Crítica | Os Deuses da Peste

estrelas 4,5

Nesta segunda parte de sua “trilogia sobre filmes de gângster” Fassbinder adota um tom bastante parecido com aquele de O Amor é Mais Frio Que a Morte, talvez trazendo um pouco mais de calor aos relacionamentos, mas ainda estabelecendo entre os personagens um distanciamento como o de um animal que se aproxima temeroso de um humano só por curiosidade ou algum tipo de benefício aparente.

Em uma análise apressada poderíamos facilmente entender o longa como uma disfuncional rede “familiar” ou “fraterna”, possivelmente porque as relações entre os personagens são melhor ampliadas pelo roteiro e a forma do filme brinca com nossa percepção nesse sentido, cria uma rede de relações que, de fato, não existe – ou pelo menos não como fomos levados a acreditar que existia.

Por mais que vejamos demonstrações de amizade entre os personagens, percebemos que eles são ainda mais desapegados a médio e longo prazo, o que estabelece um paradoxo interessante para a trama. Ao mesmo tempo que os vemos festejar a chegada de alguém que não viam há tempos, os mesmos personagens parecem não se importar um com o outro após o reencontro, agindo apenas mecanicamente ou por interesse (o policial que tem um caso com Johanna apenas para chegar a Franz; a indiferente reação de Franz à morte do irmão ou mesmo o seu relacionamento com a noiva, a mãe, a ex-namorada e Günther ‘Gorila’, o amigo e possivelmente amante).

Essas relações interpessoais encontram na direção de Fassbinder um estilo em formação mas já com elementos próprios em cena, algo que não víramos na estreia do diretor ou mesmo em O Machão. O aparecimento de espelhos como reflexo e refração; a opacidade seletiva que faz um jogo entre o duplo humano, a sociedade e as “prisões pessoais”; a tragédia como índice de maturidade e fatalidade obrigatória; as mulheres sofredoras em oposição a outras que parecem ter o benefício frequente da sorte, embora todas sejam fracassadas de alguma maneira… todos esses pontos já estão presentes em Os Deuses da Peste, fazendo desse filme o primeiro mais bem acabado do período em que o diretor ainda tinha os dois pés no antiteatro e, claro, a atmosfera brechtiana como guia de seus roteiros.

O diretor se afasta um pouco mais da Nouvelle Vague, mesmo que ainda possamos estabelecer semelhanças ao longo da fita. A questão aqui é a rigorosa e paradoxalmente desleixada forma como o diretor plasma seu texto, dando pouco espaço para movimentos dentro do próprio cenário – a decupagem dos planos é praticamente zero e isso é interessantíssimo de se ver em cena – e colocando seus personagens em uma plataforma de interpretação rústica, basta vermos a estranha cena de luta entre Franz, Günther e Joe (sombra das brincadeiras entre Arthur e Franz em Bande à Part?), dois elementos que, juntos, fazem do filme um limpo exercício cinematográfico com toques de teatro e homenagens a Robert Aldrich (Com a Maldade na Alma) e Max Ophüls (Lola Montès).

O diálogo com o cinema noir ganha uma revisão estrutural e estética através do contexto homoerótico de uma parte da fita (e de maneira dúbia na relação entre Franz e Günther) e no uso das sombras e contraste entre claro e escuro não apenas como indicação de um ambiente opressor (a atmosfera aliada ao contexto) mas também como parte de um motivo pessoal desnudado nos personagens, como se eles tivessem em si mesmos essa relação de bom e mau, de sombra e luz, de música e silêncio. Peer Raben compreendeu isso perfeitamente e deu a Fassbinder temas breves e bastante sombrios, como se quisesse sugerir uma linha ainda mais obscura por trás daquilo que aparentemente estava claro demais.

É evidente que existe uma desesperança e um tédio à solta em todo o universo dos personagens do filme. A intenção de Fassbinder era trazer aqui, como fizera em O Amor é Mais Frio e como faria em O Soldado Americano, aquela mocidade perdida de O Machão, agora posta no controle de alguma coisa, mesmo que esse controle seja o do tráfico, da venda de informações e do próprio corpo, um ponto e um domínio que o roteiro ironiza desde o início e termina justamente no clímax de tal ironia, com um enterro patético ao som de uma boa versão de Bist du bei mir.

Os Deuses da Peste é o primeiro filme da “fase teatral” de Fassbinder a trazer de maneira clara elementos que seriam marca registrada do diretor no futuro. Sua disciplina espartana para escrever roteiros e dirigir (sem ensaios e sem repetições) fez com que ele chegasse a 10 filmes em apenas 4 anos de carreira, o que evidentemente abriu espaço para a sua maturidade precoce já a partir de 1971. É justamente neste ponto que vemos o motor de sua criatividade mais rigorosa começar a funcionar.

Os Deuses da Peste (Götter der Pest) – Alemanha Ocidental, 1970
Direção:
Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Hanna Schygulla, Margarethe von Trotta, Harry Baer, Günther Kaufmann, Carla Egerer, Ingrid Caven, Jan George, Lilo Pempeit, Marian Seidowsky, Micha Cochina, Yaak Karsunke
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.