Crítica | Os Contos de Beedle, o Bardo – de J.K.Rowling

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estrelas 3,5

Em 2007, Rowling publicou o último volume da saga milionária iniciada dez anos antes: Harry Potter e as Relíquias da Morte. Entretanto, embora parecesse o fim do universo criado por ela em 1997, hoje se sabe que não foi bem assim: vieram criações como Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, o site interativo Pottermore e, junto com ele, diversos textos inéditos sobre o mundo bruxo. Nessas obras produzidas pós-relíquias, inclui-se Os Contos de Beedle, o Bardo, publicado em 2008. O livro que Hermione Granger herdou de Dumbledore foi “traduzido por ela das runas originais” nessa versão “pela primeira vez vendida para trouxas”. Os contos de Beedle, o bardo também conta com uma introdução da própria Rowling e notas de Alvo Dumbledore após cada um dos cinco contos infantis que o compõem.

Essa aura de realidade que permeia o livro é uma das apostas de Rowling para o volume. Na introdução, ela explica por exemplo como teve acesso às anotações de Dumbledore, já falecido à época da publicação – é claro. O objetivo é, obviamente, fazer com que o leitor costumeiro de Harry Potter se identifique, se sinta em casa, mesmo lendo histórias completamente diversas, com outros personagens, focos e cenários. Nesse sentido, vale ressaltar que os comentários de Dumbledore, além de discutirem o próprio conto, frequentemente trazem fatos históricos, referências, citações, notas de rodapé e acontecimentos do cotidiano de Hogwarts.

Os contos de Beedle, o bardo trata-se de um livro de contos de fadas, afinal. Como dito em Relíquias da Morte, são histórias que as crianças bruxas escutam antes de dormir e que permeiam seu imaginário, tal como Cinderela e Bela Adormecida fazem com as crianças trouxas. E, não à toa, algumas semelhanças são inevitáveis: a virtude premiada e o vício castigado, isto é, a moralidade comum em histórias para crianças, marca presença a maior parte do tempo. Por outro lado, há algumas diferenças notáveis em relação aos nossos contos de fadas; em primeiro lugar, as personagens femininas em geral são mais proativas, fortes e determinadas que as princesas clássicas. Além disso, o conto “O coração peludo do mago” tem um elemento macabro atípico em histórias infantis, e um desfecho trágico e chocante, bem longe do conhecido “felizes para sempre”. Como Dumbledore defende em uma de suas notas, as crianças não devem ser subestimadas nem tratadas com demasiada indulgência – e as histórias que fazem isso são abomináveis. Assim, considera-se que a formação das crianças também passa por mundos menos cor-de-rosa do que alguns autores e histórias nos fazem crer.

O primeiro conto, “O bruxo e o caldeirão saltitante”, traz uma mensagem de amor e generosidade em relação aos trouxas; por isso, segundo Dumbledore, foi queimado e rechaçado por muitas famílias bruxas, especialmente dado que Beedle escreveu no século XV – quando a perseguição aos bruxos se intensificava. Ainda assim, vê-se um bruxo inicialmente egoísta e insensível, que só consegue a paz quando passa a usar sua magia para o bem de outras pessoas (não mágicas). O recado, afinal, não é muito diferente do que a saga Harry Potter – e a grande parte dos contos de fadas – defende: igualdade, generosidade, triunfo do bem e do amor.

O segundo conto, “A fonte da sorte”, é mais interessante. Tem como protagonistas três bruxas que buscam a fonte do título como solução para seus problemas de naturezas diversas. Na busca por ela, porém, empreendem uma jornada de autoconhecimento e evolução que lhes permite resolver seus dilemas mesmo sem a fonte. A ideia de que a jornada prepara o herói, mais do que qualquer artefato, é bastante relevante. Mas, segundo Dumbledore, o conto também é alvo de críticas na comunidade bruxa devido à presença de um romance entre uma bruxa e um trouxa (!).

O conto seguinte, “O coração peludo do mago”, trata da busca da invulnerabilidade. Um mago que considera o amor um sinal de fraqueza usa magia das trevas para manter seu coração trancado numa caixa e, assim, manter-se imune às paixões. Entretanto, a animalização que ocorre a esse coração desprovido de sentimentos determina o fim trágico da narrativa, com direito a uma cena sinistra e perturbadora. Segundo as notas de Dumbledore, o conto é horripilante o suficiente para que muitas famílias não o leiam para suas crianças; ainda assim, é uma história interessante e, sem dúvida, uma das mais profundas narrativas do livro, uma vez que tem um viés mais complexo.

O penúltimo conto, “Babbitty, a coelha, e seu toco gargalhante” parte de uma temática comum no mundo trouxa: a ignorância de quem teme e cobiça a magia. Um rei manda perseguir os bruxos do reino, ao mesmo tempo em que deseja tornar-se capaz de fazer magia. Dessa forma, contrata um charlatão que, por sua vez, envolve uma verdadeira bruxa – Babbitty – na armação. Essa história tem elementos já conhecidos dos fãs de Harry Potter, como a presença de um animago, e reitera que há coisas que nenhuma magia é capaz de fazer: vencer a morte é a principal delas.

Tal mensagem, cerne do último e já conhecido “O conto dos três irmãos”, é notável na medida em que, nos contos de fadas tradicionais, a magia costuma ser um elemento no centro dos problemas e/ou soluções. Ora, se Os contos de Beedle, o bardo traz como personagens basicamente bruxos e bruxas, não haveria problemas não solucionáveis. No entanto, como Cornélio Fudge diz ao primeiro-ministro britânico em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, “o outro lado também sabe fazer mágicas”.

Os contos de Beedle, o bardo tem uma premissa interessante. Afinal, além de trazer os contos infantis bruxos, as semelhanças entre estes e os trouxas – a busca pelo poder, o medo da morte, a importância do amor – torna-se cada vez mais palpável. Afinal, traços de humanidade não distinguem presença ou ausência de magia. Contudo, depois de conhecer “O conto dos três irmãos”, sem dúvida uma história maravilhosa, é um pouco decepcionante ver que Rowling não consegue manter o padrão nas demais narrativas. Em geral, os contos são mais fracos que a história das relíquias da morte poderia fazer supor. Há que se considerar certo descompasso no público-alvo: afinal, o livro é supostamente infantil, mas seu público com certeza será majoritariamente formado por fãs já crescidos de Harry Potter. Ainda assim, nenhuma das histórias igualam o último conto – esse sim, uma criação marcante e inesquecível.

Os contos de Beedle, o Bardo (The tales of Beedle the Bard) – Grã-Bretanha, 2008
Autor: J.K.Rowling
Publicação: Editora Rocco, 2008
107 Páginas

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.