Crítica | Os Ambiciosos

Quatro-estrelas

Os Ambiciosos foi o último filme franco-mexicano de Buñuel e talvez o seu filme de conteúdo mais abertamente político. Diferente das indicações indiretas ou parciais que encontramos em obras anteriores ou posteriores em sua filmografia, vemos aqui uma sequência de focos políticos na ilha de Ojeda, eventos que, mesmo tendo como base o livro de Henri Castillou, carregam os tempos de engajamento político do diretor na Espanha trintista e trazem ainda um reflexo importante do ano em que foi realizado: a Revolução Cubana.

Ojeda é uma ilha isolada do Oceano Atlântico, apresentada quase como um documentário étnico no início do filme. Lembrou bastante a abordagem feita pelo diretor em Os Esquecidos (1950), onde contextualiza o problema das grandes cidades que tomaria corpo durante a narrativa. Aqui, primeiro temos o espaço apresentado ao espectador, suas origens, economia e dados históricos. Mas como em uma espécie de quebra da visão do Paraíso, o narrador fala da miséria de parte da população e ressalta duas das coisas mais importantes no filme: a colônia penal e o governo local.

É em torno de presos políticos e comuns e de um governo passional e parasitário que a história ganhará fôlego, e todo esse exercício não deixa nada devendo ao que de fato acontece nas revoltas e tomadas de poder na América Latina. Em dado momento da projeção me lembrei da briga entre o General Acazar e o General Tapioca nas Aventuras de Tintim em San Theodoros, um país da América do Sul que vive tomado por motins e revoluções, alternando ditaduras, mantendo a mesma estrutura repressiva, além de cultivar uma população miserável sob migalhas assistencialistas de validade curta.

O roteiro consegue ligar de maneira admirável o romance entre os protagonistas e os jogos políticos capazes que afagar interesses pessoais, dando cada vez mais poder e riqueza para quem conseguir chegar a uma posição de influência no governo e manter essa posição – daí o título do filme em português. A investida nos conflitos morais das personagens aparece em já adiantada trama, e propõe uma forte crise de consciência, algo parecido com a que Archibaldo de Ensaio de um Crime possuía, mas em um outro contexto. O que o diretor ressalta aqui é o ignorar de um dever moral para servir a interesses políticos, a velha dinâmica da prostituição burocrática.

A população aparece no início da película, mas logo sai de cena e dá lugar aos conchavos do Estado. Não é, todavia, um abandono desleixado, típico de roteiros falhos. Trata-se na verdade de uma transferência natural de atenção, uma vez que o foco da obra não era problematizar as mazelas sociais e sim as máculas em torno da roda política.

É evidente que o alcance dessas brigas e mentiras oficiais alcançam o povo, mas quase como uma ironia em relação à alienação geral, o filme parece mais uma obra de bastidores. Particularmente vi como legítima a abordagem, uma vez que para a maior parte da população alienada [em nosso país, por exemplo], os eventos políticos parecem acontecer em outra dimensão, enquanto o que “realmente importa” é o Pão e o Circo, isso sim divulgado aos quatro ventos.

Os Ambiciosos é daqueles filmes pouco conhecidos de Buñuel, algo que lamento tanto quanto lamentei no texto de A Morte Neste Jardim. Trata-se de uma obra visivelmente engajada, onde a repressão e a [auto]traição moral e ética pairam como atmosfera geral durante toda a projeção, dando um sabor amargo e cruel em seu desfecho, quase como um “entregar os pontos” diante do poder imenso a que toda essa insustentável e corrupta situação chegou. Não há a abertura para uma mudança como em Os Esquecidos. O mundo aqui é mais implacável e viciado do que a delinquência juvenil nas grandes cidades denunciada nove anos antes. Essa realidade é a continuação de uma história secular: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Os Ambiciosos (La fièvre monte à El Pao) – França, México, 1959
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Luis Buñuel, Luis Alcoriza, Charles Dorat, Louis Sapin (adaptação da obra de Henri Castillou)
Elenco: Gérard Philipe, María Félix, Jean Servais, Miguel Ángel Ferriz, Raúl Dantés, Domingo Soler, Víctor Junco, Roberto Cañedo
Duração: 109 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.