Crítica | Os Dois Cavalheiros de Verona (1983)

estrelas 3,5

Os Dois Cavalheiros de Verona é uma das primeiras peças de Shakespeare, sendo considerada por muitos como sua primeira obra. Acredita-se ter sido escrita entre 1589 e 1592. A criação da peça foi influenciada pelo romance Los Siete Libros de La Diana do escritor português Jorge de Montemayor.

A trama da peça se inicia com um diálogo entre os dois cavalheiros: Valentine e Proteus. Valentine deseja ir a Milão para ganhar mais experiência e abrir seus horizontes e tenta convencer seu amigo a ir junto. Proteus, contudo, decide ficar devido a sua paixão pela donzela Julia, despedindo-se do companheiro.

Após a partida do amigo, somos apresentados a Julia, que tem muitos possíveis pretendentes, mas tem seu coração virado para Proteus. Seu amado, contudo, tão logo Valentine vai a Milão, também é intimado a ir por seu pai, para se tornar um homem através da vivência de mundo. Os dois amados, então, se despedem trocando juras de amor.

Quando chega a Milão, Proteus encontra seu amigo apaixonado por Silvia, filha do duque e tão logo a conhece, já partilha secretamente do amor do amigo. Proteus, então, provoca a expulsão de Valentine da cidade, para poder, em sua ausência, se tornar o pretendente de Silvia.

Nesse cenário se desenvolve a história da comédia que trata do conflito entre amor e amizade, através da inconstância e infidelidade de Proteus. Embora a história não seja assim tão marcante, ela apresenta diversos elementos que posteriormente voltarão em outras obras de Shakespeare, como uma personagem feminina que se veste de homem.

O filme dirigido por Don Taylor, parte da coletânea “The Complete Dramatic Works of William Shakespeare”, é uma transcrição quase que exata do material original, tendo os diálogos idênticos à peça. O inglês arcaico dificulta bastante a compreensão em primeira instância, tornando a leitura do livro em uma quase necessidade (de preferência previamente). Conforme o filme progride, contudo, vamos nos acostumando com os diálogos dos personagens.

Um fator que, por vezes, pode tirar o dinamismo da obra são as inúmeras divagações e solilóquios dos personagens, muitos dos quais poderiam ser encurtados ou até cortados do filme. O que funciona no teatro não necessariamente funciona na tela grande. Elas acabam deixando o longa-metragem demasiadamente extenso, passando de duas horas de duração. Felizmente dentro desses monólogos temos os de Launce (Tony Haygarth) e seu cachorro, que garantem boas risadas do espectador.

O inglês arcaico pode parecer um elemento que tira a verossimilhança do filme, facilmente podendo torna-lo uma extensa declamação. Todavia, através das ótimas atuações dos personagens, as falas se desenvolvem de maneira fluida – realmente passamos a acreditar que alguém podia falar daquele jeito. Tais atuações são bastante teatrais e, embora estejamos tratando de um filme, se encaixam perfeitamente na obra.

Grande parte da comédia do filme/ peça se dá através do jogo de palavras muito bem empregado. Isso fica muito claro nas ótimas conversa entre Launce e Speed, servos de Proteus e Valentine, respectivamente. As traições de Proteus confere uma dose de incredibilidade à história que a tornam ainda mais cômica. A única resguarda é o quase instantâneo perdão que recebe de seu amigo e de Julia, ambos vítimas da infidelidade do não tão cavalheiro.

A sutil e precisa fotografia do filme garante que simplesmente não veremos um teatro filmado e acrescenta bastante dinamismo às cenas com ótimas mise-en-scène. Isso, somado à trilha sonora instrumental composta por músicas típicas da era retratada, permitem uma boa imersão na obra.

Os Dois Cavalheiros de Verona não é um filme fácil de se ver. É uma fidelíssima adaptação da comédia de Shakespeare, que, embora não conte com uma excepcional história, irá cativar graças à atuação do ótimo elenco. Certamente vale a pena ser visto, principalmente para os leitores da obra original.

Os Dois Cavalheiros de Verona (The Two Gentlemen of Verona) – UK, 1983
Direção: Don Taylor
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Frank Barrie, Tessa Peake- Jones, Hetta Charnley, Tyler Butterworth, John Hudson, Nicholas Kaby, Michael Byrne, John Woodnutt, Joanne Pearce, Tony Haygarth
Duração: 137 minutos

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.