Crítica | Os Dentes do Diabo, de Susan Casey

Os Dentes do Diabo é um livro que pode vender a ideia errada. Aos desavisados, os dentes do título não estão ligados aos tubarões-brancos, mas ao nome dado popularmente para as Ilhas Farallones, único local do planeta onde é possível estudar o “comportamento” da espécie que habita o nosso imaginário com mais força desde o filme de 1975, sem tantas interferências como em outros pontos que banalizaram a relação dos humanos com os animais marinhos.

Escrito por Susan Casey, jornalista famosa pelo best-seller A Onda, profissional premiada que já teve reportagens veiculadas nas revistas Esquire, Outside e National Geographic, o seu destino em Os Dentes do Diabo é as ilhas citadas anteriormente, local situada a pouco mais de 40 quilômetros da ponte Golden Gate, ícone de São Francisco, na Califórnia, ambiente tão próximo da civilização, mas que se comporta como um mitológico compartimento do planeta Terra, avesso aos terríveis métodos de interferência dos seres humanos.

Ela descreve a ilha, logo nos momentos iniciais, como “um castelo de cartas, uma confluência complexa entre oceano, mamíferos, aves e tubarões num ambiente sublime”, e mais adiante, complementa, contando a história que deu nome a ilha. Conforme seu relato, os marinheiros chamavam a ilha assim por conta dos seus perigos náuticos e também por conta da aparência misteriosa e assombrosa. O primeiro europeu que teria chegado ao local, em 1579, batizou de Ilha St. James, mas o nome não pegou. A versão mais sensacionalista e misteriosa acabou por ser o nome mais marcante, título merecido para um lugar com “clima inóspito, ventos que açoitam os visitantes, trilhas íngremes, muita névoa e ondas com até cinco metros”.

A abertura é poderosa e utiliza duas ótimas referências: Nietzsche e Steinbeck, filosofia e literatura em duas grandes medidas. Do primeiro, o seguinte excerto estabelece o tom: “a humanidade é exaltada não por estarmos tão distantes das demais criaturas vivas, e sim porque o ato de conhecê-las bem eleva o próprio conceito de vida”. Do segundo, reforça o tom filosófico, ao expor o seguinte excerto: “um oceano sem seus monstros incógnitos seria como um sono sem sonhos”. Os tubarões, em especial, a espécie estudada no livro, são parte dos grandes mistérios oferecidos pela vida oceânica, um ambiente que os humanos ainda não conseguiram conhecer em sua totalidade.

Para a autora o homem avançou tanto em caminhos científicos, tais como as sondas em Marte e a análise do genoma humano, mas no que diz respeito aos tubarões, há muitos detalhes que são como uma incógnita. Assim como a leitura extensa do livro, os tubarões-brancos exigem paciência dos visitantes, pois mesmo com engodo e outras artimanhas dos pesquisadores, não é sempre que o fabuloso predador dos mares surge na superfície para ser contemplado pelos que tem a sorte de ver tamanho espetáculo da natureza. Casey conta, sempre com alguma referência ao cinema, que o local de um ataque de tubarão-branco é “tomado instantaneamente por uma revoada hitchcockiana de gaivotas, todas brigando para rapinar um aperitivo”.  A escrita culta e com presença dos laços de nosso imaginário cultural, bem empreendidos para adornar as reflexões do texto, são um dos pontos altos em Os Dentes do Diabo.

Dentre as diversas histórias sobre tubarões-brancos, cabe destacar a sua afirmação sobre os seres misteriosos representarem o nível mais próximo do que chegamos em relação aos dinossauros, além das motivações que impedem a presença da espécie em aquários. Numa análise panorâmica, Casey conta que as experiências do Sea World e de outros parques foram decepcionantes, com criaturas que sequer se alimentavam ou se prejudicavam muito no transporte do mar até o local, um aquário que acaba com as possibilidades de locomoção natural do animal. Por conta do sucesso de Tubarão nos anos 1970, o potencial de exibição de um “monstro” real era um assunto que fazia os empresários salivarem diante de tamanha possibilidade de retorno financeiro. Neste processo, ao menos 37 espécies pereceram, cinco no suntuoso Sea World.

Rapidamente, mas bem explicado e sem brechas, a autora entra na onda da consciência ecológica, explica os problemas que podem surgir diante da extinção dos tubarões-brancos, sem deixar de apontar a falta de consciência ecológica da humanidade há algumas décadas, ao narrar um espetáculo digno de um filme dramático. Ela conta que no Manly Marine World, depois da compra de um animal da espécie, os gestores perceberam que a presença de um tubarão-branco não estava dando certo para a adequada manutenção do aquário, pois além de comer outras espécies importantes para a exibição, a criatura quase devorou um treinador. O que fazer? Matar. E com direito ao espetáculo público, com venda de ingressos e cobertura jornalística. As pessoas fizeram filas enormes e os ingressos esgotaram para assistir a morte do maior predador marinho por intermédio do seu maior predador, isto é, o homem.

Os tubarões-brancos vão e voltam na narrativa. A sua ida é uma busca por ver de perto o animal marinho que a autora considera fascinante, mas ao mesmo tempo, tendo em mira a sua veia investigativa de jornalista, Casey faz um amplo, e ás vezes, exaustivo, estudo das questões geográficas, biológicas e históricas do local. É curioso, mas um tanto dúbio no quesito leitura, pois em determinados trechos a escrita fascina e envolve, nos fazendo mergulhar de cabeça na história narrada, mas em muitos outros, há uma cansativa tentativa de descrever tudo minuciosamente, como se autora estivesse vinculada ao estilo romântico literário, com muitas digressões e lentes de aumento para um molusco ou uma ave que passou próxima de uma das embarcações, dentre outras coisas do tipo.

Ao longo das 314 páginas da edição brasileira, espetacularmente bem traduzida por Diego Affaro, a diagramação é ótima, bem cuidada e sem itens que poluem a publicação e atrapalham a leitura. O único elemento que fica nas boas intenções, mas naufraga impiedosamente, é a capa do design Sergio Campante, sensacionalista, vulgar e imediatista, a imagem selecionada está mais para um dos filmes exagerados sobre tubarões, distante da destreza literária da autora, num trabalho que lembrou muito a escolha equivocada da capa de Dez Anos em Busca dos Grandes Tubarões, de Lawrence Wahba.

Os Dentes do Diabo (Estados Unidos, 2012)
Autor: Susan Casey
Editora no Brasil: Zahar
Tradução: Diego Affaro
Páginas: 314.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.