Crítica | Os Estranhos

estrelas 4

O medo do desconhecido é algo mais avassalador que a certeza diante do mal que alguém, em algum instante do tempo, confronta. Diante dessa estrutura é que o cineasta Bryan Bertino, profissional que também assina o roteiro, ergue a narrativa de Os Estranhos, filme de terror cheio de elementos misteriosos e minimalismo, capaz de fazer a plateia se arrepiar só de pensar em viver situação similar.

No filme o casal Kristen Mckay (Liv Tyler) e James Moyt (Scott Speedman) é aterrorizado numa casa distante de tudo. Os algozes? Três mascarados que insistem em trazer pânico e pavor para a noite já deteriorada do casal, haja vista os problemas de relacionamentos que ambos enfrentam. Sabemos, vagamente, que ele a pediu em casamento, mas teve a sua solicitação negada por causa das dúvidas da moça no que tange à existência de algum sentimento suficiente para assumir tal responsabilidade.

Longe de tudo, James ainda tenta salvar a situação, mas é impedido pelo conflito que se estabelece. Num enredo que se inicia como uma história de amor em crise, transportando-se para o horror em poucos instantes, a montagem arquiteta cada plano tendo em vista alcançar o clima ideal. O resultado é positivo. Bertino alcança o nível ideal, mesmo diante das incongruências de seu roteiro, repleto de alguns detalhes soltos que não chegam a atrapalhar a fruição do suspense e a relação de empatia entre o público e os personagens.

A trilha sonora, eficiente, funciona como uma espécie de coro grego que anuncia a tragédia que envolve o casal, aliada ao trabalho do design de produção, setor que expõe as fragilidades da casa, um espaço à mercê dos criminosos que estão em busca de diversão sanguinária. Fã do subgênero slasher, Bertino utiliza-se de referências bem evidentes de clássicos, além de citar, imageticamente, filmes de maior pompa, tal como Psicose e a famosa cena de chuveiro, sem necessariamente colocar um personagem recebendo golpes de faca durante o banho.

Há clichês? Sim, muitos, entretanto, se você souber se desvencilhar deles, a sua relação com o filme será intensa. Ao longo dos seus 86 minutos, Os Estranhos estabelece bem a atmosfera de estranheza típica deste tipo de filme. Bryan Bertino afirmou ter se inspirado nos crimes cometidos pela família Manson, além de algumas pitadas dos Assassinatos de Keddie, ocorridos nos Estados Unidos em 1981.

De acordo com as informações da cobertura jornalística da época, o termo designa um quadruplo homicídio ocorrido no norte da Flórida, envolvendo esfaqueamento e espancamento, sem motivações aparentes. O local, por conta dos crimes, tornou-se uma cidade fantasma, afinal, a sua memória macabra assustava as pessoas.

Houve até recentemente rumores de uma provável sequência, com participação especial de Liv Tyler num papel pequeno. O questionamento, diante de tal informação, é direto: qual a necessidade? Os Estranhos estabeleceu um clima de pavor, sem a necessidade de muitos flashbacks e outros recursos que esmiuçassem o filme para as plateias acostumadas com roteiros quadradinhos e preso às fórmulas típicas dos manuais de dramaturgia. Um filme a mais é excesso. Desnecessário. Os produtores, por sua vez, parecem cientes disso e há tempos a sequência deixou de ser cogitada.

Os Estranhos (The Strangers) – EUA, 2008
Direção: Bryan Bertino
Roteiro: Bryan Bertino
Elenco: Liv Tyler, Scott Speedman, Gemma Ward, Alex Fisher, Peter Clayton-Luce, Kip Weeks, Laura Margolis, Glenn Howerton
Duração: 86 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.