Crítica | Os Desajustados (1961)

estrelas 3

Acostumado a dirigir aventuras de pessoas que levam a vida sem freios, John Huston já havia ofertado ao mundo, clássicos como Relíquia Macabra e Moby Dick, ótimos desempenhos nas bilheterias. Com Os Desajustados, o realizador não conseguiu alcançar bons resultados financeiros (a produção custou U$4 milhões), mas colecionou críticas positivas, principalmente no que tange à atuação de Marilyn Monroe, mais consciente da sua carga dramática e distante do estereótipo de “loira burra”, fama alcançada graças aos seus filmes antecessores.

Quando decidiu assumir a direção deste filme, John Huston já havia garantido um espaço confortável dentro da indústria do cinema, o que se prolongou até os anos 1980. Foi indicado cinco vezes ao Oscar de Melhor Diretor, ganhou o Leão de Ouro pelo conjunto da obra, em 1985, sendo indicado ao prêmio Framboesa de Ouro apenas em 1982, pelo trabalho de direção no irregular.

Com um visual brilhante, mas um texto pessimista, o roteiro assinado pelo competente Arthur Miller (antes no formato conto) nos mostra a trajetória de Roslyn (Marilyn Monroe), uma mulher amarga e recém-divorciada que se  apaixona por Gay Langland (Clark Gable), um cowboy rabugento e grosseiro. De comportamento frio, Langland parece ser tudo que a mocinha não precisa, mas logo os sentimentos entram em ebulição e uma (desbotada) história de amor toma conta da narrativa.

Como já é de se esperar, conflitos surgirão para colocar os sentimentos à prova. Há a presença de dois amigos bem próximos do cowboy, ambos quase ameaçadores para o bom desempenho do relacionamento. Pessimistas, os personagens assumem muito bem o que promove o título da produção: são totalmente “desajustados” do mundo que os acolhe. Indiferença do marido, um divórcio que impede a aproximação dos filhos e um combatente de guerra cheio de cicatrizes internas, em suma, experiências ruins que tornam a vivência dos personagens frívola e com pouco sentido.

Na seara dos conflitos, há ainda outro problema. É o trabalho desenvolvido por Langland, algo que desagrada totalmente Roslyn: a caça de cavalos selvagens com intuito de utilizá-los para alimentação de animais domésticos, como por exemplo, cães e gatos, profissão que vai proporcionar ao filme uma cena belíssima próxima ao seu final, com enquadramentos e movimentação de câmeras numa simbiose virtuosa.

Por falar em aspectos técnicos, através de grandes planos gerais, Os Desajustados é um filme que aposta em fórmulas já datadas na década de 1960, mas ainda eram garantia de sucesso: no Deserto de Nevada, nos Estados Unidos, a produção capta a sensação árida do espaço cênico através do modo que os personagens levam as suas respectivas vidas. Apesar da estrutura narrativa “básica”, há outros detalhes que merecem destaque, como a fotografia de Russel Metty e a trilha sonora de Alex North funcionam bem.

“Parece que o sol acabou de aparecer”, afirma com graciosidade um dos personagens de Os Desajustados, clássico hollywoodiano que trouxe os ícones Clark Gable e Marilyn Monroe juntos, em suas performances derradeiras no cinema. A frase exclamativa, que pode ser entendida claramente como um elogio, foi direcionada a Monroe, uma atriz que na época colecionava polêmicas na mídia, ora por seus relacionamentos escandalosos, ora por suas atitudes e ataques de insegurança nos bastidores de diversas produções.

Muitos historiadores afirmam que o roteiro do filme foi “feito” na medida para a musa do cinema. Monroe e Miller estavam casados na época das filmagens, mesmo com tantos problemas internos na relação. A personagem Roslyn vinha de um divórcio que demarcara a sua vida dentro do tempo narrativo, assim como Monroe. Outro ponto de aproximação é a questão dos maus-tratos aos animais, uma coisa que a atriz deixava claro o sentimento de ojeriza: esse, inclusive, é um dos tópicos que mais trouxe conflitos entre os personagens da dinâmica fílmica.

Os Desajustados, como apontado, não é um primor narrativo, mas cumpre a sua função como importante ícone dentro da história do cinema, pois foi o último filme de Clark Gable e Marilyn Monroe, atores que morreram logo depois do lançamento. Alguns relatos apontam que Gable costumava dizer pelo set que “morreria de infarto”, por causa dos atrasos crônicos da atriz durante as filmagens. Ironia ou não, o ator faleceu de um ataque cardíaco uma semana após o término das filmagens. No caso de Monroe, morreu no ano seguinte, ainda muito jovem, aos 36 anos, vítima de uma overdose que é alvo de teorias conspiratórias até a contemporaneidade.

Os Desajustados (The Misfits, EUA/1961)
Direção: John Huston.
Roteiro: Arthur Miller.
Elenco: Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Thelma Ritter, Eli Wallach, James Barton, Kevin McCarthy, Estelle Winwood.
Duração: 125 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.