Crítica | Os Croods

estrelas 4

Filho de um estúdio que há anos vem apostando em histórias familiares com lições de moral diversas e, em boa parte, recorrentes, Os Croods é um amálgama de situações e composição estética que vão de Shrek (o tema dos brucutus desastrados com um grande coração) até A Lenda dos Guardiões (o peculiar e inventivo trabalho imagético, tanto no quesito “invenção de mundos” quanto no quesito “arte & cores”). O resultado não poderia ser nada além de um longa divertido, com visual deslumbrante e, seu ponto fraco, o martelar dos elementos morais que ressaltam o caráter batido da história, mesmo que admitamos ser bem contada.

Considerando a leva recente das animações computadorizadas da DreamWorks, Os Croods é uma bem-vinda surpresa no que se refere ao modo de apresentação da história e sua relação com o todo. O roteiro não é marcado por diálogos sensacionais – a história tem um caráter mais físico-imagético do que textual – porém, o pouco que é dito funciona bem dentro da proposta e nos faz estender inúmeras relações com links externos, tais como o Mito da Caverna, a evolução, a extinção, a deriva continental e a noção de família em pleno Paleolítico (gosto muito de reescritas históricas), ponto a partir do qual o texto se afunila para arranjos morais e valores éticos, contextos bonitos, é verdade, mas jogados sem moderação para o público, o que acaba incomodando o espectador pelo caráter clichê que tem no final.

O ponto de partida do filme é a ideia de proteção dos Croods em um mundo hostil. Viver dentro da caverna, ter medo de tudo quanto é novo e fugir do escuro são exemplos de como a família e especialmente o seu líder (Grug, voz original de Nicolas Cage) passam os anos. O modo de caça desses simpáticos Neandertais é o mais selvagem possível e brinca com uma referência mitológica “libere o bebê [Kraken]!” e outra desportiva: o futebol americano.

Fora isso, temos poucas indicações do cotidiano da família, e devo dizer que os diretores acertaram quando escolheram o “contar histórias” ligado à arte rupestre para constar como um desses raros momentos do dia a dia. O ritmo mais lento da montagem também ajuda a criar uma atmosfera de estagnação, destacando ainda mais a vida após a chegada de Guy (um Homo Sapiens – e para que não haja dúvidas: sim, Neandertais e Sapiens conviveram juntos por um tempo) à caverna dos Croods.

O impasse causado pelo senso de liberdade de Eep, a filha mais velha (e Princesa Mérida da DreamWorks), e os valores familiares de Grug, o patriarca, geram o contexto familiar emotivo que pauta o final da história. Nesse contexto, o caminho percorrido por todos os integrantes da família acaba sendo o de de superação e aprendizado, embora apenas três deles se destaquem nesse ponto: Grug, Eep e Guy. Não é necessário estender uma análise apontando a semelhança dessa situação com roupagens já vistas por nós em outros lançamentos do estúdio como o já citado Shrek, mas também em Os Sem-Floresta, Madagascar, Como Treinar Seu Dragão e Megamente.

O que supera essa camada de “já vi antes” é a qualidade técnica do longa, embora isso seja subjetivo, uma vez que para certos espectadores, algumas falhas nunca conseguem ser superadas em um filme. Mas Os Croods é bem mais do que uma retomada de valores da casa de onde ele nasceu. Se olharmos para o cuidado na construção de cenários, o humor visual e a torrente de referências e ironias em cenas como o primeiro encontro de Eep e Guy; o alumbramento dos Croods ao ver uma floresta pela primeira vez; a passagem pelas plantas carnívoras; Grug e Guy atolados no piche e “o fim do mundo”, veremos que a diversão vai além da beleza do que está na tela, das cores em alto contraste e brilho, do notável número de detalhes – especialmente em destruições de rochas – ou da ótima trilha de Alan Silvestri.

Os traços mais rústicos e disformes para as personagens de Os Croods possuem uma justificativa paleontológica de concepção, embora algumas pessoas clamem por verossimilhança de aparência entre esses trogloditas e a atual fase de nossa espécie. A mesma coisa se dá em relação ao ambiente em que a aventura se passa. Mesmo que a estrutura do lugar tenha mais a ver com Avatar do que com a Terra, a recriação de fauna e flora exóticas condiz perfeitamente com o período, e dentro do universo do filme, couberam com uma luva.

Mesmo com problemas de roteiro, Os Croods se destaca em meio as animações lançadas em 2013. O interessante é que o filme não tem aquele caráter de apreciação apenas para o público infantil, podendo ser visto e entendido de forma diferente dependendo do espectador. Quem diria que uma animação ambientada na Pré-história pudesse ser tão boa?

Os Croods (The Croods) – EUA, 2013
Direção: Kirk De Micco, Chris Sanders
Roteiro: Kirk De Micco, Chris Sanders, John Cleese
Elenco (vozes originais): Nicolas Cage, Emma Stone, Ryan Reynolds, Catherine Keener, Cloris Leachman, Clark Duke, Chris Sanders, Randy Thom.
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.