Crítica | Os Boxtrolls

estrelas 4

A Laika Entertainment foi criada em 2005 (surgindo das cinzas do Will Vinton Studios), pelo co-fundador e presidente da Nike, Phil Knight, que entregou a administração do Estúdio para seu filho, um animador em início de carreira. Travis Knight conduziu seu brinquedo milionário para um caminho completamente diferente do esperado para uma empresa de entretenimento surgida numa era de grandiosa competição de mercado feita por obras fáceis — para dizer o mínimo –, em sua maioria. Mas as produções da Laika, até agora, entraram no ramo das exceções.

Iniciando sua jornada com o excelente Coraline e o Mundo Secreto (2009), seguida do ótimo ParaNorman (2012) e agora, Os Boxtrolls (2014), o Estúdio mostra clara rejeição aos parâmetros da fofura pela fofura e cria um universo medonho na medida certa, com roteiros bastante críticos e predileção estética pela difícil e admirável arte do stop-motion, as famosas animações com bonecos e outros objetos (em sua maioria feitos de massinha, mas a técnica permite o uso de diversos tipos de material) movidos 24 vezes por segundo.

Baseado no livro A Gente é Monstro!, de Alan Snow, o roteiro de Os Boxtrolls nos conta uma história que se passa na cidade de Pontequeijo, um lugar onde as pessoas de todas as classes vivem com medo — embora não façam ideia de que esse medo é fabricado por alguém que espera lucrar com isso –, onde os mais ricos refastelam-se de comer e falar sobre queijos, deixando a população pobre catar lixo, obedecer a um absurdo toque de recolher e morar em uma cidade com péssimas condições de infraestrutura.

A condição do absurdo e a dualidade entre o que é ser um monstro e um “não monstro” é colocada como carro-chefe da trama, mas recebe total atenção, diferente de grande parte das animações que citam ou aludem a este aspecto mas dão voz à comédia, ao romance ou a polaridade entre bem e mal, sempre com a punição deste último como lição de moral e a vitória absoluta do bem. Em Os Boxtrolls, o próprio conceito de bem e mal é colocado em questionamento, assim como a essência das pessoas, o que as fazem ser o que verdadeiramente são (um aspecto que já vimos metaforizado em O Espanta Tubarões e pelo viés dramático e existencialista em Rango).

O texto cria um universo onde os trolls (cujos nomes são dados pela caixa que vestem) possuem papel de grande importância na obra mas não estão lá apenas para divertir o espectador unica e simplesmente, como no caso dos sensacionais Minions em Meu Malvado Favorito. Por serem monstros do bem, muitíssimo mais assustados que os humanos, os trolls possuem uma riqueza de significado para a história que se espalha pelo enredo inteiro. Nós os vemos como pais adotivos, como família e amigos de Ovo (o menino adotado pelo boxtroll Peixe); como exemplo de superação de um medo natural; como exemplo de organização social cuja ingenuidade representa um grande perigo e como espelho de um aspecto às vezes visto como utópico da humanidade, que é… imaginem só… viver em paz e ser feliz.

Em termos técnicos, é possível ver um salto gigantesco do já ótimo ParaNorman para Boxtrolls, e reparem que são apenas dois anos de diferença de um filme para outro. Os detalhes dos sets foram aumentados, a interação entre os personagens se tornou mais intensa (a sequência em que Arquibaldo Surrupião destrói a caverna dos boxtrolls ou a que ele vai até o castelo de Sir Langsdale são maravilhosamente bem animadas e cheias de detalhes). O filme perde um pouco na montagem — especialmente nos “fades cegos“, que usam de uma explosão ou algo grande que cobre a câmera para dar início a outra cena — mas ganha, e muito, em outros aspectos.

O espectador ainda tem duas ótimas homenagens para curtir durante a projeção, uma a Monty Python – O Sentido da Vida (a morte de Arquibaldo é exatamente igual à do Sr. Creosote) e outra a Tarzan (1999), quando Ovo percebe que é humano ao tocar a mão de Winnie, exatamente como se deu entre Tarzan e Jane.

O maior destaque do elenco vai para Ben Kingsley, como o vilão. Com excelente atuação e mudanças ou tonalidades diferentes de voz para cada etapa da obra, o ator torna o seu personagem amedrontador mas também divertido e, de certa forma, cativante. O outro destaque vai para Isaac Hempstead Wright, como Ovo, cuja simpatia e agradável sotaque torna o personagem inesquecível.

Os Boxtrolls é uma fábula sobre a vida moderna, sobre classes sociais, sobre pais que não dão atenção aos filhos (Coraline e ParaNorman também apresentaram, cada um a seu modo, o mesmo tema), sobre pessoas que voltam sua atenção para objetos, títulos e condição exterior, sacrificando vontades próprias ou a atenção e expectativas de alguém que supostamente deveria ajudar. Eis aí um tema corajoso para ser trabalhado em uma animação. E que incrível resultado final ele gerou em Os Boxtrolls!

Os Boxtrolls (The Boxtrolls) — EUA, 2014
Direção: Graham Annable, Anthony Stacchi
Roteiro: Irena Brignull, Adam Pava (baseado na obra A Gente é Monstro!, de Alan Snow).
Elenco (vozes originais): Ben Kingsley, Jared Harris, Nick Frost, Richard Ayoade, Tracy Morgan, Dee Bradley Baker, Steve Blum, Nika Futterman, Pat Fraley, Fred Tatasciore
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.