principal.

Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros) – Espanha, 2013
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco principal: Carlos Areces, Javier Cámara, Rául Arévalo, Lola Dueñas, Hugo Silva, Cecília Roth, Paz Vega, Antonio Banderas, Penélope Cruz
Duração: 90 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.