Crítica | Os Diários de Carrie – A Série Completa

Sarah Jessica Parker, em um festival de cinema e durante um painel exclusivo, falou sobre a série Sex and The City. Em tom autocrítico, afinal, ela assumiu o cargo de produtora durante as seis temporadas, e comentou que seu personagem, Carrie Bradshaw, colunista do fictício New Yorker, foi uma mulher de seu tempo, talvez não mais encaixada com os dias atuais. Muito lúcida e coerente em seus argumentos, a atriz apontou que a série apostou pouco na análise de minorias, principalmente no que diz respeito às discussões sobre homossexualidade. Convenhamos, toda a razão, o que não impede de olharmos com ternura para o programa que revolucionou a televisão e levantou questões importantes sobre a mulher.

Apesar de ter terminado antes da primeira metade da década de 2000, Sex and The City constantemente é citada quando o assunto é mulher, consumo, sexo, quebra de paradigmas, dentre outros. Com as fronteiras limitadas no que diz respeito ir adiante, numa análise das personagens com idade mais avançada, o investimento dentro do universo de Carrie e das suas amigas veio por meio do formato spin-off, estratégia industrial que às vezes é eficaz quando não há muito o que se dizer sobre o futuro, mas há chances formidáveis de se aprofundar no passado de certos personagens. Foi o que aconteceu com Carrie durante duas temporadas. Depois de suas aventuras em busca do amor por Nova Iorque na fase adulta, passamos a conhecer a sua juventude, primeiras decepções e amores, desejos e anseios, um ambiente juvenil com cheiro de adolescência sem necessariamente ser idiota como muitas produções desta faixa etária.

Os Diários de Carrie baseia-se no livro homônimo de Candace Bushnell, produção que aborda a juventude da personagem, com história que começa em 1984. Carrie (AnnaSophia Robb) é uma garota estudiosa e apaixonada pela vida cosmopolita de Nova Iorque. Ela mora com o seu pai e Dorrit (Stefania Owen), a irmã mais jovem e rebelde. Diferente da versão adulta, Carrie mora com o pai e a mãe já faleceu. Na escola, sobrevivem aos dilemas comuns dos adolescentes: “será que ele me ama?”, “devo em entregar?”, “o que é o amor?”. Carrie se apaixona por Sebastian Kydd (Austin Butler), um jovem “problemático” que banca o James Dean contemporâneo, mas é um poço de delicadeza “por dentro”, precisa lidar com a sua rival, a “poderosa” Donna Ladonna (Chloe Bridges), além de ajudar os seus amigos na resolução de problemas dos mais variados.

Para dar conta dos créditos escolares, Carrie trabalha uma vez por semana em Nova Iorque, cidade que lhe fará encontrar com a irreverente Larissa Loughton (Freema Agyman), jovem empresária que parece conhecer todos os contatos importantes para alimentar os anseios futuros de Carrie. Larissa assume a editoria da revista Interview, veículo influente no meio musical, literário e de moda. Dividida entre seguir seus sonhos ou cumprir os requisitos do burocrático pai, a personagem segue a sua jornada do mesmo jeito que a versão adulta: repleta de inseguranças e incertezas, um traço bem característico não apenas de quem viveu a badalada década de 1980, mas para quem vive no mundo real, regido pelas leis do consumo, do capitalismo, etc.

Em seu clã temos Mouse Thompson (Ellen Wong) e Maggie Landers (Katie Findlay), as melhores amigas, grupinho que se completa com o delicado Walt Reynolds (Brendan Dooling), namorado de Maggie que descobriremos, sem muita surpresa, ser homossexual ainda no armário. Maggie enfrenta problemas com os pais, um relacionamento difícil que ressoa em seu cotidiano constantemente solitário, diferente de Mouse, uma garota ambiciosa e competitiva, dedicada e atenciosa com os amigos. Sebastian, o “Mr. Big” da versão adolescente, se apresenta como um rapaz que é carinhoso e bonito, dedicado a Carrie, mas vive metido em confusão constantemente, haja vista a sua afortunada, mas conturbada família. Dorrit, irmã da protagonista, é rebelde por conta da morte da mãe, mas mudará parte da personalidade entre a primeira e a segunda temporada.

Com episódios que tinham em média 42 minutos, as vivências a personagem em de Os Diários de Carrie tiveram apenas duas temporadas como oportunidade para brilhar. Criativa, doce e interessante, a atração ofertou um mergulho nostálgico nos anos 1980, com discussões relevantes sobre sexo na juventude, preservativos, imagem, ressonâncias da cultura pop na vida cotidiana e o impacto da AIDS na sociedade. As discussões sobre minorias apontadas por Sarah Jessica Parker tiveram a chance no subproduto, preocupado em divertir sem ser vazio e opaco intelectualmente.

Exibida entre 14 de janeiro de 2013 e 31 de janeiro de 2014, Os Diários de Carrie mergulha bem no clima dos anos 1980, graças ao trabalho musical de Mark Mothersbough, aos figurinos de Eric Daman, parte do eficiente departamento de Design de Produção, assinado por Malchus Janocko, Henry Dum e Loren Weeks, além da certeira direção de fotografia, gerenciada por John Thomas. Com episódios escritos por Terri Minsky, Doug Stockstill e Henry Alonso Myers, a série criada por Amy Harris e Candace Bushnell trabalha com vigor e brilho, histórias comuns que poderiam ser pouco expressivas ou demasiadamente bobas em mãos despreparadas.

Os Diários de Carrie – EUA, 14 de janeiro de 2013 e 31 de janeiro de 2014.
Showrunners:  Amy Harris, Candace Bushnell
Direção: Michael FieldsDaisy von Scherler MayerJanice CookeAndy Wolk, Norman Buckley, Andrew McCarthy
Roteiro: Amy Harris, Candace Bushnell, Terri Minsky, Doug Stockstill, Henry Alonso Myers
Elenco: AnnaSophia Robb, Katie Findlay, Ellen Wong, Brendan Dooling, Freema Agyman, Chloe Bridges, Stefania Owen, Austin Butler
Duração: 45 min (cada episódio)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.