Crítica | Os Estranhos: Caçada Noturna

Halloween – A Noite do Terror, lançado há 40 anos, é um dos grandes exemplares do gênero de terror, tendo sido estruturalmente e tematicamente revisitado por outras obras ao longo das décadas que se passaram desde a terrível noite de 1978. John Carpenter, diretor não apenas desta, mas de diversas outras realizações extremamente influentes, é referenciado de diversas maneiras em Os Estranhos: Caçada Noturna – sequência do primeiro filme de 2008, intitulado apenas de Os Estranhos. Todavia, isso não é algo a ser encarado como demérito, muito pelo contrário, visto que não é pouca coisa ter-se Carpenter como uma de suas influências. São vários elementos semelhares, muitos que retornam do filme anterior, como os antagonistas, versões do icônico Michael Myers, com máscaras distintas para os tornarem, presumidamente, memoráveis. Mas os problemas começam justamente por aí, quando o efeito comparativo surge, o que coloca a obra dirigida por Johannes Roberts em xeque, quase como uma derivação pouco acertada, um clone de qualidade discutível.Antes de qualquer coisa, deixando de fora um embasamento sobre o longa anterior, Caçada Noturna é inconstante na abordagem dos seus vilões, da natureza deles. Afinal, os famigerados estranhos são mortais ou imortais? Esse fator é crucial para o estabelecimento de regras específicas, necessárias para imersão, além do desprendimento de visões mundanas, ou a aproximação destas, na hora de enfrentar os inimigos. As mortes começam logo na primeira cena, assim como os erros.

Contudo, em defesa da direção, o maior problema da obra encontra-se no roteiro, autoria de Bryan Bertino e Ben Ketai, definitivamente genérico e pouco inventivo. A obra, como a maior parte das do gênero, investe o seu começo para estabelecer as relações entre os protagonistas da história, aqueles que se verão indefesos diante das ameaças externas, surgindo mais para frente. Tornando Kinsey (Bailee Madison), a jovem frustrada com a decisão dos pais de a levarem para um internato, a figura central da obra, a dupla acaba dependendo de uma força que não é trabalhada bem no primeiro ato, cambaleando para recriar algo inteiramente novo na hora errada. Durante perseguições e sustos, ela e o seu irmão, interpretado por Lewis Pullman, começam a conversar sobre histórias passadas, um claro intuito do roteiro de enfiar informações de background e nos aproximar daquela família sob uma vertente bastante óbvia e expositiva. A associação entre espectador e personagem, no entanto, não necessariamente deve depender disso, podendo ser algo criado a partir de decisões inteligentes tomadas por eles. Por exemplo, o próprio Luke, ao conseguir fazer uma das únicas coisas acertadas no filme, nos faz torcer por ele, protagonizando, dessa maneira, uma das melhores cenas de Caçada Noturna, ambientada em uma piscina, ao som de Total Eclipse of the Heart, decisão criativa que desperta um senso de ironia fortíssimo.

Dessa forma, a mão de Johannes Roberts é estilosa, principalmente nessa opção por uma trilha sonora dos anos 80, que cria um contraste interessantíssimo ao teor sanguinolento do resto da ficção. Além disso, o diretor opta por diversos zooms, com o ápice do uso sendo justamente nessa cena da piscina citada acima. Ademais, assim como Carpenter fez em 1978, os antagonistas muitas vezes aparecem em segundo plano, devendo ser notados pelo espectador, o que gera tensão, premeditando-se os acontecimentos de um breve futuro. Porém, em outras ocasiões, o diretor decide por levar a câmera até os estranhos, esquecendo das possibilidades infinitas que residem na angulação de planos. As intenções do diretor ficam extremamente claras. Já em demais momentos, Roberts a aponta para direções aleatórias, que nada acrescentam em termos narrativos ou de construção atmosférica, quase como uma sabotagem do espectador. Em momento claro de deficiência do que se fazer com a visão do público, o diretor entende ser necessário um dos vilões olhar para a câmera, escondido na frente de um arbusto, mesmo a vítima correndo atrás dele, fora de seu campo visual. Por que o inimigo estaria olhando para nenhum lugar, apenas sentindo a presença da presa? Eles são onipotentes quando não são vistos, mas essa invasão da intimidade deles, como se víssemos para onde Myers ia quando, de repente, sumia do alcance de visão de Laurie Strode, em Haloween, quebra qualquer clima, destruindo a imagem do terror.

A obra também não procura investir no gore. O foco é na ambientação, no suspense e na tensão, realçados, sob uma diferente instância, pela fotografia, que captura muito bem a escuridão inóspita. O cenário, bastante deserto, com uma aparente ausência de vida humana, é bastante similar, em certos aspectos, ao de Halloween, filme no qual Laurie Strode sai de sua casa, berrando, pedindo ajuda, e não é socorrida por ninguém, ignorada completamente. Não existe ninguém ou ninguém se importa? Mas há qualidades. Ambos os pais, interpretados por Christina Hendricks e Martin Henderson, são aproximados do espectador, vistos como figuras protetoras, criando-se um vínculo emocional leve, mas considerável. Contudo, é nessa troca que a narrativa fica bastante previsível, dada a equivalência dos dois como manivelas narrativas. Os Estranhos: Caçada Noturna também reitera batidas da obra original, principalmente as relacionadas com as poucas falas dos antagonistas. O interessante escopo dessa vilania, baseada no tédio que se torna diversão nos moldes de assassinatos e torturas, certamente sádico e problematicamente juvenil, é revisto da mesma maneira que a da obra anterior, que deu a uma das personagens a fala “Porque você estava em casa” à pergunta “Por que vocês estão fazendo isso?”. Portanto, o longa-metragem é convencional, utilizando dos clichês de maneira rasa, sem novidade, faltando inventividade para conciliar-se com o charmoso estilo adotado pelo diretor e, principalmente, atender a demanda por um filme verdadeiramente estranho.

Os Estranhos: Caçada Noturna (The Strangers: Prey at Night) – EUA, 2018
Direção: Johannes Roberts
Roteiro: Bryan Bertino, Ben Ketai
Elenco: Bailee Madison, Lewis Pullman, Christina Hendricks, Martin Henderson, Emma Bellomy, Damian Maffei, Lea Enslin
Duração: 85 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.