Crítica | Os Caça-Fantasmas

estrelas 3,5

A expressão que melhor define Os Caça-Fantasmas, comédia de Ivan Reitman, de 1984, é “fenômeno cultural”. Uma obra não baseada em propriedade pré-existente, que teve apenas uma continuação cinco anos depois e algumas séries animadas de TV tornou-se uma das mais citadas do dia-a-dia dos espectadores que, ao longo das décadas, tiveram a oportunidade de assisti-la.

O filme é icônico em diversos níveis. Começando com Who you gonna call? no refrão da inesquecível canção de Ray Parker Jr., passando pelo fantasma verde e simpático Slimer, sem se esquecer do próprio trio (bem, quarteto na verdade) de caça-fantasmas e seus uniformes, logotipo de “fantasma proibido”, rabecão branco batizado de Ecto-1, quartel-general no estilo corpo de bombeiros e, também, do lado de lá, uma Sigourney  Weaver sensual e um Rick Moranis completamente tresloucado. Mas talvez nada se compare com a absolutamente hilária sequência do “Destruidor” enviado por Gozer na forma da lembrança de infância do Dr. Ray Stantz (Dan Aykroyd), o boneco de marshmallow da marca fictícia Stay Puft.

Com tudo isso a favor do filme, é absolutamente impossível não se deixar levar pela gostosa e simplista trama carregada de efeitos visuais e de se deliciar com a atuação de Ayroyd, Harold Ramis, Rick Moranis, Weaver e, especialmente de Bill Murray. É, sem dúvida alguma, um dos grandes marcos da prolífica década de 80 e um daqueles raros filmes que sobreviveu – e continuará sobrevivendo – por gerações.

Dito tudo isso, que, em circunstâncias normais, deveria levar à uma conclusão apoteótica da presente crítica, sou obrigado a olhar para essa obra de Ivan Reitman, escrita por Aykroyd e Ramis, com um olhar um pouquinho mais distanciado. Dessa maneira, creio ser inevitável a conclusão de que Os Caça-Fantasmas é uma obra que funciona muito melhor pelas suas partes do que pela sua impressão de conjunto. Todos os aspectos icônicos citados acima e as atuações do trio principal conseguem, separadamente, ser bem melhores do que o filme como um todo, que tem sérios problemas de roteiro, problemas esses, porém, que não retiram completamente o brilho do que vemos na tela.

Mas vamos às questões que detectei. Em primeiro lugar, toda a história é completamente aleatória, sem a preocupação de se criar qualquer tipo de justificativa plausível para a formação dos Caça-Fantasmas para lidar com o paranormal na cidade de Nova Iorque. Sim, entendo que se trata de uma comédia leve, mas isso não significa que a narrativa pode ser mal-costurada e jogada no filme em uma sequência qualquer. Faltou um pouco mais de coesão ao roteiro, algo que talvez tenha sido resultado da longa gestação dessa obra na mente de Aykroyd e das diversas versões que ela teve antes de alcançar sua forma final. Além disso, a repentina entrada de Winston Zeddmore (Ernie Hudson) na trama, como o quarto Caça-Fantasma, é muito mal trabalhada e, em última análise, mal utilizada. Ele é o infeliz exemplo de um roteiro impensado e que, depois, sofreu pressões para ser uma obra mais inclusiva em termos étnicos.

Além disso, o filme se arrasta. Apesar de um começo muito bem estruturado, em que vemos a apresentação orgânica dos Drs. Venkman, Stantz e Spengler, depois do surgimento efetivo dos Caça-Fantasmas o ritmo cai tremendamente com toda a construção da trama envolvendo Dana Barrett (Sigourney Weaver) e seu apartamento mal-assombrado. São 30 minutos que se desenrolam como se fossem duas horas e não em razão de qualquer complexidade da trama, mas sim pela estranha necessidade de se dar um caráter mais “sério” à narrativa. Acaba não funcionando e facilitando a dispersão do espectador até, claro, o momento em que o clímax se avizinha.

Aliás, o clímax também é longo, não necessariamente arrastado. No entanto, ele é definitivamente maior do que poderia ser para refletir a dinâmica atuação do trio – agora quarteto – no começo da projeção. É um show de efeitos especiais muito bem trabalhados e inseridos na narrativa, mas é um daqueles shows que vai além do que deveria, com “bis” demais.

Mas Os Caça-Fantasmas continua sendo o fenômeno cultural que era na saudosa década de 80 e merece ser visto e revisto por cinéfilos. Mas ser fenômeno cultural não isenta a fita de defeitos e eles abundam aqui, mesmo que sejam extremamente adocicados por muito ectoplasma e marshmallow.

Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters, EUA – 1984)
Diretor: Ivan Reitman
Roteiro: Dan Aykroyd, Harold Ramis
Elenco: Bill Murray, Dan Aykroyd, Sigourney Weaver, Harold Ramis, Rick Moranis, Annie Potts, William Atherton, Ernie Hudson, David Margulies
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.