Crítica | Os Cowboys (2015)

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estrelas 4

Inspirado pelo clássico Rastros de Ódio, de John FordOs Cowboys é um daqueles filmes que nos pegam de surpresa, que inicia de forma descontraída e rapidamente se transforma em uma jornada de atmosfera opressora, que lida com questões atuais relacionadas ao preconceito e ao choque étnico existente não somente entre países como dentro de uma própria nação. A surpresa não vem somente pelo clima de tensão que rapidamente se instaura, como pela surpresa que o roteiro nos guarda quando chegamos ao meio da projeção, demonstrando bastante coragem do texto de Noé Debré e Thomas Bidegain, que também assina a direção, sendo este seu primeiro trabalho nesta posição.

A trama gira em torno de Alain (François Damiens) e Georges Balland (Finnegan Oldfield), pai e filho que têm suas vidas reviradas quando a filha mais velha desaparece de um dia para o outro. Não demora muito para descobrirem que ela fugiu com seu namorado muçulmano. Ambos iniciam, portanto, uma jornada, aparentemente, sem fim, à procura da menina. Brincando com nossas expectativas, o longa trabalha com épocas diferentes e descobrimos que há mais em xeque do que apenas a procura pela garota: Georges precisa encontrar seu verdadeiro papel naquele mundo, tendo de enfrentar perigosas situações no meio do caminho.

Embora efetivamente não tenha nada a ver com o que estamos acostumados a ver no western, a obra faz uma clara homenagem ao gênero, algo que deixa claro desde o início da projeção, que começa em um festival de música country na França. O filme se situa, na grande maioria, na Europa, mas sentimos como se estivéssemos no Velho Oeste americano em inúmeras situações, especialmente com a jornada silenciosa e violenta de pai e filho, que a qualquer momento pode significar o estouro de um conflito, sensação que é intensificada pelo fato de eles parecerem estrangeiros nos lugares que procuram pela menina.

Thomas Bidegain e Noé Debré fazem o ótimo trabalho de colocar o terrorismo em segundo plano – desde o início a possibilidade da filha estar envolvida com um grupo radical existe, mas a certeza jamais vem, nos colocando na estranha posição de questionarmos nossas próprias expectativas, lidando, portanto, com a questão do preconceito acerca dessa religião e cultura. A questão se intensifica a tal ponto que não sabemos dizer se Georges está fazendo a coisa certa, ou se deve simplesmente deixar sua irmã de lado. Mas, como dito antes, a obra lida justamente com a própria procura pela sua identidade, seu propósito na vida, o que se encaixa perfeitamente com essa questão.

Embora seja seu primeiro trabalho como diretor, Bidegain demonstra muita confiança, sabendo exatamente quando utilizar uma câmera na mão a fim de transmitir uma maior sensação de instabilidade. Sentimos como se estivéssemos ao lado dos personagens em sua procura, visto que os planos focam quase que exclusivamente neles ou em seus pontos de vista, raramente fugindo dos focos que são o pai e, depois, o filho. É digno de nota, também, como ele não opta por didatismos ao longo da projeção, visto que as maiores elipses temporais são marcadas por cortes secos, fazendo com que o espectador se mantenha atento em todos os momentos.

Infelizmente, algumas dessas transições bruscas provocam uma leve ruptura no ritmo da obra, visto que sua narrativa adquire um modelo episódico, que pede que sejamos imergidos novamente a cada elipse. No entanto, a urgência criada pelo roteiro consegue realizar tal feito sem o menor problema, transformando a forma capitular do enredo em uma questão menor, que apenas dilata um pouco a duração do longa metragem, passando a sensação de que ele é maior do que verdadeiramente é.

O trabalho fotográfico de Arnaud Potier corrobora a decisão do diretor de criar um maior naturalismo em cena, por meio da iluminação natural, que marca a maior parte das sequências. Dito isso, ele sabe a medida certa para não escurecer demais os planos nas tomadas noturnas e a já citada câmera na mão não peca por ser tremida demais, transmitindo apenas a sensação almejada pela composição  de cena, que, como já falado antes, procura nos transportar para dentro da tela.

Os Cowboys, longa-metragem de estreia de Thomas Bidegain, consegue, portanto, ser uma bela homenagem a um gênero que marcou profundamente a história do cinema, ao mesmo tempo que sabe explorar novos caminhos, lidando com questões atuais, especialmente considerando toda a crise de refugiados da Síria e as recentes medidas relacionadas à imigração realizadas por Donald Trump. Com uma história que certamente nos mantém atentos do início ao fim, apesar de sua estrutura episódica, temos aqui um filme que merece ser assistido, já que faz nos questionar nossos próprios preconceitos.

Os Cowboys (Les Cowboys) — França/ Bélgica, 2015
Direção:
 Thomas Bidegain
Roteiro: Thomas Bidegain, Noé Debré
Elenco: François Damiens, Finnegan Oldfield, Agathe Dronne, Ellora Torchia, Antoine Chappey, Maxim Driesen,  Jean-Louis Coulloc’h
Duração: 104 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.