Crítica | Os Defensores – 1ª Temporada

estrelas 2,5

– Contém spoilers apenas das temporadas de Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro. Leiam, aqui, o Entenda Melhor com todas as referências e easter-eggs da temporada.

A parceria entre a Marvel e a Netflix teve um excelente começo com a primeira temporada de Demolidor. Desde então, contudo, a qualidade das séries, fruto dessa união, tem se demonstrado oscilante e, após o terrível primeiro ano de Punho de Ferro, nossas expectativas para o que viria a seguir foram consideravelmente baixadas. O problema é que, justamente depois desse fiasco, viria Os Defensores, o esperado seriado que uniria todos os personagens apresentados em suas séries solo. Dito isso, assim como fora o caso do primeiro Os Vingadores, a Marvel contava com a difícil obrigação de acertar nesse grande team-up.

Como esperado, a trama se passa alguns meses após os eventos da primeira temporada de Punho de Ferro. Danny Rand (Finn Jones) e Colleen Wing (Jessica Henwick) estão à caça do Tentáculo, tarefa que prova ser praticamente impossível, o que os leva por diversos locais ao redor do mundo. Enquanto isso, Matthew Murdock (Charlie Cox), Jessica Jones (Krysten Ritter) e Luke Cage (Mike Colter), que acabou de sair da prisão, também acabam se envolvendo, cada um, com o sombrio grupo. Restam a eles, então, unirem-se para impedir os planos de Alexandra (Sigourney Weaver), integrante do Tentáculo, cujos objetivos podem levar à destruição de Nova York.

Os temores de que Os Defensores acabaria seguindo pelo mesmo caminho de Punho de Ferro começam a se concretizar logo nos episódios iniciais. Com um ritmo nitidamente lento, repleto de momentos desnecessários que apenas dilatam a temporada como um todo, o seriado conta com um começo bastante devagar, deixando, porém, sempre a esperança de que esse ritmo irá acelerar em algum momento. Infelizmente, isso jamais acontece. Existem, sim, breves momentos mais ágeis, mas esses são acompanhados por toneladas da mais pura enrolação, com linhas e linhas de diálogos simplesmente se repetindo incessantemente. Para enxergar isso, basta pegar o exemplo de Danny Rand, cujas falas podem ser resumidas a: “eu sou o Imortal Punho de Ferro” e “vocês não têm ideia do poder do Tentáculo”.

Mesmo com uma trama espalhada por oito episódios, sendo que poderia facilmente ser resolvida, na íntegra, em apenas três, a série ainda nos entrega alguns pontos que merecem destaque. O primeiro desses é a interação entre núcleos do grupo principal. Quando todos juntos, a não ser que estejam lutando, tudo o que fazem é discutir, em geral sobre os mesmos pontos. Quando estão divididos em duplas, porém, tudo flui de maneira mais orgânica, proporcionando-nos com alguns momentos bastante cômicos, mas sem exageros, que aproveitam as diferenças entre cada um deles, além de deixar pontas para futuros team-ups (Luke Cage e Punho de Ferro, por exemplo).

Outro aspecto positivo é a forma como os personagens coadjuvantes são bem utilizados. Salvo um ou outro caso, todos já foram apresentados nas séries anteriores, o que possibilita que nos importemos mais com esses indivíduos, ainda que os de Demolidor certamente saiam na frente dos outros, tanto pela qualidade da série quanto pelo fato dele já ter duas temporadas. É gratificante enxergar como os roteiristas conseguem garantir a esses personagens papéis de destaque na série, cumprindo funções-chave dentro da narrativa, tudo enquanto suas histórias pessoais são respeitadas.

Já que citamos os novos indivíduos introduzidos, não há como não destacar o trabalho da excelente Sigourney Weaver, eterna Ellen Ripley, que rouba a cena como uma das principais antagonistas do seriado. Embora faça parte do Tentáculo, ela se destaca pela forma humana como é apresentada, não sendo puramente a representação da maldade, como é o caso dos infinitos ninjas da segunda temporada de Demolidor. Weaver empresta classe, mistério e a dose certa de ameaça à sua personagem, o que apenas nos entristece, visto que ela poderia ter sido muito melhor utilizada ao longo dessa temporada.

Nada, contudo, simboliza o grande desperdício como as sequências de ação da série. Não se trata nem de um problema nas coreografias, ainda que essas deixem a desejar, vide os momentos em que determinada personagem balança a espada pelo ar como se não tivesse a menor intenção de acertar alguém, ou dos inúmeros socos que nitidamente não se chocam com qualquer coisa. O grande problema está no excesso de cortes, que nos impede de entender o que está acontecendo na grande maioria dessas cenas. É praticamente impossível ter noção de espaço quando a ação começa e a confusão é tamanha que torcemos para que tudo passe mais depressa, tendo sempre aquela vontade de avançar para as cenas de maior tranquilidade.

Claro que os trechos mais calmas da série não são ajudados pela montagem burocrática, que pula de personagem em personagem quase que seguindo uma ordem específica. Felizmente, tal problema acaba indo embora quando o grupo se une, permanecendo somente as transições mais “artísticas”, que parecem ter sido tiradas de canais de Youtube, funcionando apenas para quebrar nossa imersão e constatar a óbvia mudança de foco para outro personagem, como se o espectador não tivesse cérebro o suficiente para entender isso. Ao menos a fotografia nos distancia, em certos pontos, dessa tragédia, sabendo empregar filtros e iluminação que bem representam cada um dos personagens centrais – algo que, claro desaparece quando estão juntos.

Tais elementos em conjunto fazem de Os Defensores uma série superior a Punho de Ferro. Portanto, é seguro afirmar que nossos medos não se concretizaram por completo. Dificilmente, porém, podemos categorizar essa primeira temporada como um acerto, visto que seus muitos deslizes são tão evidentes quanto suas qualidades, de tal forma que não conseguimos, verdadeiramente, nos envolver com a narrativa apresentada, embora consigamos, sim, nos divertir ocasionalmente. Trata-se de uma experiência esquecível, genérica, que apenas nos mostra o quanto a parceria entre a Marvel e a Netflix perdeu o seu rumo.

Os Defensores – 1ª Temporada (The Defenders) — EUA, 18 de agosto de 2017
Showrunner: 
Marco Ramirez
Direção: S. J. Clarkson, Peter Hoar, Phil Abraham, Uta Briesewitz, Stephen Surjik, Félix Enríquez Alcalá, Farren Blackburn
Roteiro: Douglas Petrie, Marco Ramirez, Lauren Schmidt Hissrich, Drew Goddard
Elenco: Charlie Cox, Krysten Ritter, Mike Colter, Finn Jones, Jessica Henwick, Rosario Dawson, Sigourney Weaver, Elodie Yung, Elden Henson, Wai Ching Ho,  Simone Missick, Rachael Taylor, Scott Glenn,  Eka Darville, Carrie-Anne Moss, Deborah Ann Woll
Duração: 8 episódios de aprox. 50 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.