Crítica | Os Charutos do Faraó

estrelas 4

De início, não pude ver nada, o ar quente que escapava da câmara fazia tremeluzir a chama da vela, mas então, quando os meus olhos se acostumaram com a semi-obscuridade, detalhes daquela sala começaram lentamente a emergir da bruma: estranhos animais, estátuas e ouro – por todo o lado o esplendor do ouro!

Por um instante – uma eternidade deve ter parecido para os que estavam ao meu lado – permaneci mudo de assombro, e quando Lorde Carnarvon – incapaz de suportar o suspense por mais tempo – ansiosamente me inquiriu: ‘Você está vendo alguma coisa?’, tudo o que pude dizer foi: ‘Sim, coisas maravilhosas!’…

Howard Carter

No dia 4 de novembro de 1922, o egiptólogo britânico Howard Carter descobriu a tumba KV62, situada no Vale dos Reis. Sem querer, e praticamente às portas de encerrar as escavações no local (que já haviam sido interrompidas no início da I Guerra Mundial, e passado por alguns períodos de inatividade após 1917), o arqueólogo e sua equipe trouxeram ao mundo aquela que até hoje é considerada uma das maiores descobertas arqueológicas do século XX: a tumba de Tutancâmon.

A história de Os Charutos do Faraó começou a ser publicada por Hergé no suplemento infantil Le Petit Vingtième no final de 1932, portanto, uma década depois da famosa descoberta arqueológica, e que ainda gerava um grande furor na comunidade científica e mesmo na imprensa, especialmente porque algumas mortes começaram a acontecer aos envolvidos, direta ou indiretamente, na exploração, e a lenda da “maldição do faraó” ganhou, mais uma vez, corpo e publicidade.

Pela primeira vez, Hergé demonstrou maior preocupação em construir uma história dotada de surpresas e cheia de ligações inteligentes, exercício realizado de maneira um pouco menos evidente em Tintim na América, mas onde já percebíamos um sutil desligamento do autor em relação às mensagens moralistas ou de cunho ideológico tão presentes em suas duas primeiras obras. Em Os Charutos do Faraó, essa postura é muito clara, e salvo alguns eventos inverossímeis, o autor conseguiu realizar um ótimo trabalho.O primeiro álbum da história (em preto e branco) saiu em 1934, e sua versão colorida, em 1955. A aventura de Tintim, desta vez, acontece no Oriente, e embora sua partida inicial não fosse em direção ao Egito, ele acaba aportando no país e tem contato com os misteriosos charutos, um elemento que terá um desfecho admirável.

A questão do tráfico e do crime organizado voltam a ser trabalhados pelo autor, mas tanto no Egito quanto na Índia, ganham as cores artísticas e narrativas próprias desses locais. Percebemos um desligamento político-ideológico do roteiro na maioria da história, cabendo apenas a colocação exótica do Oriente, quase com um olhar de deslumbramento e novidade da parte de Tintim, que evidentemente é reflexo do autor.

A arte e a proposta da linha clara, tem aqui a sua primeira representação louvável na obra de Hergé. Os traços finos e sem variação de espessura ao longo do álbum, seja para diferenciar personagens, seja para diferenciar cenários, ganha mais importância porque os ângulos e paisagens escolhidos pelo autor são bastante representativos e chamativos, característica salientada pelas cores.

Os diálogos diretos e um pouco mais longos em alguns momentos não incomodam tanto quando em Tintim no Congo, por exemplo, e são ágeis, tornando o álbum o tempo inteiro cheio de novidades e ação, especialmente porque aqui temos a incursão de personagens importantes para a mitologia das Aventuras de Tintim: os agentes Dupont e Dupond, e Rastapopoulos, o cineasta-mafioso por traz do cartel do ópio desmascarado por Tintim nessa aventura. O interessante é que a despeito da simpatia aparente, percebemos que Hergé planta uma série de pistas que nos faz chegar à conclusão de que este dono do Estúdio Cinematográfico Cosmos é na verdade um criminoso sagaz e que certamente dará as caras em aventuras futuras.

Os Charutos do Faraó é a primeira obra excelente de Hergé e o início de aventuras mais maduras de Tintim, narrativa e artisticamente falando. Um novo tempo se apresentava para o jovem repórter.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.