Crítica | Os Anos Felizes (2013)

estrelas 4,5

À primeira vista pode parecer um saudosismo irônico esse, mostrado pelo diretor Daniele Luchetti, no filme Os Anos Felizes. A proposta da fita é rememorar um período na vida de uma família italiana na Roma dos anos 70, a partir da narração do filho mais velho.  Somente pelos olhos inocentes de uma criança essa história repleta de discórdias poderia ser contada longe de julgamentos.

O diretor desnuda os estigmas que pesam sobre os relacionamentos ao traçar um panorama familiar, a partir de uma composição suave e contrastante entre o que significa amar, possuir e manipular.  Guido é um artista que se dedica a esculturas e é também marido de Serena e pai de Dario e Paolo. A mãe não tem ambições pessoais e o ciúme toma conta do tempo livre dela.

Em um certo momento nos deparamos com a descrição de como se demonstra amor nessa família: a partir da frieza ou da calorosidade. Os contrastes e as negações tornam verdadeiro o que existe de positivo e carrega a felicidade. E essa felicidade só existe porque há seu contrário. Com isso, o diretor amarra a história e abre infinitas reflexões.

Guido se sente seguro tendo consciência de que e esposa o ama e isso enfraquece a figura dela diante da vontade dele. Ela se torna submissa a todas as necessidades do marido, mesmo que no meio de brigas e chantagens apaixonadas. A identidade de Guido está formada, ele tem vontades e valores determinados e bem acentuados, enquanto ela parte de um quadro vazio para se desenhar por si mesma.

Aí entra a anti-catarse. O roteiro se entrega ao previsível no momento em que acontece a catarse antecipada de Serena na cena surrealista do carro em movimento. Nesse instante já fica claro que vai haver uma repercussão que muda o curso da história, mas ao mesmo tempo entrega demais com a personagem de Martina Gedeck. O que pode muito bem se tornar uma antítese da catarse.

Entretanto, talvez a catarse de Serena tenha sido antecipada para dar espaço a de Guido, que vem mais adiante no filme, e que na narrativa guarda mais impacto e relevância para dar um fechamento, logo que, as problemáticas se evadem primeiro da personagem dele. E a catarse dela é um reflexo ou resposta ao que ele propõe como liberdade. No entanto, a liberdade só interessa a ele quando é uma via de mão única.

Uma cena importante é quando o filho mais velho filma a mãe e ela não olha para ele, ela está perdida em seus pensamentos e, pela primeira vez, a chama de mama sem que ela se dê conta. Isso, porque essa agora não é mais a única identidade dela. Ela não atende somente por mama, ela encontrou Serena. Descobriu o egoísmo necessário para cultivar sua independência.

Serena agora já não precisa mais da assinatura de Guido sobre a pela dela. Ela encontra em uma nova paixão a força para se libertar da própria intransigência e intolerância. Busca uma redenção, não nos braços de outra pessoa. A outra pessoa é o motivo, ele é a causa, mas o efeito é a independência dela de todos os vícios e amarras.

Na cena sobre o equilíbrio precário o diretor desenvolve um paralelo entre a base de equilíbrio da escultura e relacionamentos. Em uma cena comovente a personagem de Guido expressa pela primeira vez, mas de maneira sutil, o amor pela esposa. A base que o mantinha em pé era a família e ele nem se dava conta disso, até cair.

O filme é costurado por cenas impregnadas de beleza e que não necessitam contar através delas nenhuma história, a não ser a beleza de gestos e composição de luz e cor. O belo é um assunto muito debatido pela personagem de Guido. Ele está buscando o belo e o irreverente com tanta devoção que se perde em táticas com pouca verdade poética.  Esse é o conflito interno dele.

Na tristeza, Guido abraça a dicotomia entre a beleza tradicional (engessada em parâmetros definidos) e o tão clamado irreverente (fora dos padrões).  De certa forma, essa é a dualidade que ele vive durante o conflito no seu relacionamento com Serena. E é o menino quem registra a beleza que o pai perdeu de vista. A beleza da mãe e dessa época.

Os Anos Felizes (Anni Felice) – Itália / França, 2013
Diretor: Daniele Luchetti
Roteiro: Daniele Luchetti
Elenco: Kim Rossi Stuart, Micaela Ramazzotti, Martina Gedeck, Samuel Garofalo, Niccolò Calvagna
Duração:  106 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.